Crítica | Super Happy Forever

Crítica | Super Happy Forever

O que sobrevive quando o palácio da memória já não dá mais conta da realidade? O cinema de Kohei Igarashi responde essa questão com um interesse genuíno e afetuoso. Em Super Happy Forever, o diretor nos conduz à cidade litorânea de Izu, mas o cenário paradisíaco aqui não serve ao deslumbramento; ele é a moldura para o luto silencioso de Sano. O filme opera em duas temporalidades distintas, e é nesse movimento de “ir e vir” que compreendemos a verdadeira dimensão da ausência que o protagonista carrega.

A delicadeza com que o romance entre Sano e Nagi é desenhado é o que se sobressai nessa obra. No cinema contemporâneo, habituamo-nos a uma urgência quase coreografada, onde os personagens se lançam uns aos outros com uma rapidez mecânica. Igarashi, por outro lado, deixa o sentimento florescer na observação e no silêncio. Ele transforma itens banais — um brinquedo de plástico, um boné de beisebol vermelho — em autênticas relíquias. Esses objetos deixam de ser simples mercadorias para se tornarem marcos de uma história, pontos de referência que sustentam a memória de um encontro que o tempo insiste em desgastar.

Essa busca incessante pelo boné vermelho, inclusive, revela uma urgência que não é material, mas existencial. É o desespero de quem tenta segurar o último fragmento de uma conexão antes que ela se perca no esquecimento. A montagem do filme reforça essa sensação ao não seguir uma linha reta; o roteiro funciona simultaneamente como um prelúdio e uma sequência de uma história de amor que o espectador é convidado a completar em sua imaginação. Existe uma melancolia solar na fotografia de Izu que acentua esse contraste entre a vivacidade do passado e a apatia do presente.

O filme mostra que o luto não é um processo com fim, mas uma reconfiguração do olhar, uma reorganização das memórias. Super Happy Forever prova que as nossas conexões são muito mais profundas e invisíveis do que ousamos admitir. É um exercício cinematográfico sobre a permanência: como algo tão efêmero quanto um encontro casual na praia pode ecoar por toda uma vida através de pequenos gestos e lembranças guardadas no bolso.


Uma Cena: Sano aborda Nagi no ponto de ônibus.

Uma Frase: “Eu estou procurando um boné vermelho.”

Uma Curiosidade: O filme marcou o retorno de Kohei Igarashi ao cenário internacional, sendo selecionado para a prestigiada mostra Giornate degli Autori (Venice Days) no Festival de Veneza de 2024.


Supper Happy Forever

Direção: Kohei Igarashi
Roteiro: Kohei Igarashi, Shonosuke Miura
Elenco: Hiroki Sano, Nairu Yamamoto, Yoshinori Miyata
Gênero: Drama, Romance
Ano: 2024
Duração: 95 minutos

marciomelo

Baiano, natural de Conceição do Almeida, sou engenheiro de software em horário comercial e escritor nas horas vagas. Sobrevivi à queda de um carro em movimento, tenho o crânio fissurado por conta de uma aposta com skate e torço por um time COLOSSAL.

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