Crítica | Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016)

Caça-Fantasmas traz de volta dos mortos uma das franquias mais amadas da década de 80, com respeito ao material original muito bom humor, weird science e girl power.

As expectativas geradas em torno de qualquer projeto cinematográfico sempre interferem na recepção do público ao mesmo. Em tempos de internet e redes sociais, mais ainda, o monstro da expectativa pode ser ainda mais cruel e inclemente.

Portanto, não é de se espantar que desde o seu primeiro trailer de promoção a nova versão de Caça-Fantasmas tenha sido alvo de uma enxurrada de críticas e narizes torcidos. Nesse caso, não apenas a expectativa, mas um compósito de memória afetiva idílica com um toque sutil – mas não menos importante – de machismo deram o tom do sustentáculo das críticas.

Os Fantasmas do Verão Passado

O Caça-Fantasmas de 1984 foi um imenso sucesso de público. Na sua época, claro, não foi tão unânime com crítica. Trata-se de um filme da lavra do (quase) sempre competente Ivan Reitman (responsável por outros grandes sucessos como Irmãos Gêmeos e Um Tira no Jardim de Infância).  O roteiro era ssinado por Harold Ramis e Dan Aykroyd, que na época, eram os grandes nomes da comédia nos EUA. Ramis, não por acaso, é o responsável por uma das melhores comédias/filmes existencialistas da história: Feitiço do Tempo.

A história do Caça-Fantasmas original gira em torno de três parapsicólogos, cientistas que investigam o paranormal – campo que durante a Guerra Fria chegou a ser considerado uma área de investigação séria, mas que depois caiu no completo descrédito por conta do próprio objeto de estudos – e que sofrem o ridículo ao qual qualquer acadêmico nessa área estaria sujeito.

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Boa parte das piadas de situação de Caça-Fantasmas advém dessa relação entre o cientificismo, o inexplicável e o pedantismo da academia. O Dr. Peter Venkman – interpretado com a peculiar competência e o humor sutil de Bill Murray -, por exemplo, representa uma sátira a essa concepção estereotipada da ciência positivista contra os investigadores do inefável, atuando sempre num campo limítrofe entre o cínico e charlatão.

É a partir daí que toda a linha narrativa de os Caça-Fantasmas parece se desenvolver; a partir de uma pergunta: o que aconteceria se o sobrenatural realmente pudesse ser comprovado cientificamente? Evidentemente aqueles que foram durante tanto tempo ridicularizados teriam sua desforra. Ou não? Ou será que a necessidade da mente humana de negar o incompreensível é tão grande a ponto de se cegar para as evidências? Se for assim, haveria apenas uma forma desses intrépidos investigadores do impossível terem se trabalho reconhecido: sua experiência ser a única coisa capaz de salvar a vida de todos aqueles desacreditarem deles.

A partir dessa premissa – velha conhecida da ficção – Ramis e Aykroyd desenvolvem juntamente com Reitman uma divertidíssima história que equilibra como poucas ficção científica – mais especificamente weird science de deixar qualquer fã de Fringe de queixo caído -, aventura e comédia de situação.

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A parte cômica, claro, tem no seu sucesso um crédito indiscutível tanto ao diretor quanto a bem afinada equipe de atores que comandada por Bill Murray nos faz rir quase que incessantemente durante a película, cena após cena. É mérito também escolher contar essa história recorrendo á veia cômica, o que a faz muito mais interessante e palatável, haja vista que, se fosse narrada com pretensões de seriedade, facilmente cairia num ridículo de um filme B ou até pior. Os Caça-Fantasmas de Ivan Reitman não se levava a sério em nenhum momento, e isso, combinado a uma história fantasticamente absurda e um tanto quanto aterrorizante com efeitos visuais de encher os olhos e uma trilha sonora que grudava que nem chiclete, fez da produção o sucesso que foi.

