Crítica | Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, 2017)

Superar o ser humano pode ser a única salvação possível para o mundo.

Em essência um épico é uma colcha de retalhos de temas e estilos mais diversos da literatura. A espinha dorsal é, sem dúvida, a jornada do herói. Porém há também drama, romance, comédia, suspense, e tantos outros quanto possíveis. O bom épico absorve tudo isso de forma orgânica e utiliza para impulsionar sua narrativa principal.

Dito isto, não há muitas dúvidas de que Matt Reeves fez de Planeta dos Macacos: A Guerra (2017)  um épico de nosso tempo. Um trabalho que discute a natureza humana, temas políticos e profundas relações entre os seres, e desses seres com o mundo.

Reeves (recentemente escalado para assumir o novo filme do Batman) talvez seja um dos mais talentosos diretores de sua geração. Apesar de ter assumido a nova trilogia da franquia Planeta dos Macacos apenas no segundo filme, foi ele quem deu a forma definitiva da história. E a história dessa trilogia – que se apresentou como um “prequel” da série clássica, mas sem dúvida a superou em vários níveis – é a história da jornada de um espantoso herói: César.

Ave, Andy Serkis!

César, a propósito, é personificado esplendidamente por um sempre genial Andy Serkis. O trabalho de Serkis é pioneiro na técnica de captura de movimentos, porém, ele o transcende com excelência. Suas expressões faciais e o olhar – talvez a parte mais forte do personagem e, muito por isso, do trabalho ator – falam mais com a audiência e contam a história melhor do que qualquer recurso.

Em tempos de atores sistematicamente supervalorizados – só me vem à mente Emma Stone quando penso nisso – é sempre importante destacar o quanto um ator do quilate de Serkis vem sendo subvalorizado. Mais até mesmo do que Leo, já que Serkis sequer costuma receber indicações por seu trabalho.

Superado o ponto da atuação de Serkis – que por entender merecer destaque, busquei tratar assim que possível – sigamos a falar especificamente do terceiro filme da que fecha essa a trilogia da franquia. Com a ressalva de que, ao falar desse filme, se exige a todo tempo um diálogo com a franquia inteira.

Uma guerra há muito anunciada

Há dois segredos em construir uma boa narrativa: preparação e entrega. A entrega, a resolução, é apenas tão boa quanto a sua preparação. Nesse quesito os dois primeiros filmes (Planeta dos Macacos: A Origem e Planeta dos Macacos: O Confronto) foram muito bem sucedidos. Porém, de nada adianta uma preparação se o encerramento não dialoga com esta. Matt Reeves, nesse ponto, é atento aos detalhes como poucos. Ele aproveita cada um dos elementos que foram sendo desenvolvidos ao longo dos filmes prévios para fazer sua trama alcançar as proporções que ele pretende.

Reeves, inclusive, é inteligente ao ponto de perceber que para sua história funcionar, ele não precisa se preocupar com preparação. Desde o primeiro momento a ação domina a película, sem perder o ritmo em nenhum momento. Não há gorduras, não há excessos, não há sequer exageros. Reeves sabe dar o tom certo à coisa toda, sem as saídas estapafúrdias que corriqueiramente são usadas na indústria. O filme é uma montanha russa de emoções do início ao fim, sem muito espaço para se respirar. E isso é dito aqui de uma perspectiva positiva.

Do ponto de vista técnico Reeves também se destaca. Seu domínio de câmera impressiona desde a primeira sequência. A fotografia, o enquadramento, a composição, e até o figurino e a trilha, desta primeira sequência, evocam, acertadamente, o Kubrick de Nascido Para Matar (1987) ou o Stone de Platoon (1986). Sua principal referência, porém, sem dúvida, é a seminal obra Apocalypse Now (1979) de Coppola. Reeves está nos anunciando que é esse o tipo de guerra que veremos aqui, com todo o paralelo com as implicações políticas que lhe foram típicas.

Um épico de nosso tempo, para nosso tempo

Esse aspecto político se destaca em inúmeros momentos do roteiro. Roteiro que, por sinal, se desenvolve muito bem. Reeves e seu parceiro Mark Bomback acertam quando decidem focar a narrativa em um pequeno grupo de macacos, quase uma pequena comitiva do anel, apoiando seu líder alquebrado em uma jornada de vingança que o levará a se confrontar com o que há de pior em cada um de nós. Sem dúvida, trata-se de um motivo recorrente.

