Game Review | Iron Lung (2022)
Uma das coisas mais fascinantes dos jogos indie é que o baixo investimento, as equipes reduzidas e a maior tolerância ao risco permitem que esses projetos explorem caminhos que raramente vemos na grande indústria. O resultado é uma enorme diversidade de jogos — muitos deles altamente criativos, artísticos e profundamente autorais — que experimentam com ideias, mecânicas e formas de narrativa que dificilmente encontrariam espaço no mercado AAA.
Um dos artistas mais proeminentes dos últimos anos é David Szymanski. Seu primeiro grande título, Dusk, foi aclamado pela crítica e é frequentemente creditado como um dos jogos responsáveis por trazer novamente à moda os chamados “boomer shooters”.
Após o sucesso de Dusk, Szymanski optou por reduzir o escopo e focar em um conceito bastante diferente da ação frenética de seu antecessor. Em Iron Lung, o jogador passa o game inteiro dentro de um minúsculo submarino, com espaço — e oxigênio — suficiente para apenas uma pessoa.
A premissa, por si só, já é bastante intrigante: em um futuro distante, o universo, como o conhecemos, está agonizando. Um evento conhecido como “O Arrebatamento Silencioso” causou o desaparecimento de todos os planetas com potencial para abrigar vida, junto com praticamente todos os seres vivos (incluindo a humanidade). Os poucos sobreviventes tiveram a “sorte” de estarem a bordo de espaçonaves ou estações espaciais no momento do evento. Também restaram alguns poucos corpos celestes estéreis, como pequenas luas e asteroides.
Esses sobreviventes se unem para tentar entender o que aconteceu — e, quem sabe, encontrar um novo lar. Durante suas explorações, descobrem que o Arrebatamento provocou o surgimento de oceanos de sangue em algumas das luas remanescentes. Análises preliminares apontam diversos pontos de interesse no fundo desses oceanos, mas qualquer investigação mais detalhada precisaria ser feita “in loco”.
Enviar um submarino para explorar esses locais seria uma tarefa extremamente perigosa. Na ausência de voluntários, condenados são convocados para realizar a missão: caso tenham sucesso, suas penas seriam anuladas e eles receberiam a liberdade. O fracasso, por outro lado, significaria uma morte terrível.
Você assume o papel de um desses condenados. Dentro de um submarino minúsculo, completamente lacrado e sem janelas, sua tarefa é navegar por esse oceano de sangue e fotografar os pontos de interesse. Para isso, o veículo conta com uma câmera de raio-X que permite registrar imagens do fundo do oceano através do líquido. Porém, trata-se de um equipamento extremamente sensível, que exige o posicionamento exato do submarino para produzir fotos minimamente claras.

No jogo, suas ações se resumem basicamente a navegar o submarino às cegas, contando apenas com um mapa — que não mostra a posição atual da embarcação —, um sistema de coordenadas, os controles de navegação e alguns sensores que indicam a proximidade de objetos ou paredes que poderiam resultar em uma colisão (e potencial destruição). O submarino também possui um terminal de computador que permite consultar registros e mensagens que aprofundam a “lore” do jogo.
E é a medida que a exploração vai acontecendo, que o jogador se depara com a coisa mais interessante de Iron Lung – que é como o game consegue construir toda a sua narrativa utilizando basicamente dois elementos: os sensores do veículo e o design de som.
Durante a exploração, além do ronco constante dos motores e do rangido do casco — que parece prestes a se romper a qualquer momento — diversos sons misteriosos ecoam ao redor do submarino. Esses detalhes criam um clima permanente de tensão que vai crescendo gradualmente, transformando a exploração em uma experiência cada vez mais angustiante.
O jogo em si é bastante curto, podendo ser terminado em uma única sessão de pouco mais de uma hora. Curiosamente, isso acaba sendo uma de suas maiores qualidades: Iron Lung termina praticamente no exato momento em que sua proposta poderia começar a se tornar repetitiva, já que ele não introduz novos sistemas de gameplay ao longo da jornada.
Mesmo com essa duração enxuta, o universo do jogo e toda a “lore” por trás de seus eventos são surpreendentemente detalhados e intrigantes, deixando no ar aquela vontade de explorar mais histórias ambientadas nesse mesmo universo.
No fim das contas, Iron Lung é uma experiência extremamente singular. Em pouco tempo de jogo, ele consegue construir uma atmosfera opressiva e memorável usando recursos mínimos e uma ideia simples muito bem executada. Para quem aprecia terror atmosférico, tensão crescente e propostas criativas fora do padrão da indústria, é um jogo que definitivamente merece ser experimentado.


Iron Lung
Plataformas: Windows, Nintendo Switch, PlayStation 5 e Android
Desenvolvedor: David Szymanski
Distribuidor: David Szymanski
Gênero: Terror, Simulador de submarino
Ano: 2022