O sucesso, surpreendentemente, foi também grande na faixa etária de crianças entre 8 e 12 anos. Na época do filme eu estava incluso nessa faixa e instantaneamente Caça-Fantasmas tornou-se um dos filmes que definem a palavra nostalgia para mim. Lembro, como se fosse ontem, da primeira vez em que assisti a uma cerimônia do Oscar, nos idos de 1985, então com cerca de 7 anos e nessa cerimônia a canção do filme Caça-Fantasmas era uma das concorrentes. Houve um número musical que, na minha memória afetiva, foi simplesmente genial e ate hoje insuperável.

Desde aquela época Caça-Fantasmas ocupou um lugar especial em meu coração (assim como tenho certeza de que ocupou um lugar similar em  inúmeros outros corações de minha geração). Daí ao que me refiro quando falo do problema da memória afetiva. Então, prossigamos enfim para falar do processo que levou até o filme atual, pois já deu de falar de espectros do passado.

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Tentando Caçar Fantasmas mais uma vez

Como o filme original fez bastante dinheiro uma sequência chegou a  ser produzida (Os Caça-Fantasmas 2, 1989), mas, ficou muito aquém do material original. Durante muitos anos, enfim, houve discussões para se produzir mais um filme, mas principalmente Bill Murray – compreensivelmente – era contra e portanto nada ia pra frente.

A ideia de uma sequência foi abandonada pro algum tempo até que, há cerca de 10 anos, novos boatos voltaram a surgir, agora com uma nova proposta: criar um novo grupo de Caça-Fantasmas, uma nova geração, que seria tutelada pela antiga geração. Ramis já teria inclusive um roteiro escrito com Dan Aykroyd que chegou a ter nomes com Ben Stiller associados ao projeto, e posteriormente Seth Rogen e Jack Black, a serem dirigidos por Jason Reitman (responsável por Obrigado por Fumar e Amor sem Escalas,  e filho de Ivan Reitman), bem como dos produtores executivos da premiada The Office USA, Lee Eisenberg  e Gene Stupnitsky, também ligados a uma outra versão.

A tortuosa história da tentativa de se fazer um terceiro filme da série pode ser lida em um bom artigo do site IGN. Em suma, nenhum projeto parecia decolar sem o aval de Bill Murray. Com a prematura morte de Harold Ramis em 2014, o diretor Ivan Reitman anunciou seu desinteresse definitivo no projeto de um Caça-Fantasmas 3, abrindo caminho para o reboot. A ideia do reboot parecia ser, de fato, mas adequada, dado o longo hiato entre o segundo e um eventual terceiro filme, sendo mais capaz de reapresentar a franquia para novas audiências ao passo que, concomitantemente, seria também capaz de manter os faz do filme original.

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Por se tratar um reboot a possibilidade de substituir todo o elenco original por um elenco de mulheres logo ganhou evidência. Ironicamente, Bill Murray pareceu achar que a ideia de um reboot com mulheres seria mais interessante do que outras porpostas já colocadas até então. Como o aval de Murray, ainda que de uma perspectiva muito mais simbólica, sempre teve muito peso na franquia, isso pareceu contribuir para que o projeto enfim deslanchasse. Ainda naquele ano o diretor Paul Feig, parceiro habitual da atriz Melissa McCarthy em filmes como Missão Madrinha de Casamento, As Bem-Armadas e A Espiã Que Sabia de Menos, seria anunciado como roteirista ao lado de Katie Dippold e também como diretor.

Não demorou para que além de Melissa McCarthy a atriz Kristen Wiig fosse também anunciada no elenco, aos quais se uniram Kate McKinnon e Leslie Jones compondo o grupo das novas Caça-Fantasmas, prontas a intrepidamente enfrentar as ameaças que residem na fronteira do paranormal.

As Caça-Fantasmas

Quando o primeiro trailer da nova versão de Caça-Fantasmas surgiu na internet, logo o bom e velho problema da memória afetiva – e daquele machismo que sempre insistimos em negar, mas que está lá – provocou reações de desagrado dos mais variados espectros. Claro que a justificativa era outra: o filme, segundo alguns afirmavam, não parecia ser engraçado o suficiente.

A bem da verdade o filme original é bastante engraçado. Mas sua veia cômica não tem muito a ver com aquilo que o grande público da última década e meia se habituou a entender como comédia. Após filmes do quilate da série Todo Mundo em Pânico, Super-Herói: O Filme e Inatividade Paranormal lotarem salas de cinema, há um claro indício de que a audiência havia associado o termo engraçado apenas a pastelão e escatologia de baixo nível. Enfim, como já disse antes, toda a graça de Caça-Fantasmas sempre esteve em uma versão inusitada da comédia de situação, por colocar pessoas reagindo com bom humor e cinismo (Bill Murray, nesse caso) diante de absurdo.

Nesse sentido a nova versão dos Caça-Fantasmas é um fiel sucessor do original de 1984. O filme de Paul Feig consegue explorar a mesma estrutura da obra de Reitman, Aykroyd e Ramis sem ser uma mera cópia com mulheres da película original. Lá estão todos os elementos que contam: a investigação do sobrenatural como algo ridículo e cientistas lutando para provar que seu objeto de investigação não deve ser motivo de chacota, sem qualquer sucesso.

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Assim, a escalação de Wiig e McCarthy nos papéis principais foi muito bem sucedida. Wiig tem um estilo de comédia bem similar ao de Bill Murray, daqueles que fazem você rir mesmo quando a cara dela permanece impassível. McCarthy, por sua vez, ocupa espaço similar ao de Dan Aykroyd no filme original. Mas em matéria de timing cômico McCarthy supera as demais e, diferente do original, nesse filme vemos a todo momento as comediantes servirem de escada uma para outra em situações distintas.

Claro que mesmo no quesito elenco nem tudo é um paraíso. A atriz Kate McKinnon, que encarna a tresloucada e genial engenheira Jillian Holtzmann, está muito aquém de suas companheiras de tela, e sua inabilidade me atuar caba se tornando evidente e constrangedora. Uma pena, pois ela tem uma ótima personagem em mãos e a desperdiça. Por outro a atriz Leslie Jones quase sempre rouba a cena, mas a ela não lhe foi dado um personagem que vá além do esterótipo do negro que costuma ser explorado nas comédias estadunidenses. Uma pena para um filme buscou ousar no quesito de protagonismo e empoderamento feminino, não se dar conta de perpetuar certos traços de racismo típicos da indústria cultural estadunidense.

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Apesar do deslize no quesito racial o filme é muito feliz na crítica ao machismo. O roteiro leva as inversões ao extremo na pessoa de Kevin, o personagem de Chris Hemsworth, que é o secretário – bonito e burro da equipe -, contratado apenas pelos seus atributos estéticos, que serve como crítica ao papel que as mulheres costumam ter nas produções da indústria. Em diversos momentos ao longo da fita é diversas mensagens – alguns menos evidentes, outras mais – de que aquele filme é também um filme sobre empoderamento feminimo. E isso é feito sem que soe panfletário ou comprometa o desenvolvimento da trama.

O filme tem porém um problema que incomoda no roteiro e que o distingue do original. Nesse filme, diferente do primeiro, há um vilão que é um agente ativo, e está colocando em prática um intricado plano que deve trazer determinados tipos de resultados. No original o antagonista na verdade é uma força sobrenatural, uma espécie de força da (sobre) natureza e as consequências que da manifestação desta advém.

Como em qualquer história na qual há um grande vilão com um grande plano, é preciso construir e conduzir a narrativa no sentido de garantir que a suspensão da descrença nos faça crer que aquele plano, a despeito de tudo que pode vir a dar errado em algo de tais proporções, possa se realizar da forma exatamente planejada. Para isso precisamos de um plano muito bem estruturado e de um vilão que nos convença de que ele e capaz de levá-lo a cabo, tanto em suas motivações, quanto em suas habilidades.

