Crítica | Love Kills (2025)
É incrível como o cinema nacional é plural e capaz de explorar os mais diversos gêneros, sem perder a referência ao Brasil. “Love Kills”, filme de estreia da diretora Luiza Shelling Tubaldini, adapta a hq do autor Danilo Beyruth. Em essência, temos uma história de vampiros, mas, ao situá-la em uma cidade como São Paulo, a narrativa ganha outros contornos.
A primeira coisa que chama a atenção na obra de Luiza Shelling Tubaldini é o visual. A fotografia de Jacob Solitrenick apresenta uma São Paulo onde as sombras nas ruas dão um toque estiloso à cidade. Nos locais fechados, o uso da iluminação com sobras representa o mistério em torno dos personagens, enquanto o vermelho ressalta o perigo misturado com as emoções à flor da pele. Esse destaque da cor é importante para contrastar com a hq de Beyruth, que é toda em preto e branco.
A cidade é quase que um personagem de “Love Kills”. No lugar de castelos e grandes mansões, clichês de filmes de vampiro, temos prédios enormes e vazios. As construções combinam com o clima sombrio e misterioso da narrativa.
Inicialmente vemos Helena (Thais Lago), uma mulher misteriosa em uma balada que não vê perigo na abordagem clichê de um homem em uma balada. Mal sabia ele que quem estava em risco era ele mesmo, pois ela se revela uma vampira que o ataca em busca de sangue. Esse começo é promissor. Nele vemos uma crítica e ironia à violência contra as mulheres, já que o homem não enxerga nenhum problema em sair sozinho com uma mulher desconhecida.
Depois encontramos o outro protagonista: Marcos, interpretado por Gabriel Stauffer. Ele trabalha em um restaurante e está recomeçando a vida após uma passagem pela prisão. Pouco vemos sobre sua vida, com destaque para as ligações que recebe da mãe preocupada com sua saúde. Existe um conflito entre ele e o dono do restaurante, mas é pouco explorado e o que é mostrado não é muito interessante. A importância do personagem na história surge a partir da relação com Helena, que frequenta o local de trabalho dele.
A relação entre os dois faz com que Marcos se transforme em um avatar do espectador, que é novo naquele mundo de Helena e quer saber mais a respeito. Assim mesmo que algumas conversas entre eles pareçam diálogos expositivos, eles funcionam dentro da narrativa. Dessa forma, descobrimos que existe um grupo de vampiros que está atrás da mulher. O motivo: foi ela que os transformou em vampiros, então sua morte fará com que eles voltem a ser humanos. Esse detalhe é interessante, pois em histórias envolvendo vampiros, normalmente eles são os vilões e aqueles que querem matá-los são os heróis.

A aparição desse novo grupo faz com que surja um contraste entre os tons de atuações do elenco. O grupo de vampiros abraça mais o caricato e os exageros dos vilões clássicos, com uso de frases clichês e de efeito. Enquanto o núcleo de Marcos e Helena é um pouco mais sério e dramático. Esse conflito nem sempre funciona, mas não chega a comprometer tanto a qualidade de “Love Kills”.
As cenas de lutas entre os vampiros são estilizadas, usando efeitos visuais e câmeras lentas para acentuar as coreografias. Elas são bem realizadas e contribuem para o clima de ação e aventura da narrativa, quebrando um pouco o excesso de dramaticidade.
Contudo, na parte romântica temos um problema mais relevante dentro da narrativa de “Love Kills”. O roteiro da própria Luiza Shelling Tubaldini não desenvolve a relação entre Helena e Marcos de maneira satisfatória. A pouca química entre Thais Lago e Gabriel Stauffer ajuda a intensificar a questão.
Apesar dos pequenos percalços, “Love Kills” é um bom filme e mostra que Luiza Shelling Tubaldini é muito talentosa, tanto como diretora quanto como roteirista. Após uma boa experiência como produtora (onde assinava como L.G. Tubaldini Jr., antes de fazer transição de gênero), inclusive adaptando outra obra de Danilo Beyruth (A Princesa da Yakuza), esse é seu segundo trabalho na direção. E ela demonstra que tem capacidade de assumir o comando de suas próprias obras cinematográficas.

Uma frase: – Marcos [para Helena]: “A senhorita vai querer açúcar ou adoçante?”
Uma cena: A luta entre os vampiros num hospital.
Uma curiosidade: A première nacional do filme ocorreu pela mostra Première Brasil Ficção do 27º Festival do Rio em 3 de outubro de 2025.

Love Kills
Direção: Luiza Shelling Tubaldini
Roteiro: Luiza Shelling Tubaldini
Elenco: Thais Lago, Gabriel Stauffer, Erom Cordeiro, Iuri Saraiva e Alice Marcone
Gênero: Romance, Horror, Thriller
Ano: 2025
Duração: 97 minutos
