Crítica | Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (Warcraft, 2016)

Duncan Jones acerta a mão e consegue enfim entregar uma adaptação do mundo dos games para o cinema que reúne a um só tempo qualidade e fidelidade ao material original.

Desde eras ancestrais uma antiga maldição consome um mundo próspero em sua existência, mas incapaz de se transpor com sucesso para um mundo paralelo, mais antigo, e com regras próprias. Faltava, talvez, alguém com a visão, um guia, apto a guiar esse mundo por tão turbulenta passagem. Há quem diga que esse dia finalmente chegou.

O trecho acima de forma alguma é uma referência ao enredo do filme Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos do diretor Duncan Jones (Lunar, 2009; Contra o Tempo, 2011). Trata-se, para bom entendedor, da eterna luta entre a luz e as trevas (oops, deculpem)… da luta de longa data que vem se desenvolvido no universo do entretenimento para transpor os mundos e as linguagens dos games, com sucesso, para a linguagem e o mundo do cinema.

Um bem sucedido encontro entre dois mundos

Até então, puxando pela memória, é difícil lembrar de adaptações de cenários que nos games fazem imenso sucesso que o faça também, de forma equivalente, nas telonas. Resident Evil e Lara Croft talvez sejam honrosas exceções, ainda assim bastante distanciadas do material original, segundo alguns fãs.

Atendendo às expectativas Duncan Jones consegue, enfim, entregar em Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos uma adaptação que transpõe para o cinema com bastante qualidade e integridade em relação ao material original um dos mais famosos jogos de estratégia em tempo real do mundo. Com relação ao sucesso, ainda é difícil afirmar, mas sem dúvida Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos tem tudo para fazer para o mundo dos games o que o Homem de Ferro de Jon Favreau fez para os quadrinhos no cinema.

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O jogo Warcraft, da empresa Blizzard Entertainment, surgiu em 1994 e teve uma continuação em 1996, respectivamente, Warcraft: Orcs & Humans e Warcraft: Tides of Darkness. Durante anos a Blizzard dominou o mercado num novo estilo de jogo que ela praticamente desenvolveu – haviam similares mas Warcraft foi mesmo a ponta de lança que arrastou toda uma geração a jogar via computador -, levando ainda algum tempo para que amadurecesse a franquia de jogos até chegar ao universo estabelecido de World of Warcraft.

A história que vemos nas telas em Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos, assim, é uma adaptação inspirada nos eventos que transcorrem naquele primeiro jogo da série de 1994, Warcraft: Orcs & Humans. Na trama do jogo, os Orcs deixam seu mundo moribundo – no game chamado de Draenor, no filme, sem referência clara – e atravessam um portal místico que os transporta para outro mundo, o mundo de Azeroth, onde se desenvolve toda a trama. Em Azeroth os Orcs entram em contato principalmente com os humanos e, evidentemente, entram em conflito.

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Assim como no enredo do game original, é do conflito entre essas duas raças estranhas, ambas lutando por motivos dignos, sem maniqueísmos em suas razões essenciais, que se desenvolverá toda a trama de Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos.

De gamer a diretor

Apesar do game original possuir um enredo até bastante rico para o estilo de jogo a que se propunha, não havia um detalhamento de personagens e motivações que pudesse ser capaz por si só de garantir substância para uma adaptação ao cinema.

Talvez aí esteja um dos grandes méritos de Duncan Jones na adaptação: seu roteiro, desenvolvido em conjunto com Charles Leavitt é capaz de desenvolver uma trama que, apesar de apresentada de maneira acelerada, é capaz de criar um filme de fantasia e aventura interessante, bem como de apresentar e desenvolver – até certo ponto, claro, considerando algumas limitações que podem ser apontadas como intrínsecas do gênero – diversos personagens com motivações distintas.

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Talvez isso apenas tenha sido possível graças ao profundo conhecimento e respeito do filho de David Bowie ao material original. Duncan Jones cresceu jogando os jogos da franquia e, como fã, sabia que para agradar outros fãs como ele era preciso, acima de tudo, guardar alguma identidade com o material original. Jones faz isso com bastante sucesso ao apresentar e estabelecer o mundo de Azeroth, um cenário de fantasia medieval que, como todos sabem, sempre teve poucas chances de aceitação tanto no cinema quanto na TV.

O roteiro de Duncan Jones não se limita, porém, a mostrar uma boa identidade e em construir bons personagens. Ele não se exime de tomar decisões corajosas ao longo de todo o desenvolvimento da narrativa, fazendo o possível para escapar de alguns clichés de filmes de aventura, mas, claro, inevitavelmente incorrendo em outros. Todavia, a opção de tratar os personagens com honestidade, de acordo com suas jornadas pessoais, e não acomodar soluções – muitas vezes estranhas à uma melhor narrativa – apenas destinadas a tornar o filme mais palatável ao grande público, por si só, já é algo digno de grande reconhecimento.

