Crítica | Arco (2025)
Dirigida por Ugo Bienvenu, a animação francesa “Arco” apresenta forte influência visual das produções do estúdio Ghibli, especialmente das obras comandadas pelo mestre Hayao Miyazaki. Os traços adotam um estilo retrô, como se fossem feitos à mão. Contudo, embora a narrativa tenha um tom relativamente adulto — ainda que funcione e dialogue com o público infantil —, não apresenta o mesmo espírito nonsense e surreal característico de alguns trabalhos de Miyazaki. Ainda assim, o filme se afasta de muitos clichês ocidentais, encontrando aí um de seus principais diferenciais.
Arco é um garoto de 10 anos que vive em um futuro intrigante — em nenhum momento o ano é mencionado no filme, embora a sinopse indique 2932. Seus pais e sua irmã mais velha trabalham com pesquisas envolvendo viagens no tempo. Alguns detalhes do cotidiano da família chamam a atenção, como o fato de dormirem “flutuando”. Trata-se de um ambiente que sugere sustentabilidade e foge dos clichês comuns em narrativas futuristas, como o excesso de tecnologia ou cenários distópicos.
Existe uma regra que permite viagens no tempo apenas a partir dos 12 anos, mas o menino decide quebrá-la e viaja escondido, utilizando a capa da mãe. A vestimenta, colorida como um arco-íris, permite visualizar no céu uma explosão de cores que remete ao fenômeno óptico e meteorológico.
O objetivo de Arco era encontrar dinossauros, mas ele acaba indo parar no ano de 2075, onde recebe ajuda da jovem Iris. O mundo da garota contrasta bastante com o dele: seus pais passam a maior parte do tempo fora, trabalhando na cidade, enquanto um robô cuida dela e de seu irmão mais novo, ainda bebê. Esse contraste é interessante, pois é justamente no “passado” que vemos o excesso de tecnologia. Adultos utilizam óculos inteligentes, e robôs realizam a maioria das tarefas — inclusive educar e cuidar das crianças.
É a partir desse choque de realidades que a trama se desenvolve. Iris decide ajudar Arco a retornar ao futuro, e, para isso, eles precisam recuperar um cristal responsável pela viagem no tempo. No entanto, o artefato acaba nas mãos de um trio peculiar de adultos, cada um associado a uma cor diferente e todos usando óculos coloridos — uma clara referência ao arco-íris. Inicialmente, eles funcionam como antagonistas e também como alívio cômico, que nem sempre se mostra eficiente devido ao tom peculiar do humor francês. Embora fujam do padrão de vilões clássicos, o desenvolvimento da história acaba se tornando um pouco morno, com poucos conflitos realmente marcantes para os protagonistas.

O roteiro ainda abre espaço para discutir questões ambientais e políticas. O capitalismo, por exemplo, obriga os pais a viverem distantes dos filhos, convivendo com eles principalmente por meio de hologramas e encontros presenciais apenas nos fins de semana. Nesse contexto, o robô-babá assume um papel surpreendentemente relevante, desempenhando funções parentais com uma humanidade notável — como ao brincar com as crianças interpretando personagens. Ainda assim, mesmo com o suporte tecnológico, persistem problemas climáticos que se tornam a principal ameaça no ato final da animação.
Outro destaque é a trilha sonora de Arnaud Toulon, que chama a atenção desde o início com um tema forte e marcante. Suas composições são sensíveis e emotivas, valorizando especialmente os momentos mais grandiosos da narrativa.
Em síntese, “Arco” é uma bela animação que se destaca pela abordagem de temas atuais e relevantes, promovendo reflexões importantes. O visual inspirado no estúdio Ghibli, a tentativa de fugir de clichês narrativos e a trilha sonora marcante funcionam como diferenciais dentro das produções animadas ocidentais.

Uma frase: – Arco: “Ninguém deveria saber o futuro. Nunca.”
Uma cena: Quando Arco tenta voar na frente da casa de Iris.
Uma curiosidade: Após ver o desenho inicial do arco-íris de Ugo Bienvenu, Félix de Givry observou que, em espanhol, “arc-en-ciel” (arco-íris em francês) é “arcoíris”, e foi assim que os dois personagens principais receberam seus nomes: Arco e Íris.

Arco
Direção: Ugo Bienvenu
Roteiro: Ugo Bienvenu e Félix de Givry
Elenco: Swann Arlaud, Alma Jodorowsky, Margot Ringard Oldra, Oscar Tresanini, Vincent Macaigne, Louis Garrel, William Lebghil e Oxmo Puccino
Gênero: Animação, Ficção científica, Aventura, Fantasia
Ano: 2025
Duração: 89 minutos