Para isso é preciso também de um bom ator. Ocorre que Neil Casey é absolutamente incapaz de conferir qualquer desses atributos ao vilão Rowan North que enquanto personagem, não passa de uma tentativa fracassada de explorar comicamente um estereótipo; e considerando que esse vilão tem a função de fazer a trama se desenvolver  a fragilidade do personagem acaba comprometendo em certa medida a história.

Um outro problema parece estar mais relacionado à produção do que a direção em si. Em determinado momento do filme, na transição entre o segundo e o terceiro ato, fica bem evidente que uma porção significativa da película foi cortada para não comprometer a regra da extensão máxima de 120 minutos, comum no mercado para filmes do gênero.

Cortes não são incomuns em filmes, mas nesse caso, a carga emocional da dinâmica da equipe no terceiro ato fica bastante comprometida pelo corte, inclusive com alguns personagens se referenciando indiretamente a eventos que devemos nos esforçar para supor que aconteceu, para que possamos preencher certas lacunas. Melhor seria gastar mais alguns minutos de tela explorando a relações entre as protagonistas para entregar um todo que fizesse mais sentido dentro da narrativa da relação interpessoal dos personagens, uma peça importante em filmes de equipe. Cliché, sim, mas importante.

A despeito de tudo isso, Caça-Fantasmas tem uma direção competente e efeitos visuais de encher os olhos e ajudam a deixar o filme atrativo e movimentado. O design de produção também é dos melhores e a trilha sonora apesar de não tão inspirada como a do filme original cumpre a sua função de balancear momentos de tensão e comédia. O resultado final é, sem sombra de dúvidas, um filme muito que cumpre a função de bom entretimento e que honra à memória da versão original. Isso é reforçado pela presença dos atores do original em diversos pequenos papéis e participações especiais. Claro, como sempre, o destaque fica para a participação de Bill Murray que, infelizmente, não foi tão bem aproveitado como poderia.

Enfim, tanto enquanto reboot e quanto como um filme do gênero que combina comédia, assombrações e ficção científica, Caça-Fantasmas é bem sucedido. E boa parte desse sucesso – corroborada pela supramencionada benção de Bill Murray – se deve ao fato de se ter optado por se fazer um nova versão apenas com mulheres, adaptadas aos nossos tempos.

Sem dúvida trata-se de uma forma muito mais inteligente de explorar um boa franquia e quem sabe, abrir caminho para novas e divertidas aventuras do grupo de cientistas que investigam e se aventuram nas fronteiras do paranormal com muito bom humor, weird science  e girl power.


1 (Kevin) Bacon

Uma frase: Eu não tenho medo de fantasmas, e não dirijo pra Chinatown.

Uma cena: Kevin tenta atender o telefone dentro do aquário.

Uma curiosidade: Todos os Caça-Fantasmas do filme original aparecem nesse filme; até mesmo o falecido Harold Ramis, é homenageado com um busto na Universidade de Columbia, onde a personagem de Kristen Wiig leciona.


Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016)

Direção: Paul Feig
Roteiro: Katie Dippold e Paul Feig
Elenco: Kristen WiigMelissa McCarthyKate McKinnonLeslie JonesChris HemsworthNeil CaseyBill Murray, Annie PottsDan Aykroyd,  Matt WalshMichael Kenneth WilliamsAndy GarciaCecily Strong e Charles Dance.
Gênero: Ação, Sci-fi, Comédia
Ano: 2016
Duração: 116 min.
Graus de KB: 1! – Bill Murray atuou em  Garotas Selvagens (1998) com Kevin Bacon.



5 thoughts on “Crítica | Caça-Fantasmas (Ghostbusters, 2016)”

  1. Finalmente uma análise RACIONAL do filme. Eu assisti, me diverti muito e gostei. Quero continuação. E adorei a Holtzmann!

    1. Ok ok, Kate McKinnon é boa. Rs. Parece que foi só eu quem não gostou muito dela. Mas a personagem é ótima.

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