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Em suma, Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos, em muitos momentos surpreende não por recorrer a soluções originais, mas por se preocupar muito mais em estabelecer um cenário do que em apenas contar uma história que agrade o público de sessão da tarde. O resultado é um filme com diversos tons, diversas perspectivas, que se entrelaçam e conseguem apresentar uma densidade narrativa interessante que vai além do lugar comum, tanto de games, quanto de cinema. Por isso apenas, é certo dizer, Duncan Jones conseguiu ser um herói de dois mundos.

O primeiro passo em direção a um épico

Claro que Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos, não é um filme sem problemas. Apesar dos efeitos especiais serem muito bons, é muito difícil manter uma sensação de verossimilhança – que o filme em certa medida se preocupa em passar – com a imensa quantidade de efeitos visuais de computação gráfica envolvidos. Particularmente algumas cenas de tomadas aéreas, apesar de terem sido construídas como uma espécie de referência direta à estética dos games, acaba por vezes comprometendo a suspensão da descrença. Mas nada que comprometa o resultado final do filme.

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Outro problema é, ironicamente, um resultado direto da grande quantidade de narrativas pessoais que o roteiro se ocupa de estabelecer. Apesar de haver certo desenvolvimento satisfatório de diversos dos personagens principais, essa opção parece comprometer o ritmo da narrativa que por vezes fica um tanto menos atrativa e interessante. Reza a lenda que o corte original de Duncan Jones possuía 2hs e 40 minutos de projeção. Talvez nessa versão pudéssemos ter observado uma cadência mais apropriada da narrativa, e assim mais satisfatória. Mas apesar de certos eventos transcorrerem de forma aparentemente mais apressada, ainda assim tudo se dá de forma bastante convincente.

Mas o principal problema de Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos talvez esteja mesmo na escalação de elenco. Talvez também, poderia se dizer, isso seja o resultado de um trabalho não tão bom de direção de atores. Mas essa não parece ser uma característica de Jones, que tem bastante talento nessa seara – quem assistiu a Lunar (2009) pode atestar isso -, assim a melhor hipótese é que talvez ele tenha tido que trabalhar com aquilo que lhe foi oferecido em matéria de elenco.

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O personagem principal, Anduin Lothar, interpretado por Travis Fimmel, da série de TV Vikings, acaba se resumindo a versão Azerothiana do seu Ragnar Lothbrok. Paula Patton (Missão: Impossível – Protocolo Fantasma), interpretando a semi-orc Garona também não consegue ir além do básico o que compromete bastante um dos pontos mais interessantes da trama que é a relação entre esses dois representantes entre dois mundos que são ela e Ragnar, quer dizer, Lothar. Não há muita química entre os dois, mas suspeito que isso se dê mais por conta de Travis Fimmel do que dela.

Ainda no núcleo principal, quem se destaca mais é mesmo Toby Kebbell. Apesar do ator ter feito uma participação lamentável no malfadado Quarteto Fantástico, como Victor Von Doom, ele tem alguma experiência com captura de movimentos, tendo interpretado o vilão Koba de Planeta dos Macacos: O Confronto. Isso parece lhe garantir a capacidade de interpretar com bastante competência o líder orc Durotan, que é capaz de passar de maneira convincente – mesmo como um personagem feito de CGI – o drama de um ser dividido entre o dever, a honra e a necessidade de proteger sua família, seu clã e o mundo. Provavelmente é dele também o melhor arco de personagem no filme.

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Outros que merecem destaque são Ben Foster (X-Men: O Confronto Final, Os Indomáveis) como o Guardião Medivh – um personagem com algumas nuances que Foster apresenta com bastante propriedade e que é responsável por colocar a trama em movimento – e Dominic Cooper (o Howard Stark de Capitão América: O Primeiro Vingador e mais recentemente o Jesse Custer da adaptação da TV da série em quadrinhos Preacher de Garth Ennis) como o rei Llane Wrynn de Stormwind, o principal reino dos humanos em Azeroth.

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Apesar disso tudo, Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos ainda consegue se manter um filme envolvente, atento aos detalhes de produção – o que demonstra um imenso cuidado pelo trabalho e ao material original, por parte do Diretor e da equipe – e bastante satisfatório no quesito aventura. Se o considerarmos como um dos raros representantes do gênero de fantasia medieval no cinema, é certo considerar o resultado como muito acima da média, talvez mesmo um dos melhores da cinematografia.

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Porém o que fica evidente, no fim das contas, foi que Duncan Jones tomou mesmo uma decisão. A decisão de lançar as bases para um cenário que ele pretende desenvolver. Há muito de um caráter de prólogo em Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos. Jones utiliza seu filme, e conduz seu roteiro, pensando além; pensando em de fato estabelecer um novo mundo. Nesse ponto o título em português até que nem é tão infeliz. Trata-se de fato de um primeiro passo grandioso na criação de um mundo que tem pretensões épicas, talvez de primeira grandeza.