Porém, ver de maneira tão marcante um macaco assumir o que há de mais vil na natureza humana, de forma aberta e consciente, nos estremece acerca da natureza daquilo que somos ou pretendemos ser. A luta de César, afinal, reside em superar não o macaco em si, mas aquilo que o aproxima do predador mais perigoso sobre a face do planeta Terra.

Essa parte da jornada de César é significativamente apoiada pelo bom ótimo vilão encarnado por Woody Harrelson. O Coronel nos conquista, pois, embora seja nitidamente inspirado no personagem Marlon Brando em Apocalipse Now – outra declarada referência para Reeves -, no fim das contas não é nada mais do que humano, irremediável e tipicamente humano.

Em um momento marcante do filme, por exemplo, César confronta o Coronel (Woody Harrelson) e ao fundo Hey Joe de Jimi Hendrix pode ser ouvida tocando no aparelho de som da sala do vilão. A mensagem não poderia ser mais clara.

O conflito político ali abordado é profundamente comprometido com o momento atual das tensões raciais nos EUA e no mundo. E se ainda assim isso não ficar claro, Reeves em seguida deixa seu ponto bem explícito com algumas chicotadas no lombo. E não, isso não é ruim quando consideramos a necessidade de se debater e se revelar que o racismo existe de forma sistêmica e estrutural, particularmente contra os negros, seja nos EUA, seja no Brasil, seja no mundo.

Narrativa sensível, inteligente e tecnicamente excelente

Some a tudo isso ótimos personagens coadjuvantes – com destaque para o excelente e enternecedor alívio cômico Bad Ape de Steve Zahn – com funções bem definidas, e um arco que, além de dialogar muito bem com toda a série, evoca fortes simbolismos e elementos até mesmo messiânicos, e não resta dúvidas de que a jornada de César é um épico que precisamos nesses tempos áridos e sombrios.

Além do mais, o que deixa a experiência ainda melhor é a profunda sensibilidade técnica de Matt Reeves. Ele explora, como já destacado, em cada frame de sua obra, os recursos da melhor forma possível, não por preciosismo, mas sempre a serviço da narrativa; assim, conferindo, em todos os sentidos, a profundidade e a verossimilhança que o projeto se propôs a ter desde o primeiro filme dessa nova trilogia.

Nesse mesmo sentido a composição entre CGI e atores reais funciona com sucesso. Em alguns momentos sentimos uma certa estranheza ao ver César andando ativamente sobre duas pernas sem sequer se curvar, porém tal estranhamento não é resultado do efeitos visuais mal executados. O estranhamento é nosso, enquanto espécie, diante da constrangedora revelação de que somos menos do que imaginamos e que também, talvez para sobrevivência o mundo, nossa superação seja necessária.

Em outras palavras, é bem provável que o mundo esteja em mãos melhores se herdado pelos macacos mesmo.


Uma frase: “Sem misericórdia. Sem paz. Macacos juntos fortes.”

Uma cena: Um diálogo entre o Coronel e César ao som de Hey Joe de Jimi Hendrix.

Uma curiosidade: Tanto Andy Serkis que interpreta César, quanto Tery Notary, o ator que dá vida ao macaco Rocket, já interpretaram King Kong. Serkis na versão de King Kong de Peter Jackson e Notary na versão mais recente Kong: Ilha da Caveira.

 


Planeta dos Macacos: A Guerra

Direção: Matt Reeves
Roteiro: Matt Reeves e Mark Bomback
Elenco: Andy SerkisWoody HarrelsonSteve ZahnKarin KonovalAmiah MillerTerry Notary e Michael Adamthwaite.
Gênero: Ação, Ficção Científica, Aventura, Drama.
Ano: 2017
Duração: 140 minutos.
Graus de KB: 2 –  Andy Serkis atuou em O Senhor dos Anéis: As Duas Torres (2002) ao lado de Brad Dourif  que esteve emAssassinato em Primeiro Grau (1995) com Kevin Bacon.

 



Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *