Crítica | Power Rangers

Power Rangers deveria ser uma aventura leve e divertida, mas foi transformada na história de um grupo de adolescentes lidando com os problemas da sua idade. Isso não seria um problema, se o roteiro conseguisse construir essa narrativa de forma interessante. Só que temos mais de 90 minutos (de um total de 120) gastos na apresentação dos personagens e ainda assim ele não consegue fugir dos estereótipos de filmes sobre adolescentes, ou pelo menos usá-los de maneira convincente.

Não é qualquer um que consegue fazer captar bem o retrato dos jovens, algo que John Hughes fazia muito bem. Elementos parecidos com os de “Clube dos Cinco” são utilizados, mas não de forma positiva. Por exemplo, uma cena com os personagens estão na beira de um fogueira lembra bastante um momento do filme de Hughes, quando cada um resolve contar algo pessoal que nenhum dos outros sabe. Isso seria interessante dentro do contexto do filme, já que os cinco jovens não eram amigos e se encontram por acaso quando sofrem um acidente que os transforma em Power Rangers. Só que o momento é falho porque nem todos os protagonistas resolvem se abrir.

Falta também carisma e química entre os atores. Os intérpretes dos Rangers são medianos, mas eles falham em conjunto ao não conseguir passar a sensação de um grupo unido, nem mesmo no final. O roteiro de John Gatins também não ajuda muito. Dacre Montgomery, que dá vida a Jason Scott / Ranger Vermelho, não consegue demonstrar liderança e seu conflito com Zordon (Bryan Cranston), que questiona o seu papel de líder, é bastante frágil.

A parte do treinamento dos jovens para se tornarem Rangers é a mais problemática. O filme fica adiando a “hora de morfar” até o final, para criar um clímax, mas isso só acontece momentos antes do filme chegar ao fim. Repentinamente tudo parece “natural”, utilizar os veículos é algo fácil – no máximo mostra um pequeno deslize de um deles ao bater em um prédio sem querer (vale citar que os próprios heróis são responsáveis por uma parte da destruição da Alameda dos Anjos, já que alguns de seus veículos são tão pesados que destroem o asfalto, por exemplo). Para chegar a momentos de grandes sacadas como: “olha, temos uma espada, pega ela aí“. E a única coisa que eles realmente aprenderam no treino era justamente o necessário para resolver o situação.

O excesso de drama fica ainda mais claro quando a vilã Rita Repulsa, interpretada por Elizabeth Banks, surge na tela. Impossível a levar a sério pelo seu jeito exagerado, que felizmente é criado de forma eficiente pela atriz ao construir a personagem no limite do caricato. Outro exemplo é Alpha 5, o robô assistente de Zordon dublado por Bill Hader, que surge mostrando carisma e um pouco de bom humor, mas é anulado pela “seriedade” dos Rangers.

A própria mitologia em torno dos Power Rangers não é bem explorada. A cena inicial, que mostra uma batalha entre Zordon e Rita, é a única que explica um pouco da origem, junto com outros diálogos expositivos entre Zordon – preso dentro de um telão prateado – e os Rangers. Mas não é citado, por exemplo, a referência aos dinossauros dos veículos dos heróis. Para quem é familiarizado com a franquia não tem problemas, mas o filme tem que funcionar como obra independente, então isso é deixado de lado.

Pelo menos em sua parte técnica Power Rangers não decepciona. Os efeitos visuais são bons e as cenas de ação, que infelizmente são poucas, são divertidas. A primeira luta dos heróis logo após “morfarem” é legal, apesar de curta. Enquanto o momento da batalha dos heróis usando seus veículos é confusa em boa parte, mas a luta do robô gigante é bem realizada, mesmo não chegando nem próximo de “Círculo de Fogo”. O filme até ironiza “Transformers” com uma referência divertida, mas ambos têm problemas parecidos ao esconder sua grande atração por muito tempo.

Muito drama para pouca diversão, e o drama não é tão interessante e bem desenvolvido a ponto de compensar, ou pelo menos fazer com que os personagens sejam bem trabalhados e apresentados. O diretor Dean Israelite tenta criar, sem sucesso, uma história de redenção dos personagens. Seus problemas e suas falhas serão compensados ao se transformarem em Power Rangers e salvarem o mundo. Só que mesmo em um filme de origem essa mensagem não é explorada de forma convincente, resultando em algo artificial e superficial.


Uma frase: – Jason Scott / Ranger Vermelho: “É hora de morfar!”

Uma cena: Jason Scott de carro tentando escapar da polícia.

Uma curiosidade: Bryan Cranston, que interpreta Zordon no filme, já dublou outros monstros em Power Rangers (1993). Além disso, o nome do primeiro Ranger Azul – Billy Cranston – foi uma homenagem ao ator.

 


Power Rangers

Direção: Dean Israelite
Roteiro: John Gatins
Elenco: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Becky G, Ludi Lin, Bill Hader, Bryan Cranston e Elizabeth Banks
Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi
Ano: 2017
Duração: 124 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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