Review | Homeland 5×02: The Tradition of Hospitality


O comentário a seguir contém pequenos spoilers.

A tradição da hospitalidade é um dos alicerces do chamado direito das gentes, contemporaneamente conhecido como direito internacional. Kant escreveu sobre isso em seu opúsculo Paz Perpétua pontuando a importância desse costume. E em se tratando de relações internacionais costumes são tão ou muitas vezes mais importantes do que qualquer lei ou tratado.

A hospitalidade, em síntese, afirma que todo e qualquer estrangeiro quando fora de sua terra natal tem o direito de invocar abrigo, e o dono da terra por sua vez tem o dever de concedê-lo, garantindo, evidentemente, o bem estar e a segurança de seu hóspede graças sobretudo a um dever moral. Se tal dever não for seguido, não há qualquer garantia de segurança que possa ser concedida ao dono da terra, ou a um compatriota seu, quando na terra de seu hóspede. Pelo menos era assim que costumava ser pois, no mundo contemporâneo, esses antigos costumes parecem estar um tanto quanto às avessas.

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Nesse segundo episódio da quinta temporada de Homeland Carrie Mathison (Claire Danes) acompanha seu novo chefe Otto Düring (Sebastian Koch) a uma visita ao campo de refugiados sírios de General Alladia no Líbano. Uma visita que foi delicadamente negociada com o Hezbollah que, a despeito do campo ser oficialmente da ONU, é quem efetivamente o comanda. Nada ocorre no campo sem que o Hezbollah autorize; ou pelo menos, assim deveria ser, pois à medida que milhares de refugiados chegam quase que diariamente no campo de refugiados manter o controle sobre uma situação de caos crescente é cada vez mais difícil, conforme um dos líderes do Hezbollah no campo afirma ao informar Carrie que a visita deve se restringir a não mais do que uma hora.

Paralelamente, na Alemanha, Quinn (Rupert Friend) segue com sua missão black ops ordenada por Saul (Mandy Patinkin) de retirar do jogo alvos estratégicos que de alguma forma estão ligados aos Estado Islâmico. Enquanto Saul, por sua vez, tem que lidar com as repercussões do vazamento de dados da operação conjunta de espionagem com o governo alemão. Repercussões que vão desde reposicionar agentes de campo e operativos a ter que oferecer cordeiros expiatórios em holocausto para aplacar a ira da opinião pública germânica. Mas se alguns cordeiros são lobos travestidos em peles, dentro da Agência, bem, é bem provável que não haja um cordeiro genuíno sequer. Ao explorar situações como essa a quinta temporada de Homeland ensaia para se afirmar como uma das melhores de toda a série por optar em expandir a narrativa para abordar o jogo mundial da espionagem e as relações políticas e profissionais dentro da Agência. A coisa toda ganha uma dimensão mais interessante com o jogo de intrigas que envolve vaidades, necessidade de sobrevivência de milhares de pessoas bem como de uma sobrevivência profissional e política.

Enquanto isso, ainda no Líbano, após acertar os detalhes finais da visita de Düring e retornar ao hotel onde está hospedada a comitiva da Fundação Düring, Carrie encontra no lobby um antigo companheiro da CIA, Hank Wonham (Alex Lanipekun). Hank tenta conseguir informações sobre o Hezbollah no campo de refugiados com Carrie, ou mesmo uma avaliação de quão grave as coisas estão por lá, mas ela se nega afirmando que não pode comprometer sua posição parecendo estar colaborando com a Agência.

Hank tem dificuldade a acreditar naquilo e questiona sua antiga colega se aquilo não seria na verdade um grande operação secreta dela e de Saul para infiltrá-la no lado inimigo, insinuando que a Fundação Düring possa estar de alguma forma envolvida com financiamento ao Estado Islâmico ou a organizações congêneres. No primeiro episódio essa insinuação já havia sido feita, mas agora ela é mais bem demarcada. Insinuação essa que nos leva, evidentemente, a flertar com a possibilidade de que ela seja verdadeira, e que de fato as ações de Claire e Saul sejam um jogo dentro do jogo. Sombras se movendo por entre sombras. Há quem diga que esse talvez não seja o caso, pois Homeland não é afeita a esse tipo de reviravoltas, mas ainda assim serve para nos colocar uma certa pulga atrás da orelha.

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Ou talvez a pulga seja mais do que uma pulga. Seja a clara intuição de que nada em Homeland é o que parece ser. A tensão desenvolvida ao longo de todo o episódio chega ao clímax na visita de Otto Düring ao campo de refugiados. Durante toda a cena somos envolvidos na apreensão de Carrie à espera de um ataque e sinceramente não temos certeza se ele vem ou não. Mas quando ele enfim chega, apesar de não ficarmos surpresos pelos fatos somos surpreendidos com o desenrolar dos eventos. Mais ainda, com aquilo que sucede aos eventos quando enfim nos é revelado que Otto Düring não era o verdadeiro alvo do ataque, mas sim Carrie Mathison. Saber que há um alvo desenhado nas costas da personagem principal levanta uma série de perguntas que podem tanto corroborar a teoria de Hank Wonham, das mais diversas formas, como servir mais para reforçar a sensação de temor, desespero e vulnerabilidade de Carrie, sintetizada na ótima cena do ataque de pânico que ela experimenta, após decidir ficar no Líbano para investigar o que de fato aconteceu. Ocorre que as duas coisas não são excludentes uma da outra, então, sim Carrie é humana e teme pela vida de sua filha mas também pode sim estar envolvida em um jogo muito mais obscuro do que poderíamos supor no início da temporada.

