Crítica | Atômica (Atomic Blonde)

O trailer de “Atômica” dá a entender que ele é um filme de ação. Na verdade ele é um thriller de espionagem que parece ter sido inspirado em um livro de John le Carré misturado com 007 e Jason Bourne, com o diferencial de ter uma protagonista feminina.

A personagem interpretada por Charlize Theron tem uma personalidade muito boa e a atriz incorpora bem os trejeitos da protagonista tornando-a misteriosa, interessante e perigosa, sem deixar de ser humana. O figurino ajuda a acentuar mais esses detalhes e nuances, alternando entre cores simples e marcantes, passando do preto ao branco. O filme explora o corpo da atriz de forma diferente sem apelar para o sexismo. Dessa forma, quando a atriz aparece sem roupa se olhando no espelho vemos as marcas das lutas no seu corpo e conseguimos enxergá-la sem “máscaras”. Uma pessoa que é durona, mas que também é “frágil”.

Infelizmente, o roteiro de Kurt Johnstad, inspirado na HQ “The Coldest City” de Antony Johnston e Sam Hart, se compromete um pouco ao utilizar um excesso de reviravoltas. Elas tem como objetivo “surpreender” o espectador, mas fazem com que algumas coisas percam o sentido tirando o brilho da história.

Ainda assim, o roteiro usa bem os clichês do gênero de espionagem, como o fato da história se passar durante a queda do muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, e adiciona o fato de ter uma mulher como protagonista como um diferencial. Entretanto, o fato da trama ser contada através de um flashback, feito a partir de um interrogatório da personagem principal, faz com que alguns pontos a narrativa não faça muito sentido por apresentar ao espectador fatos que não ocorreram na presença dela.

Na história, Lorraine Broughton (Theron) é uma agente inglesa que é enviada para Berlim dias antes da derrubada do muro em 1989 para investigar um suposto agente duplo e também o roubo de uma lista com o nome de diversos espiões, algo parecido com o 1º filme da franquia “Missão: Impossível”. Na cidade o seu contato é David Percival (James McAvoy), também espião que tem um jeito peculiar de conduzir as investigações. Lá ela também terá contato com a agente francesa Delphine Lasalle (Sofia Boutella), chegando até a se relacionar com a moça ao estilo galanteador de um James Bond, com o objetivo de conseguir informações dela. A protagonista narra os eventos ocorridos na cidade para o agente da CIA Emmett Kurzfeld (John Goodman) – que inclusive aparece na cidade dizendo para ela não confiar em ninguém – e um do MI6 chamado Eric Gray (Toby Jones).

O fato da história se passar no final dos anos 80 é explorado tanto pela direção de arte, que recria muito bem a cidade de Berlim mostrando os contrastes entre os lados ocidental e oriental, mas principalmente pela trilha sonora. A seleção de músicas é fantástica e um dos pontos altos do filme. E as canções são utilizadas de forma diegética, de maneira parecida com “Em Ritmo de Fuga”, como por exemplo em uma cena de luta em um apartamento na qual Lorraine resolve colocar uma música em volume alto para chamar a atenção dos bandidos e a canção vira a trilha do conflito.

Na parte de ação, apesar de haver poucas sequências, as que acontecem são muito bem realizadas e sem exageros. A luta na escada entre a protagonista e outros homens é sensacional. Filmada sem cortes ela impressiona pelo grau de realismo e também pela parte técnica que conseguiu apresentar algo melhor que os filmes de Jason Bourne.

O destaque principal fica por conta da atuação cheia de talento e carisma de Charlize Theron, provando que é capaz de entregar uma boa atuação não importa o gênero. O resto do elenco também merece elogios, especialmente James McAvoy que também mostra sua ótima versatilidade. O cineasta David Leitch se consolida como diretor de filmes de ação, comandando sozinho seu primeiro trabalho após fazer dupla com Chad Stahelski em “De Volta ao Jogo” do qual foi produtor. “Atômica” diverte e surpreende por apostar mais em uma trama de espionagem do que simplesmente se apoiar em cenas de ação exageradas.


Uma frase: – David Percival: “Não atire, estou com seu sapato.”

Uma cena: A cena da luta da protagonista contra outros homens na escada filmada sem cortes.

Uma curiosidade: Charlize Theron teve oito personal trainers para conseguir o corpo ideal para sua personagem. A atriz também já treinou com Keanu Reeves enquanto o ator se preparava para “John Wick: Um Novo Dia Para Matar“.


Atômica (Atomic Blonde)

Direção: David Leitch
Roteiro: Kurt Johnstad, baseado na HQ “The Coldest City” de Antony Johnston e Sam Hart
Elenco: Charlize Theron, James McAvoy, John Goodman, Til Schweiger, Eddie Marsan, Sofia Boutella, Toby Jones, Bill Skarsgård, Sam Hargrave, James Faulkner, Roland Møller e Barbara Sukowa
Gênero: Ação, Mistério, Thriller
Ano: 2017
Duração: 115 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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