Crítica | Anaconda (2025)
O diretor Tom Gormican dirigiu a eficiente comédia de ação “O Peso do Talento” onde o grande diferencial era a utilização de metalinguagem ao colocar o ator Nicolas Cage interpretando uma versão de si mesmo. Em seu novo filme, o cineasta usa uma fórmula similar para fazer uma refilmagem de “Anaconda”, longa de 1997 que se tornou um “cult” graças ao seu elenco e o apelo trash. Ao lado de Kevin Etten, Gormican escreve um roteiro em que os protagonistas decidem refilmar a obra dos anos 1990. Desse modo, temos o filme dentro do filme.
Tudo começa quando Griff (Paul Rudd), um ator figurante que volta para sua cidade natal para o aniversário do seu grande amigo Doug (Jack Black). Na juventude eles fizeram um filme caseiro, mas nenhum dos dois conseguiu sucesso na indústria cinematográfica. Doug faz vídeos de casamento, mas ainda tem inspirações artísticas que não se encaixam no trabalho, o que o deixa profundamente frustrado. Eis que Griff faz a proposta para que eles se reúnam novamente para fazer uma refilmagem de “Anaconda”, filme que eles cultuam. Mesmo com pouco dinheiro, os dois se juntam aos outros amigos Kenny (Steve Zahn) e Claire (Thandiwe Newton) partindo para a Amazônia com o objetivo de realizar o longa-metragem.
Contudo, o roteiro da dupla Gormican e Etten inclui no filme uma trama paralela envolvendo garimpo ilegal. A misteriosa Ana (Daniela Melchior) é perseguida por João (Rui Ricardo Diaz), então eventualmente se junta ao grupo principal. O maior entrave do novo “Anaconda” está justamente nessa subtrama. Embora teoricamente inserida para conferir verossimilhança e perigo à narrativa, que nunca recebe desenvolvimento suficiente para justificar sua presença. Em um filme cujo título evoca uma serpente colossal, essa caçada humana acaba soando como uma distração que retira o brilho da ameaça principal.
É claro que estamos diante de uma comédia com um tom de besteirol, então esse problema relatado é minimizado pela utilização da metalinguagem. Uma interpretação seria de que o diretor quis incluir esse tipo de “problema” para justamente criticar a maneira como muitos dos remakes atuais são realizados. Por outro lado, o recurso parece servir apenas para disfarçar uma parte dos problemas da trama como um todo.
Outro elemento que minimiza os problemas é o magnetismo do elenco. Jack Black e Paul Rudd estão muito bem, como sempre, e esbanjam carisma, além de demonstrarem excelente química em cena. Inclusive é curioso notar a maneira como eles decidiram desenvolver a forma de atuar, como se um utilizasse características marcantes de atuações do outro. Essa troca de estilos — quase uma “atuação espelhada” — reforça o tom metalinguístico da comédia. Assim Doug parece ser o mais gente boa, enquanto Griff é um pouco mais ranzinza e resmungão.
É importante destacar também a presença de Thandiwe Newton, que consegue dar alguma dignidade à Claire, pois o roteiro apresenta poucos bons momentos para a personagem. Por outro lado, Kenny de Steve Zahn raramente funciona ao longo do filme, servindo apenas para ser a pessoa que faz tudo errado sem necessariamente ter essa intenção.

É uma pena que a presença de Selton Mello em tela seja pequena, mas o ator brasileiro aproveita todos os seus momentos e entrega uma atuação inspirada que rouba a cena sempre que está presente. Ele é Carlos Santiago, um especialista em cobras e que possui um tipo de Anaconda para ser utilizada na refilmagem do grupo. Mello desenvolve o personagem no limite do caricato, mas esbanja simpatia e talento. O momento no qual ele cria uma música tema para o animal junto com Jack Black está entre os momentos mais engraçados do filme. Sem dúvidas o longa-metragem seria muito melhor se tivesse mais de Selton.
Na parte de efeitos visuais o filme apresenta altos e baixos, pois nem sempre que a cobra gigante aparece ela parece verossímil. O resultado é uma criatura que não consegue ser nem assustadora nem genuinamente cômica. Contudo, outro elemento técnico contribui para o saldo positivo de “Anaconda”: a trilha sonora.
Os temas compostos por David Fleming (que se destacou recentemente em filmes como “Superman”) misturam bem sintetizadores com percussão, flauta e até mesmo berimbau, para criar uma mistura de música brasileira com thriller de aventura na selva. O compositor mantém uma seriedade na trilha, o que em alguns momentos ajuda na tensão e ao mesmo tempo contribuem para o humor ao levar à sério a história (algo similar ao feito por Lorne Balfe em “Corra que a Polícia Vem Aí!“). Entretanto, a escolhas previsíveis de músicas pop para ajudar na composição da trilha prejudicam as cenas em que são utilizadas.
Por último, é importante ressaltar a maneira como Doug ama o cinema. Isso se reflete em como mesmo com poucos recursos financeiros ele deseja criar uma grande obra cinematográfica. É possível enxergar um paralelo disso com o próprio diretor de “Anaconda” na realização do seu longa-metragem. No entanto, Tom Gormican não consegue alcançar o seu objetivo, apesar de possuir um bom orçamento para isso. É claro que ele respeita e faz diversas referências ao filme de 1997, inclusive trazendo alguns atores para participações especiais. Obviamente não dá para se esperar muito de uma refilmagem de um filme trash dos anos 1990, mas mesmo com problemas a versão de 2025 tem um saldo positivo graças ao carisma dos protagonistas. E não custa repetir que se tivesse mais Selton Mello, sem dúvidas seria melhor.

Uma frase: – Doug: “Mije em mim!”
Uma cena: Quando Doug dubla a trilha sonora de uma cena enquanto a trilha é executada ao fundo.
Uma curiosidade: Selton Mello dublou a si mesmo para as versões em português brasileiro e espanhol do filme.

Anaconda
Direção: Tom Gormican
Roteiro: Tom Gormican e Kevin Etten
Elenco: Jack Black, Paul Rudd, Steve Zahn, Thandiwe Newton, Daniela Melchior e Selton Mello
Gênero: Aventura, Ação, Comédia
Ano: 2025
Duração: 99 minutos
