Crítica | A Noiva! (The Bride!)
Em seu segundo trabalho como diretora, Maggie Gyllenhaal apresenta em “A Noiva!” a sua versão para a clássica obra de Mary Shelley “Frankenstein”. Inclusive a própria escritora aparece como um alter ego da protagonista interpretada por Jessie Buckley. Estamos diante de uma versão do ponto de vista feminino e Gyllenhaal usa a presença de Mary para nos lembrar de como a própria autora já é a primeira vítima da “propriedade masculina” ao usar o sobrenome do marido. Afinal de contas essa é a história da Noiva do Frankenstein, mas na visão de Maggie essa é uma oportunidade de mostrar uma interpretação verdadeiramente feminina (e feminista) da personagem.
A história se passa nos anos 1930, inicialmente na cidade de Chicago, mas evoca temas que ainda hoje atormentam a vida das mulheres. O primeiro tema surge logo no início: a violência contra a mulher. Ida (Jessie Buckley) é morta por dois capangas de um mafioso por saber demais sobre seus negócios. É então que surge Frankenstein, ou melhor, Frank, interpretado por Christian Bale.
O personagem mantém a essência da criatura criada por Mary. Um homem que foi ressuscitado com partes de vários corpos e após muitos anos de vivência está em busca de uma companheira para acabar com sua solidão. Ele vai atrás do Dr. Euphronious, mas se surpreende ao descobrir que na verdade a cientista é uma mulher chamada Cornelia.
Nesse ponto a diretora nos lembra novamente de algo que as mulheres passam constantemente: serem desacreditadas pelo simples fato de serem mulheres. A personagem vivida por Annette Bening assina suas obras como C. Euphronious, um nome supostamente masculino, justamente para que seja mais fácil ser levada a sério.
A Dra. Euphronious ajuda Frank a criar sua noiva, então eles pegam o corpo de Ida para ser ressuscitada. Ela volta à vida sem memória, no entanto sua alter ego Mary (também interpretada pela própria Jessie Buckley) a lembra de ir em busca da sua identidade. Então junto com Frank eles iniciam uma jornada caótica em busca de felicidade e a construção de um amor, enquanto a Noiva procura por sua própria individualidade.
O filme de Maggie Gyllenhaal tem muitas camadas e assim como “A Filha Perdida” não está interessado em apresentar respostas. A ideia é aproveitar o caos da narrativa para nos fazer questionar sobre diversos aspectos, especialmente em torno do universo feminino.
Essa anarquia não vem por acaso, é uma estética interessante que serve para representar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em diversos níveis. A jornada de Ida, que depois de um tempo sem nome assume a identidade de Noiva, sem usar o sobrenome Frankenstein do marido, é fascinante. Nem por isso a diretora deixa a criatura masculina de lado, ele também é importante para a narrativa.
Afinal de contas ele é o fio condutor da história, tudo começa nele. Sua inocência diante da mulher, sem saber bem como lidar com ela, é muito bem construída pelo roteiro da própria Maggie Gyllenhaal. Chama a atenção sua fascinação pelos musicais através da figura de Ronnie Reed (Jake Gyllenhaal), um astro do gênero. Frank adora ir ao cinema assistir a algum filme do ídolo e sempre se imagina dentro da tela. Nesse ponto Maggie aproveita para fazer uma homenagem ao gênero musical, clássico de Hollywood, não só para mostrar seu amor pelo cinema, mas fazer uma alusão à visão romantizada que a criatura tem da vida. A chegada de Ida faz com que ele de alguma forma amadureça e enxergue tudo ao seu redor de forma diferente.
E o pandemônio de “A Noiva!” se reflete da mesma forma através dessas mudanças de gêneros, sem nunca perder a coesão. Estamos em Chicago nos anos 1930, então inicialmente temos o filme de gangster. Depois passamos pelos musicais. Entramos então em um road movie, em que os personagens entram em fuga. O fato deles serem fisicamente diferentes chama a atenção das pessoas e qualquer atitude deles é interpretada da pior maneira. Ao longo da viagem, eles embarcam em novas aventuras, que se refletem na evolução do relacionamento entre o casal.

Ao se tornarem um casal em fuga, eles se tornam alvo de uma dupla de policiais. Jake (Peter Sarsgaard) é o detetive enquanto Myrna (Penélope Cruz) é a assistente. Através da personagem de Cruz a diretora aproveita para reforçar seu discurso em torno do apagamento feminino. Apesar de ela ser competente e ter a melhor habilidade de investigação, é ele quem assume o protagonismo.
Enquanto isso, a Noiva se torna um símbolo da luta feminina. Suas atitudes de rebelião contra a sociedade são interpretadas como empoderamento. Não por acaso vemos algumas mulheres gritarem “Me too!” (eu também), fazendo referência ao movimento. Quem melhor que uma vítima de feminicídio para lembrar da importância de lutar contra a morte de mulheres, assédio e outras violências contra as mulheres?
E isso funciona principalmente graças ao talento de Jessie Buckley, que está fantástica no papel da protagonista. Seu visual remete ao clássico de 1935, mas suas atitudes mostram uma mulher que não se submete ao título de noiva por imposição, e sim por escolha. A atriz apresenta trejeitos curiosos, como o de falar diversas palavras em sequência, como se sofresse um tipo de síndrome de Tourette após voltar à vida. Agora, é claro que suas atitudes diante dos homens são que a definem, principalmente em sua relação com Frank.
A parte técnica também merece destaque. O visual, tanto no figurino quanto na cenografia, mostra um cuidado na criação do caos. É uma mistura do exagero com o clássico, onde o punk e o gótico andam lado a lado.
Outro elemento que se destaca é a trilha sonora de Hildur Guðnadóttir, cuja principal característica reside no uso de violoncelos. Em “A Noiva!” a compositora tem liberdade para ir além, entregando temas que reforçam a anarquia da narrativa e misturam elementos clássicos e modernos. Para completar, temos canções interpretadas por Jake Gyllenhaal, remetendo aos musicais dos anos 1930, e outras interpretadas pela cantora Fever Ray, com uma sonoridade mais pop atual. Essa mistura define bem o tom caótico.
Na verdade, o caos é planejado para atingir uma anarquia criativa que mostra que Maggie Gyllenhaal tem muitas ambições bem desenvolvidas em “A Noiva!”. A diretora não tem medo de expressar suas opiniões em torno da luta pela igualdade de gênero. Seu filme, assim como sua protagonista, não estão interessados em entregar respostas para o espectador. A ideia é justamente provocar reações do público, especialmente o feminino, para que, assim como as personagens que surgem, também tenham a vontade de dizer “Eu também” (Me Too) me identifico com o que foi mostrado na tela e preciso lutar para que isso mude. Principalmente nós, homens.

Uma frase: – A Noiva: “Qual é o meu nome? Espera. Eu não me lembro.”
Uma cena: Quando Frank e Ida vão a um clube dançar.
Uma curiosidade: A aplicação das próteses de Christian Bale para o filme “A Noiva” levou até seis horas na cadeira de maquiagem, enquanto a de Jessie Buckley levou cerca de 90 minutos.

A Noiva! (The Bride!)
Direção: Maggie Gyllenhaal
Roteiro: Maggie Gyllenhaal
Elenco: Jessie Buckley, Christian Bale, Peter Sarsgaard, Annette Bening, Jake Gyllenhaal e Penélope Cruz
Gênero: Comédia, Drama, Romance, Horror, Ficção científica
Ano: 2026
Duração: 126 minutos
