Crítica | A Forma da Água (The Shape of Water, 2017)

Os mais belos e assustadores contos são feitos de sonhos, e os mais belos sonhos são aqueles que, mesmo antes de sonhados, parecem ser comuns a cada um de nós.

Guillermo del Toro é um romântico, no sentido mais próprio da palavra. Talvez, no cinema atual, nenhum artista represente tão bem esse gênero. Romantismo, vale lembrar, tem mais a ver com Edgard Alan Poe do que com Jane Eyre. Claro que o romantismo passou a ser associado a histórias de amor, porém, em sua essência, é mais próximo da falibilidade e finitude do homem e das coisas expressas pela estética gótica.

Em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017) talvez del Toro tenha encontrado o melhor equilíbrio entre aquilo que o romantismo é, em sua origem, e aquilo que a cultura pop passou a entender que fosse. Uma história de horror e monstros, ao mesmo tempo que inserida em profunda e singela delicadeza que busca, sobretudo, exaltar a beleza naquilo que é estranho e diverso, e a capacidade de se ver no outro como forma determinante daquilo que se entende por ser humano.

Fiel à sua filmografia, Del Toro abraça, sem qualquer vergonha, o gênero do horror gótico (assim já fora em A Colina Escarlate e sua obra-prima, o Labirinto do Fauno). Dessa vez, porém, recorre ao tom lúdico que caracteriza as narrativas de contos de fadas para nos contar um belíssima e tocante história de amor que, nas mãos de um diretor menos preparado, soaria apenas bizarra e estranha. Mas é no bizarro e no estranho que Del Toro está verdadeiramente em casa, e a partir dessa familiaridade, ele espalha todo seu talento diante de nossos olhos.

Tudo em A Forma da Água transpira beleza estética e poesia. Desde o design de produção que recria, de forma literalmente encantadora, uma década de sessenta que existe mais em um espaço de nostalgia de nossa memória do que em nossa realidade. E, graças a isso, é possível levar além todos os limites da verossimilhança que mantém a suspensão da descrença enquanto a fantástica e inusitada história que ele propõe se desenrola diante de nossos olhos.

A direção de arte também é exímia em reforçar todo o simbolismo relacionado ao tema da produção (reparem, por exemplo, como a cor verde é explorada no filme, das formas mais diversas possíveis, e como a mesma exerce importantes funções nas ambientações cênicas e na construção de diálogos e personagens). O mesmo vale para figurino e maquiagem, nesse quesito. A maquiagem, aliás, como de praxe, é um show à parte sintetizado na criatura anfíbia – que evoca diretamente monstro do clássico “O Monstro da Lagoa Negra” -, que apenas ganha vida graças ao espetacular trabalho – mais uma vez não valorizado pela Academia – do genial Doug Jones.

Por fim, mas não menos importante, a direção de fotografia é – como sempre se dá nos filmes de Del Toro – precisa, bela e capaz de dar uma vida e um sentido à película – que tem na água, elemento que notoriamente exige um difícil trabalho de cinematografia, seu principal motivo – que falta na maioria dos filmes comerciais. Não por acaso é uma das categorias nas quais A Forma da Água é mais competitiva, rivalizando, mesmo, com a maravilhosa fotografia de Blade Runner 2049.

No que diz respeito à premiação, aliás, A Forma da Água vem abocanhando todos os prêmios técnicos dos sindicatos, o que apenas reforça seu favoritismo. O filme recebeu 13 indicações, dentre elas as categorias principais de Melhor Filme, Direção, Roteiro Original, Atriz (Sally Hawkins), Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer) e Ator Coadjuvante (Richard Jenkins).

O elenco, a propósito, é instrumental para o raro e difícil resultado alcançado por Del Toro de nos propiciar um delicado e preciso show de equilíbrio entre horror e conto de fadas. Cada um dos personagens ali apresentados são desenvolvidos com maestria pelos seus atores. Todos são interessantes, com histórias próprias, que despertam nossos interesses. Todos vivem e respiram e não são meros instrumentos de uma narrativa. São pessoas que diante de nossos olhos vivem um drama que, por mais que inusitado e estranho, não parece muito distante de nós em sua essência.

E embora não haja nada de original em cada um deles, e sejam, em síntese estereótipos, é justamente a capacidade de apresentar estereótipos de forma tão bem construída que contribui para a fórmula da película funcionar tão bem é o que mais impressiona. O destaque fica mesmo com Sally Hawkins e Richard Jenkins. Ela com uma surpreendente atuação de uma personagem muda, porém uma mulher cheia de vida, determinação e senhora de seu corpo; ele com um personagem profundamente humano, sincero e sensível que, nas mãos de outro ator, ficaria perdido e deslocado no meio daquela história. Separados os personagens de Hawkins e Jenkins são ótimos. Juntos, são incríveis.

Isso tudo com um roteiro que tem um enredo simples e direto, acompanhando de diálogos muito bem escritos, que não apenas nos conduzem com leveza através da história, como também comunicam detalhes importantes do cenário e da vida das personagens, sem excessos de exposição, não deixando de trazer consigo um importante subtexto político que trata de desigualdade, intolerância, racismo e, principalmente, o espaço de poder da mulher sobre sua sexualidade em um mundo dominado por uma presença masculina violenta e ostensivamente monstruosa.

Em suas partes, assim, A Forma da Água transpira esmero técnico, beleza e singeleza. No todo, também, não fica atrás. A bem da verdade, é na soma de suas partes tecnicamente quase perfeitas que a película transcende tudo aquilo que se propõe a ser. Nas mãos de um maestro, um artista da sétima arte, de sensibilidade, talento e capacidades ímpar, como Guillermo del Toro é que A Forma da Água se torna uma verdadeira obra de arte do cinema.

Um filme que, como tantos outros, preencherá nossos corações, imaginários, sonhos e pesadelos, por anos e anos ainda por vir. Um pedaço de sonho apresentado para nossos olhos de forma tão esplêndida que quase nos faz crer que a ilusão do cinema, ao menos por alguns minutos, pode ser realidade.


Uma frase: Giles: “Nós não podemos fazer nada! Eu sinto muito! Mas isso, isso, isso é – Oh, Deus, isso sequer é humano. Deus!”
Elisa: [em libras] “Se nós não fizermos nada, nós também não seremos humanos”.

Uma cena: Michael Shannon mostra como se faz uma boa cena de intimidação.

Uma curiosidade: O diretor Guillermo del Toro disse que teve, desde o início, os atores do filme em mente para esses papéis; de fato, segundo ele, o roteiro e os personagens foram escritos pensando em seus atores, especialmente para Sally Hawkins – segundo o diretor e roteirista, a única opção possível para Elisa, e não apenas a primeira opção – e Michael Shannon.


The Shape of Water

Direção: Guillermo del Toro
Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor
Elenco: Sally HawkinsMichael ShannonRichard JenkinsOctavia Spencer, Michael Stuhlbarg e Doug Jones.
Gênero: Drama, Horror, Fantasia
Ano: 2017
Duração: 123 minutos.
Graus de KB: 1³ !!!-  Kevin Spacey: atuou em Um Salão do Barulho (2005) com Octavia Spencer;  atuou em The Little Sister (1986) com Richard Jenkins; e atuou em O Lenhador (2004) com Michael Shannon!



 

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

5 thoughts on “Crítica | A Forma da Água (The Shape of Water, 2017)

  1. “A Forma da Água” é um filme belíssimo, não só do ponto de vista técnico, como também por parte da história que retrata. Apesar do vilão extremamente caricatural, fica a bonita mensagem de que o amor não tem forma. Achei um filme muito sensível e muito comovente.

    1. Concordo 100% contigo, Kamilla. Mas o que eu acho interessante, no caso do vilão – e de todos os personagens; acho que só Elisa foge dessa regra – é que mesmo sendo um estereótipo, é construído com sutilezas e interpretado com tanta habilidade que, no contexto da fábula que se propõe a ser, se torna mais uma qualidade do que um defeito.

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