Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

Crítica | O Morro dos Ventos Uivantes (2026)

A diretora Emerald Fennell não apresenta qualquer tipo de sutileza em sua adaptação do clássico romance “O Morro dos Ventos Uivantes”. Todos os elementos visuais e sonoros “gritam” suas intenções dramáticas para o espectador, como se ele não fosse capaz de notar qualquer nuance que o filme deseje apresentar.

Confesso que nunca li o romance de Emily Brontë de 1847 e nunca assisti a nenhuma outra adaptação do livro para o cinema. Dessa forma, não tenho como opinar quanto à versão de Fennell ser fiel ou não à obra de Brontë.

O filme de Fennell começa com uma cena de enforcamento, em que inicialmente ouvimos apenas uma pessoa sufocando. No entanto, esse som se assemelha ao de uma pessoa gemendo. Na visão da diretora, sexo e violência estão interligados o tempo todo, mas não em uma relação de cumplicidade entre as pessoas, como as práticas de BDSM, por exemplo. Não por acaso uma pessoa do público que acompanha a “cerimônia” grita que o homem está com uma ereção. Quem também está presente no local é a jovem Cathy, então fica marcada em sua mente essa associação ao prazer sexual.

Ao longo de “O Morro dos Ventos Uivantes” essa associação aparece de forma recorrente, contudo o roteiro escrito pela própria Emerald Fennell não desenvolve esse sentimento de atração. Para ela, não existe sexo entre duas pessoas se não houver algum tipo de violência envolvida. É assim que ela desenvolve a relação do casal romântico da história. A toxicidade entre eles seria uma mistura de amor e ódio, mas a abordagem explícita de Fennell não é capaz de construir esse envolvimento de maneira verossímil ou mesmo minimamente interessante.

Tudo começa na infância, onde Cathy vive em um ambiente insalubre com um pai que é alcoólatra e abusivo, enquanto sua melhor amiga é Nelly, que é paga para servir de companhia para a jovem. Um dia o senhor Earnshaw traz um garoto abandonado na rua para morar na residência e ele é batizado de Heathcliff. A dinâmica entre os dois é construída em torno dessa toxicidade, onde inicialmente eles deveriam ser como irmãos. Entretanto, a amizade mostra que existe um algo a mais entre eles que é afetada pelo fato do menino se transformar em mais um empregado da casa.

Quando eles crescem os hormônios falam mais alto e a atração entre eles é inegável. Entretanto, como para Fennell sexo, e logo amor, só existe através da violência, é construído um longo “coito interrompido” entre o casal. Um relacionamento entre eles seria algo “proibido” e isso é o que torna mais excitante, só que ao mesmo tempo faz com que negar o sentimento seja a melhor opção.

A cena em que ela observa os empregados fazendo sexo com violência a deixa excitada. Quando ele chega, Cathy não consegue mais se sentir à vontade. Tanto que depois ele a surpreende enquanto a jovem estava se masturbando escondida, mas nem isso é suficiente para que os dois decidam finalmente se entregar ao prazer sexual, pois a “violência” não deixa.

Todas as ações dos personagens são mostradas de maneira explícita, e nem mesmo assim o relacionamento entre eles é desenvolvido de forma convincente. Assim, se o próprio roteiro não ajuda, a parte técnica piora ainda mais a situação. As decisões da diretora são para deixar na tela da forma mais escancarada possível o que ela quer dizer, contudo o excesso compromete qualquer efeito dramático.

A fotografia e a cenografia evidenciam um contraste absurdo entre a residência da família Earnshaw e a mansão do personagem Edgar. Enquanto a primeira é escura e sem cores, a outra tem cores fortes e chamativas. A ideia é clara de apresentar a diferença entre os locais, mas sem nenhuma nuance o que ocorre é não criar nenhum sentimento específico no espectador sobre o uso dos tons de cor.

O melhor exemplo é o uso do vermelho, que poderia representar amor ou perigo, ou desenvolver um clima pesado no ambiente. Vemos apenas cômodos tingidos por essa cor e os personagens em cena com essas paredes no fundo, ou o figurino. Mas da forma como é usado em excesso perde o simbolismo, sendo apenas algo chamativo e que não apresenta contraste. 

Outro bom exemplo é a trilha sonora de Anthony Willis, que basicamente usa violoncelos para criar temas com um clima pesado e outros baseados em piano e violinos, remetendo à tristeza. A questão é que isso é usado para retratar tanto amor e a toxicidade entre o casal de protagonistas, assim como qualquer outro sentimento do filme. Assim a música não parece expressar de verdade nenhum sentimento, eliminando variações dramáticas. Dessa forma, o espectador cria dificuldade em ter empatia pelos personagens, ou pelo menos entender as motivações de suas atitudes.

Outro problema são as canções compostas pela cantora Charli XCX que deveriam dar um clima moderno à narrativa, fazendo um contraste com a época da história, que se passa em 1771. Infelizmente elas aparecem em poucos momentos do filme e não acrescentam em nada ao que é visto na tela. Na verdade elas mais confundem, pois sua sonoridade atual tira o espectador da imersão dentro do período histórico.

Para completar, não existe uma química entre Margot Robbie e Jacob Elordi. Por mais que os dois sejam atores talentosos, o roteiro não contribui para o desenvolvimento dos personagens. O romance inicial e depois o ódio que surge entre os dois não é verossímil, por mais que na tela apareçam elementos que gritem em nome dos sentimentos. É difícil enxergar uma paixão que, após não ser correspondida, por motivos além deles mesmos, se transforma em rancor e raiva.

Quando finalmente vemos uma cena de sexo entre eles parece que é algo vazio e sem sentimento. A violência é refletida quando o tempo todo o homem pede um consentimento, como se isso fosse o suficiente para que eles finalmente pudessem consumir a paixão, porém resulta em algo mecânico e frio.

Há também outros problemas, como a representação das mulheres, principalmente Nelly. Ou mais exemplos do excesso de obviedade, ao fazer uma referência ao clássico romance “Romeu e Julieta”, deixando claro o destino trágico do casal de protagonistas. Diante disso, resta partir para a conclusão.

Em síntese, “O Morro dos Ventos Uivantes” não é eficaz ao construir uma história de amor que se transforma em um romance tóxico. A diretora Emerald Fennell tenta de várias formas mostrar da maneira mais gratuita possível o que quer dizer, mas o didatismo exagerado é refletido em uma mise-en-scène incapaz de demonstrar na tela os sentimentos que quer expressar coerentemente.


Uma frase: – Heathcliff: “Posso te seguir até o fim do mundo.”

Uma cena: Quando Cathy observa seus empregados Joseph e Zillah fazendo sexo no celeiro.

Uma curiosidade: O título do filme foi intencionalmente colocado entre aspas como um sinal de que não seria uma interpretação direta do romance, mas uma visão moderna filtrada por camadas de referência, desejo e memória.


O Morro dos Ventos Uivantes (“Wuthering Heights”)

Direção: Emerald Fennell
Roteiro: Emerald Fennell
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Shazad Latif, Alison Oliver, Martin Clunes e Ewan Mitchell
Gênero: Drama, Romance
Ano: 2026
Duração: 136 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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