Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me by Your Name)

O diretor Luca Guadagnino fez um filme de amor indie, gay, sem clichês e caricaturas. Mas definir Me Chame Pelo Seu Nome apenas com essas palavras seria injusto ao longa. É uma história sobre auto-descoberta. A transformação de um adolescente em um homem através de amor, sexo, amizade e admiração.

Elio (Timothée Chalamet) é um adolescente de 17 anos que mora com seus pais no interior da Itália. Ele se diverte com outros jovens de sua idade e dedica sua vida a leitura e a música. Sua percepção de mudança surge com a chegada de Oliver (Armie Hammer), um jovem estudante universitário americano mais velho, que chega como hóspede em sua casa para trabalhar por 6 semanas como assistente de pesquisa de seu pai.

O roteiro de James Ivory cria aos poucos a relação entre Elio e Oliver. Uma mistura de curiosidade, admiração, conflito e receio. A forma como os dois vão se aproximando é desenvolvida de forma muito inteligente e delicada pelo diretor. A diferença de idade e a relação entre dois homens é um tema complicado graças ao conservadorismo da sociedade, mas Guadagnino mostra que o amor entre duas pessoas, não importante o sexo, é algo natural e muito bonita.

Os atores também contribuem de forma brilhante na criação do interesse mútuo entre os personagens. A química entre Timothée Chalamet e Armie Hammer impressiona. Chalamet mostra o equilíbrio entre o lado tímido, impulsivo e confuso de um adolescente, enquanto Hammer é mais sutil, receoso e aparentemente um pouco arrogante, graças a seu lado americano. Mas quando os personagens aceitam o sentimento de atração, ambos se entregam intensamente a ele. Inclusive o papel de Oliver é um pouco mais complicado por ser o adulto da relação, entretanto a dinâmica entre os atores transforma essa relação em algo natural e verossímil, também graças a direção segura de Guadagnino para evitar polêmicas.

O cenário da história no interior da Itália contribui bastante para ilustrar a trama, principalmente por se passar no verão. A luz do sol e as cores fortes da estação e da natureza funcionam muito bem como simbolismo para o “calor” do amor. O local é explorado de forma eficaz para criar uma beleza visual poética bem interessante. A fotografia de Sayombhu Mukdeeprom explora também o movimento de câmera e a posição dos personagens para ilustrar a forma como Elio e Oliver lentamente quebram as barreiras da atração que sentem um pelo outro. Um bom exemplo disso é a cena onde eles conversam em frente a um monumento de uma batalha da 1ª Guerra Mundial. Quando eles se posicionam entre ela fica o simbolismo como se estivesse um “conflito” que impedisse a aproximação.

Além disso, os acontecimentos ocorrem no início dos anos 80 dando um charme a mais ao longa. A época é explorada através do figurino dos personagens com cores mais chamativas, e através da trilha sonora, que de maneira inteligente utiliza músicas mais alternativas para manter o clima “indie” da narrativa.

Outro detalhe importante a ser mencionado é a relação entre Elio e sua família. Seus pais são judeus, mas o filme mais uma vez não explora os clichês e os apresenta como pessoas liberais. O principal destaque é o pai, interpretado por Michael Stuhlbarg, que funciona muitas vezes como a voz da razão e de bons conselhos para o filho. O normal seria haver um conflito, já que muitas famílias têm dificuldade em aceitar a homossexualidade de seus filhos. Uma determinada cena de conversa entre Elio e o pai é um dos pontos altos do filme.

Me Chame Pelo Seu Nome” é uma linda e agridoce história de amor e amadurecimento. O diretor Luca Guadagnino realizou um filme delicado e com uma poesia visual fabulosa, que ainda se beneficia pelas ótimas atuações do elenco, principalmente dos protagonistas. Um amor de verão, daqueles com data para acabar, mas que nem por isso os personagens vão deixar de aproveitar, mesmo sabendo do desfecho.


Uma frase: – Oliver: “Me chame pelo seu nome, e eu vou te chamar pelo meu.”

Uma cena: A conversa entre Elio e Olive em frente a um monumento da 1ª Guerra Mundial.

Uma curiosidade: Timothée Chalamet aprendeu a falar italiano e a tocar piano para o papel de Elio.


Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me by Your Name)

Direção: Luca Guadagnino
Roteiro:
James Ivory
Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel e Victoire Du Bois
Gênero: Drama, Romance
Ano: 2017
Duração: 132 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me by Your Name)”

  1. O que me chamou a atenção em ‘Me Chame pelo Seu Nome’ foi a belíssima fotografia, além da maneira como a história foi desenvolvida, respeitando o tempo das personagens. O diálogo final entre pai e filho vai estar, com certeza, na lista de melhores cenas do ano.

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