Crítica | Marty Supreme

Crítica | Marty Supreme

Infelizmente os irmãos Safdie decidiram trabalhar separados (e o motivo foi revelado agora apenas em 2026). É curioso notar como cada um seguiu por um caminho diferente em relação à forma de contar a história, mas ambos decidiram realizar cinebiografias de pessoas não tão famosas.

Enquanto Benny realizou “Coração de Lutador: The Smashing Machine”, sobre um lutador de MMA, responsável pela popularização do UFC, mantendo um estilo mais sóbrio, Josh seguiu pelo mesmo estilo que eles criaram em seus trabalhos anteriores. Em “Marty Supreme” temos um protagonista que remete aos filmes anteriores dos Safdie: “Joias Brutas” e “Bom Comportamento”. Uma pessoa que com um comportamento amoral, egoísta e imperfeito, reforçando a complexidade e ambiguidade de sua humanidade. A diferença é que a história de Marty é inspirada em fatos, o que torna o longa-metragem mais fascinante e distinto. Afinal, nada é mais absurdo do que a própria realidade.

O roteiro, assinado por Josh Safdie e Ronald Bronstein, transforma de maneira pouco usual a história de Marty Mauser, um aspirante a jogador de tênis de mesa, em uma cinebiografia pouco usual. A estrutura da trama lembra os trabalhos anteriores de Safdie, onde o protagonista tem um objetivo (precisa de dinheiro para participar de um campeonato do esporte) e tem um prazo para cumpri-lo. Assim o cineasta usa como referência mais uma vez “Depois de Horas”, de Martin Scorsese, onde Marty se mete em diversas confusões e o tempo todo necessita fugir.

Um detalhe interessante é que a história se passa em 1952, então temos um drama de época. Em relação ao figurino e design de produção, “Marty Supreme” é extremamente competente em recriar o período. No entanto, Josh não renunciou a uma outra característica marcante dos seus filmes: a trilha sonora.

Os temas compostos por Daniel Lopatin seguem um estilo onde sintetizadores remetem a uma nostalgia, mas não dos anos 1950 em que a trama se passa, e sim dos anos 1980. Inicialmente isso soa estranho, mas aos poucos o espectador se acostuma e tudo faz sentido. A música utiliza também flautas, criando um tom ainda mais singular. Contudo, a característica mais expressiva da trilha é criar um clima de urgência e tensão. Esse elemento é fundamental para definir o tom da narrativa.

Para compensar o clima de tensão, o diretor insere pontualmente músicas pop dos anos 1980 (como Tears for Fears e Alphaville), criando momentos de suspiro e alívio cômico que dialogam, de forma coesa, com a sonoridade anacrônica de Lopatin.

No entanto, não é somente a trilha sonora que dita o tom de urgência da narrativa. Isso é refletido principalmente na fotografia e na montagem, onde os cortes determinam um ritmo frenético para a trama, enquanto a câmera corre atrás dos personagens. A maneira como as cenas das partidas de tênis de mesa são filmadas, por exemplo, demonstram bem a eficiência desses elementos. Nunca um jogo de ping-pong pareceu tão emocionante como na forma como “Marty Supreme” o apresenta.

Outro ponto importante de destaque do filme é a atuação de Timothée Chalamet, um ator que demonstra em cada papel uma incrível versatilidade. A maneira como ele constrói Marty é fascinante, onde seu carisma é capaz de fazer o espectador torcer pelo seu sucesso, mesmo que para isso ele tome atitudes totalmente questionáveis e reprováveis. Ele consegue envolver as pessoas ao seu redor para conseguir o que precisa, mas na maior parte das vezes as consequências chegam.

Dessa forma, em “Marty Supreme” o diretor Josh Safdie nos apresenta uma versão bem peculiar do sonho americano, mas que é extremamente verossímil. Afinal de contas, no capitalismo as pessoas só são bem-sucedidas quando de alguma forma passam por cima das outras. A história do protagonista faz alusão a isso, só que no mundo real as consequências são bem mais complicadas, especialmente para os que estão ao redor de Marty. Nesse ponto o cineasta não faz juízo de valor, ele apenas apresenta os fatos e faz com que o espectador reflita sobre o que viu e se questione: será que valeu a pena fazer tudo isso para chegar até onde chegou? É uma reflexão interessante, ainda mais considerando a quantidade de coisas inesperadas que são apresentadas na tela.


Uma frase: – Kay [para Marty]: “Me diz uma coisa. Você ganha dinheiro com esse tênis de mesa?”

Uma cena: As partidas de tênis de mesa entre Endo e Marty.

Uma curiosidade: Timothée Chalamet vinha treinando tênis de mesa desde 2018 para se preparar para o papel. Ele continuou seu treinamento enquanto trabalhava em outros filmes, incluindo Wonka (2023), Duna: Parte 2 (2024), A Crônica Francesa (2021) e Um Completo Desconhecido (2024), viajando com uma mesa.


Marty Supreme

Direção: Josh Safdie
Roteiro: Josh Safdie e Ronald Bronstein
Elenco: Timothée Chalamet, Gwyneth Paltrow, Odessa A’zion, Kevin O’Leary, Tyler Okonma, Abel Ferrara e Fran Drescher
Gênero: Drama
Ano: 2025
Duração: 150 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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