Talvez o jogo não seja com Saul, porém. Ou talvez Quinn esteja envolvido em um jogo de intrigas ainda muito mais intrincado quando consideramos a impactante mensagem que ele recebe com o nome de seu próximo alvo. Não é possível afirmar que tenha sido surpreendente. Para mim não foi. E é fácil prever as ações de Quinn.  O interessante será observar como isso se desenvolverá na trama e que impactos isso trará no desenrolar da história. Dar Adal (F. Murray Abraham), afinal, também está ativamente envolvido no jogo, e isso pode significar que muito mais coisas sombrias estão para acontecer.

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A Tradição da Hospitalidade

Não há dúvidas de que The Tradition of Hospitality consegue ser ainda mais tenso e mais envolvente do que o seu episódio predecessor. O clima de suspense e de intriga apenas se amplia nesse segundo episódio, de maneira surpreendente, mantendo um ótimo ritmo de desenvolvimento de uma trama que não tem medo de avançar, pois sabe que há ainda muito mais a se explorar e se apresentar ao espectador. Observamos cada cena, cada diálogo rápido e cheios de detalhes com um olhar apurado e ouvidos atentos, pois sabemos que se perdermos uma palavra sequer, a história será menos saborosa.

A forma como a secular tradição da hospitalidade é tratada no mundo contemporâneo é, sem sombra de dúvidas, o eixo da história. E isso não fica evidenciado apenas no título, tampouco é difusamente espalhado pelo episódio. É mais evidente principalmente na estranha e precária aparente hospitalidade que os refugiados sírios recebem nos campos de refugiados, bem como na fabricada e, por conta disso, aparentemente débil hospitalidade que o Hezbollah confere à Carrie Mathison.

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A hospitalidade dos refugiados é mais motivada por pactos internacionais firmados em tratados e convenções, os quais são mais mantidos na aparência do que qualquer coisa; situação essa que torna esses campos dependentes de financiamentos e expostos a grandes interesses privados, escusos e obscuros que em nada se assemelham à essência da hospitalidade. A hospitalidade negociada por Carrie Mathison parece ser menos genuína ainda, mas surpreendentemente pode ter um forte componente moral, talvez muito mais significativo do que à da hospitalidade conferida aos refugiados. Não por acaso é a hospitalidade do Hezbollah à Carrie que é violada. Justamente por ser ironicamente a mais genuína. O que fica ainda mais evidente quando vemos o pequeno ato de contrição dos comandantes da organização ao tentar se mostrarem dignos da confiança que lhes foi depositada. É um artifício interessante a se recorrer para se demarcar quem são as ameaças mais emergentes em um cenário que não pode se dar ao luxo de lançar mão de ingênuos maniqueísmos.

Através dessas percepções distintas de hospitalidade somos lembrados, sem ironias, mas sim com um duro e cínico pragmatismo, de que em um mundo onde as grandes guerras são lutadas nas sombras a hospitalidade que se sustenta por conta da necessidade de manutenção das aparências – essenciais à manutenção do jogo verdadeiro nas sombras – suplantam aquela tradicional hospitalidade fundada em premissas morais.

Ou será que não? Será que há ainda há pessoas que se apegam a valores morais e fazem deles sua principal motivação? Pessoas como o hacker ativista Numan (Atheer Adel) que até aceita lucrar com sexo, mas encara o ato de lucrar com informação uma imoralidade, já que esta deve ser livre. Ou como os líderes do Hezbollah que após “interrogar” um dos seus durante horas conseguem a confirmação de que o alvo do ataque no campo de refugiados não era Otto Düring, mas sim Carrie Mathison, e passam essa informação a ela. Não deve ser por acaso também que alguém da Agência aparentemente colocou um alvo nas costas de Carrie. Estranhamente o escolhido para realizar essa missão foi justamente alguém que seria capaz de matar por ela se ela pedisse. O que também não deve ser por acaso, e sem dúvida alguma ajuda a adicionar mais tensão a trama e servir como um instrumento para nos ajudar a lançar luzes sobre diversas dúvidas, as quais sequer tínhamos conhecimento quando essa quinta temporada se iniciou.

O que talvez seja um dos grandes méritos de Homeland. Nos fazer acreditar que estamos acompanhando determinado tipo de história quando na verdade acompanhamos outra completamente diferente, pois as verdadeiras perguntas, aquelas que realmente importam, estão tão ou mais escondidas do que as respostas que valem a pena serem respondidas.



hOMELANDPostersSérie: Homeland
Temporada:
Episódio: 02
Título: The Tradition of Hospitality
Roteiro: Patrick Harbinson
Direção: Lesli Linka Glatter
Elenco: Claire Danes, Rupert Friend, Mandy Patinkin, Miranda Otto e F. Murray Abraham.
Exibição original: 11 de Outubro de 2015 – Showtime

 

 

 


Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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