Crítica | Soundtrack

O que é mais importante para o ser humano: a arte ou a ciência? “Soundtrack” faz uma reflexão interessante sobre o tema. No filme, o protagonista interpretado por Selton Mello vai para o Polo Norte em busca de isolamento e com um objetivo: tirar selfies ouvindo músicas e depois divulgar as fotos e as canções para que o público tente imaginar e ter a mesma sensação que ele ao tirar as fotos. Para os amantes de arte contemporânea essa idéia parece interessante e criativa, enquanto para muitas pessoas não faz o menor sentido.

É o caso do grupo de cientistas que está no mesmo local realizando pesquisas que podem de alguma forma mudar o mundo. O trabalho deles exige muita dedicação e rotina, sendo que alguns dos envolvidos na pesquisa nem irão ver o resultado final do projeto, que em certos casos pode durar muitos anos.

O brasileiro Cris (Mello) não encontra um ambiente muito amigável ao chegar no lugar. Temos 4 cientistas, inclusive um outro brasileiro interpretado por Seu Jorge, mas o responsável pela estadia do protagonista é Mark (Ralph Ineson, de “A Bruxa”). O inglês não fica nem um pouco feliz com a presença do fotógrafo, principalmente porque ele fica incumbido de ficar no local tomando conta do homem, passando assim o Natal longe de sua família.

A relação entre Cris e Mark é explorada de maneira eficiente pelo filme. Eles têm que se aturar, mas aos poucos vão se entendendo e observando as diferentes percepções um do outro. Os atores estão muito bem, estabelecendo uma boa dinâmica e química entre si. Selton Mello tem uma boa atuação apresentando bem seu personagem com muita sutileza. Enquanto Ralph Ineson mostra uma performance mais intensa, já que Mark não tem muito “delicadeza” em dizer o que está sentindo ou se existe algo errado.

O roteiro peca um pouco na construção dos outros 3 personagens, principalmente Huang (Thomas Chaanhing) que é apresentado como um tipo de vilão sem muita justificativa. Já Seu Jorge parece estar presente apenas para que possa trocar algumas poucas palavras em português com Selton. Além disso, a história poderia também ter se aprofundado mais no protagonista.

Alguns elementos da narrativa são apenas citados sem o seu devido desenvolvimento. Por exemplo, em algumas cenas Cris fecha os olhos e tenta montar o seu equipamento. Em outro momento ele diz que sua mãe era cega, então essa seria a explicação para seu comportamento. Apesar de ser uma boa justificativa o longa não consegue apresentá-la dentro da história de forma orgânica, então parece algo gratuito com uma justificativa artificial.

Na parte técnica “Soundtrack” surpreende ao retratar muito bem o ambiente inóspito e solitário do Polo Norte. Essa parte visual ajuda a criar uma boa ambientação para retratar o isolamento que protagonista está buscando. A dupla brasileira 300ml toma uma decisão arriscada no filme ao mostrar Cris tirando suas fotos. O personagem está sempre ouvindo alguma música no seu fone de ouvido, mas “Soundtrack” faz a experiência inversa da qual o projeto artístico do protagonista propõe. Em uma cena Cris pede para que Mark olhe para uma montanha enquanto ele escolhe 3 músicas diferentes e em cada uma delas o cientista irá visualizar a paisagem de forma diferente. Então, se a idéia era através da trilha sonora causar uma impressão diferente da imagem, espectador terá que imaginá-la sem ouvir as músicas apenas através da descrição feita por Mark.

Ou seja, assim como a idéia do protagonista, “Soundtrack” é um longa interessante que ao final deixa aquela sensação de “o que o filme quis dizer“. Vale a reflexão, apesar de alguns problemas no desenvolvimento da história – que poderia ter se aprofundado mais na discussão sobre o que é arte -, que é compensado pela dupla de protagonistas Mello/Ineson que entrega ótimas atuações.


Uma frase: – Mark: “Veio até aqui para tirar selfies?”

Uma cena: O ritual de correr pelado na neve em volta do alojamento.

Uma curiosidade: Embora se passe no Ártico, Soundtrack não teve nada rodado lá e sim numa réplica (perfeita) das estações de pesquisa na neve, instalada no Polo do Audiovisual, no bairro carioca de Jacarepaguá, cujo chão ficou branco sob três toneladas de flocos brancos sintéticos, feitos de celuloide. (fonte: Omelete)


Soundtrack

Direção: 300ml
Roteiro: 300ml
Elenco: Selton Mello, Ralph Ineson, Seu Jorge, Thomas Chaanhing e Lukas Loughran
Gênero: Drama
Ano: 2017
Duração: 112 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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