Crítica | Você Só Precisa Matar

Crítica | Você Só Precisa Matar

A ideia de um ciclo temporal infinito não é novidade no cinema, mas a forma como cada obra lida com o inevitável é o que define sua relevância. Em Você Só Precisa Matar, animação que adapta a light novel de Hiroshi Sakurazaka, o foco não está apenas na ação frenética de uma guerra contra invasores alienígenas, mas sim no desgaste absoluto da identidade de quem é obrigado a reviver o próprio fim, repetidamente.

É impossível assistir a esta obra sem traçar paralelos imediatos com No Limite do Amanhã (2014), até porque eles se originaram da mesma obra. No entanto, enquanto o filme estrelado por Tom Cruise hollywoodizou a premissa com um tom de aventura heróica, esta animação resgata o DNA sombrio e o niilismo presentes no material original. Aqui, o despertar no início do mesmo dia não surge como uma nova chance, mas como um fardo. A repetição é tratada com um pragmatismo pesado: a personagem precisa aprender com cada erro para sobreviver a um cenário de extinção iminente, tudo isso sem a ajuda de todo um time e inúmeras outras pessoas. Ela começa a lutar sozinha.

O diretor Kenichiro Akimoto demonstra um controle narrativo notável ao não deixar que o filme se torne redundante. A montagem é ágil e utiliza as repetições para mostrar a evolução técnica de Rita, transformando-a em uma máquina de combate enquanto sua sanidade parece caminhar na direção oposta. Uma jornada de desumanização em prol da sobrevivência.

Visualmente, o longa opta por um design que foge do óbvio. Os monstros-planta são representados como ameaças quase incompreensíveis, o que aumenta a sensação de impotência da protagonista para os espectadores. A estética da animação reforça o tom visceral da obra, entregando sequências que são, ao mesmo tempo, belas e aterrorizantes. É uma ficção científica que, por trás das armaduras e explosões, discute a resiliência humana diante de uma pressão implacável.

Você Só Precisa Matar é uma obra eficiente. O longa evita as saídas fáceis do gênero e entrega uma experiência que incomoda justamente por sua falta de esperança imediata. Para quem busca uma ficção científica que respeita a inteligência do público e prefere a crueza do material original ao espetáculo higienizado das adaptações anteriores, o filme é um exemplar interessante do gênero.


Uma frase: “A imortalidade, em um campo de batalha, é apenas uma forma prolongada de tortura.”

Uma cena: O momento em que Rita decide ignorar os protocolos de segurança e avança sozinha, revelando o quanto o ciclo temporal já alterou sua percepção de perigo.

Uma curiosidade: A produção utilizou técnicas de captura de movimento integradas à animação 2D para garantir que o peso das armaduras fosse sentido em cada impacto, trazendo um realismo físico raro para o gênero.


Você Só Precisa Matar (Ôru Yû Nîdo Izu Kiru)

Direção: Kenichiro Akimoto
Roteiro: Kenichiro Akimoto (baseado na light novel de Hiroshi Sakurazaka)
Elenco: Ai Mikami, Natsuki Hanae, Kana Hanazawa, Hiccorohee e Mō Chūgakusei
Gênero: Animação, Sci-Fi, Ação
Ano: 2025
Duração: 82 minutos

marciomelo

Baiano, natural de Conceição do Almeida, sou engenheiro de software em horário comercial e escritor nas horas vagas. Sobrevivi à queda de um carro em movimento, tenho o crânio fissurado por conta de uma aposta com skate e torço por um time COLOSSAL.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *