Crítica | #SalveRosa
O filme “#SalveRosa”, de Susanna Lira, é uma grata surpresa que mostra como o cinema brasileiro sempre é capaz de surpreender com temas atuais e relevantes. A obra cinematográfica da diretora é quase um manifesto em torno da regulamentação do trabalho de crianças como “influencers” na Internet. Se para trabalhar na televisão ou no cinema é necessário seguir regras, isso não se aplica caso seja feito para conteúdo na Internet.
A trama conta a história de Rosa, uma jovem de 13 anos que tem um canal no YouTube onde faz reviews de brinquedos. Tudo é controlado por sua mãe Dora, que gerencia a carreira da filha, faz as filmagens, edita e dita como devem ser. Além disso, exerce um enorme controle na vida da jovem, vigiando principalmente o que ela faz ao usar o celular. A garota vive tão isolada do mundo que seus vídeos são feitos em casa, então seu contato com outras pessoas é apenas na escola, onde ela é vista como uma celebridade. É interessante notar a diferença entre a figura carismática e simpática de Rosa na frente da tela, enquanto no mundo real é apenas uma menina tímida que não sabe como lidar com a fama.
Isso também é retratado visualmente no filme, especialmente no uso das cores. Quando vemos Rosa em casa jantando, ela veste uma roupa azul e a cenografia usa a cor para retratar a artificialidade e solidão da sua vida real. Já no seu quarto, onde os vídeos são gravados, é uma verdadeira explosão de cores. Já em uma cena em que ela escolhe a roupa para usar no aniversário, a garota prefere um vestido azul, mas a mãe a manipula para escolher um rosa dizendo que é mais bonito e vai agradar os seguidores. Afinal de contas são eles que são o elemento mais importante da sua vida.
A história começa com mãe e filha chegando em uma nova cidade, mas não temos uma explicação do motivo da mudança. Assim ambas estão se adaptando ao novo ambiente. Dora é professora e trabalha na mesma escola que a filha, justamente para o controle sobre ela não ter nenhum momento de folga. Elas são recebidas por um casal de vizinhos que tem uma filha da mesma idade que Rosa e estuda na mesma instituição de ensino. É curioso ver a empolgação da menina ao descobrir que é vizinha de uma celebridade da Internet e em como a protagonista não sabe como lidar com a situação.

A figura da mãe é bem explorada, pois além de vermos seu lado de mãe manipuladora, enxergamos como uma mulher que cuida da filha sozinha e com isso se reserva a ter os seus momentos de prazer, principalmente envolvendo sexo. Esse é mais um ponto interessante de “#SalveRosa” ao não representar a figura materna como uma vilã clássica, mas sim como uma pessoa comum com suas falhas. Ela tem o lado supreprotetora, mas isso é comum em uma geração que é exposta aos perigos da Internet, então é bom ter um pouco de vigilância. Por outro lado, a obra de Susanna Lira explora de maneira muito eficiente o suspense e os mistérios por trás da vida de Dora e Rosa.
O próprio sentido do nome do filme só é revelado no terceiro ato e até lá o espectador descobre aos poucos os motivos pelos quais Rosa precisa ser salva. Ainda que essa explicação seja um pouco complexa, a maneira como o longa-metragem aborda o tema é muito boa.
E além de um ótimo roteiro e direção, “#SalveRosa” conta também com grandes atuações. Karine Teles transforma Dora em uma figura multidimensional e é interessante ver como ela manipula não só a filha, mas também os homens ao seu redor. Já Klara Castanho mostra toda a fragilidade de Rosa e em como cede ao controle da mãe por achar que a felicidade de sua vida gira em torno de agradar aos seus fãs virtuais. A soma de todos esses elementos transforma a obra cinematográfica de Susanna Lira em algo atual e relevante, que merece ser debatido entre os jovens, mas principalmente entre os pais.

Uma frase: – Rosa [para a mãe]: “Você não quer que eu cresça, né?”
Uma cena: Quando Dora acorda Rosa de madrugada porque está chovendo para aproveitar e fazer uns vídeos para postar nas redes sociais.
Uma curiosidade: A première nacional do filme ocorreu pela mostra Première Brasil Ficção do 27º Festival do Rio em outubro de 2025, onde o longa levou o Troféu Redentor nas categorias: Melhor Longa-Metragem de Ficção: Voto Popular, Melhor Atriz pelo trabalho de Klara Castanho e Melhor Figurino por Renata Russo.

#SalveRosa
Direção: Susanna Lira
Roteiro: Ângela Hirata Fabri e Mara Lobão (Ideia Original)
Elenco: Klara Castanho, Karine Teles, Ricardo Teodoro, Indira Nascimento e Alana Cabral
Gênero: Suspense, Mistério
Ano: 2025
Duração: 95 minutos