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Tudo vai depender das bilheterias, mas Jones tem comentado que quando desenvolveu esse filme tinha em mente uma trilogia. Seria um dos raros momentos na indústria onde uma trilogia seria bem vinda, pois não se resumiria a um mero caça níquel, mas a uma sincera oportunidade de desenvolver com a devida profundidade um bom épico de fantasia medieval. Enfim, uma obra que pode fazer justiça ao material original e, ao mesmo tempo, abrir novos caminhos para um já tão esperado e desejado encontro definitivo entre o mundo dos Games e o mundo do Cinema.


Uma frase: Da luz vem as trevas… das trevas vem a luz.

Uma cenaO Rei Llane dá uma difícil ordem à Garona.

Uma curiosidade: O infame Uwe Boll tentou dirigir o filme!! Ainda bem que Blizzard foi sensata e disse não, obrigado nós temos amor ao nosso material.

 


Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (Warcraft, 2016)

Direção: Duncan Jones
Roteiro: Duncan Jones e Charles Leavitt

Elenco: Travis FimmelPaula PattonToby KebbellBen FosterDominic CooperBen SchnetzerRuth NeggaClancy BrownDaniel Wu e Glenn Close.
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Ano: 2016
Duração: 123 min.
Graus de KB: Toby Kebbell atuou em Gold (2016) com Bryce Dallas Howard que esteve em Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo (1995) com Kevin Bacon.

 



6 thoughts on “Crítica | Warcraft: O Primeiro Encontro de Dois Mundos (Warcraft, 2016)”

  1. Super ansioso por este filmaço! Joguei Wow por muito tempo, li muito sobre sua história e tenho certeza absoluta que Duncan Jones acertou a mão! Esta resenha me deu ainda mais vontade de assistir o filme!!! FOR THE HORDE!!!!

    1. Ainda não vi e as críticas negativas estavam me desanimando um pouco, mas MB e algumas outras pessoas que viram recentemente também me deixaram animados.

  2. Mario meu velho não li sua resenha enorme e cheia de detalhes porque teminei de chegar em casa da sessão, mas adorei sua nota, muito próxima de algo que eu teria dado.

    O filme me surpreendeu positivamente demais! É muito fiel as raízes do jogo, embora tenha algumas coisas questionáveis aqui e acolá teve muito respeito e carinho envolvidos e saiu a obra cinematográfica baseada em games mais bem feita até então e que pode pavimentar uma mudança de paradigma para a transição dessa fonte para os cinemas de agora em diante.

    Vejo as críticas negativas como algo muito mais inclinado a um preconceito pela origem da obra do que por ser algo realmente depreciável. Os efeitos estão muito bons, a ILM fez jus ao seu histórico e entregou um trabalho excepcional para um universo tão dependente desses efeitos. Eles estão bem feitos, ainda que rápidos, não são borrados ou em cenas escuras. Os Orcs ficaram ótimos no geral e tem um tempo de tela bem grande e que por isso deve ter consumido boa parte dos recursos.

    Como história conta muito bem os primeiros passos que levaram à explosão que será contada em Warcraft 3 o jogo que realmente foi o divisor de águas para a Blizzard e, para mim, o melhor RTS já feito à nível de produção até hoje. Com uma história riquíssima e muito bem desenvolvida.

    O caminho foi todo traçado para que o próximo filme já comece com Warcraft 3 e, se tudo der certo, será assim, acho que as 23 mil análises do IMDB indicando nota 8,0 para o filme refletem muito mais a realidade do que os exagerados e até preconceituosos 25% do Rotten Tomatoes. Mesmo que tenham sido fãs a dar essa nota ao filme creio que ela seja muito mais realista e condizente com o apresentado em tela e tomara que seja um prelúdio para que ele consiga resultados suficientes para que a continuação tenha sinal verde. Como é a Universal por trás é possível que as expectativas sejam mais realistas e eles não esperem valores como 1 bilhão para poder acharem viável continuar a história. Acho que 400 milhões seria um valor possível e suficiente para incentivar uma sequência e que essa fosse feita bem mais fiel ao jogo, pois a história de Warcraft 3 é simplesmente sensacional se for bem transportada e tem cancha para uns 2 ou 3 filmes só nele.

  3. Na época dos cinemas confesso que não levei muita fé e algumas criticas mais ‘mornas’ me fizeram perder a vontade de vê-lo no cinema. Só agora que vi pude finalmente ver que algumas pessoas estavam erradas, Warcraft tem seus problemas como você citou na sua crítica (em relação ao elenco concordo demais) mas é um bom filme. Divertido, envolvente.

    Também senti que os efeitos especiais nos tiram em determinadas cenas, mas compensa em outras. Enfim, é uma pena se as continuações não virem, Duncan Jones abriu um caminho promissor que talvez nem todos tenham dado a devida chance, e eu me incluo entre estes.

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