Review | All Her Fault

Review | All Her Fault

Dizer que All her Fault é uma série sobre o desaparecimento de uma criança e seus possíveis sequestradores é admitir um olhar raso sobre a obra. O que não se vê em All her fault é justamente o que ela aborda: tripla jornada das mulheres; trabalho doméstico não remunerado; culpa materna; machismo estrutural; misoginia; luta de classes; invisibilização do luto; violência psicológica, rivalidade feminina. Uma série, sem dúvida, com muitas camadas e possibilidades de reflexão sobre os “papéis” de gênero impostos culturalmente às mulheres.

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos encontrados em  All Her Fault

Sem fazer rodeios, a trama começa com o desaparecimento do filho de Marissa (Sarah Snook). Ao chegar no endereço onde seu filho supostamente estaria, Marissa percebe, em uma cena de crescente tensão, que o menino jamais esteve naquele endereço e que Jenny (Dakota Fanning), a mãe da criança com quem Milo (filho de Marissa) estaria brincando, nem mesmo mora naquela casa. 

Instalado o desespero, é a partir daí que a espectadora tem a oportunidade de desvelar muitas camadas de micro violências, a começar pelo marido de Marissa, Peter (Jake Lacy), que, em uma fala brusca e estratégica, pergunta o por quê de ela não ter conferido o número de telefone de Jenny, quando recebeu uma mensagem de usuário não cadastrado, informando que Milo iria brincar na casa dela. Marissa, aos olhos de todos, passa a ser a única responsável pelo desaparecimento do garoto.

Peter, por sua vez, um marido preocupado com toda a sua família, chora pelo desaparecimento do filho, ao mesmo tempo em que “cuida” de seus problemáticos irmãos mais novos, Brian (Daniel Monks) e Lia (Abby Elliott). Em princípio, Peter se mostra um irmão e marido extremamente altruísta, mas que chama a atenção da espectadora mais atenta quando revela ao detetive que sua irmã foi a única responsável pelo acidente que incapacitou seu irmão. Uma fala inútil para a investigação mas, ao mesmo tempo, calculada, assim como todas as ações de Peter.

Imaginariamente do lado oposto ao de Marissa está Jenny Kaminski, a mulher responsável por contratar a babá que, rapidamente, se torna a principal suspeita pelo sequestro da criança. Alertada por outras mulheres e pelo próprio marido de que seria melhor não procurar Marissa, Jenny subverte uma lógica patriarcal secular de rivalidade feminina e cerca a desesperada mãe com uma amizade genuína de duas mulheres que se encontraram nas dores da sobrecarga materna. A sororidade entre essas duas personagens é um bálsamo para as espectadoras que, ainda que não maternem, reconhecem as dificuldades e violências gendradas. 

A trajetória de Jenny é, sem dúvida, uma das mais satisfatórias da trama, já que ela verbaliza a sobrecarga ao marido com uma assertividade ímpar. Em uma cena, Jenny indaga o marido, Richie, o motivo de ele sempre querer saber quando ela chegará em casa para cuidar do filho, quando é ele quem está responsável pela criança. Ao ser confrontado, Richie apela para a única questão que não está em jogo na discussão, e diz amar o filho. E assim, Richie interpreta a  maioria esmagadora de homens que paternam no mundo. Um homem estruturalmente misógino, que entende ser das mulheres o papel de se doar mais à família pelo único fato de terem um útero. Limpar, lavar, cozinhar, cuidar dos filhos, equilibrar o trabalho externo com o trabalho doméstico e os cuidados maternos são, para os homens, tarefas e performances femininas. 

A principal suspeita pelo rapto da criança, a babá Carrie (Sophia Lillis), revela uma trajetória surpreendente e reveladora. Vencendo todos os estereótipos de mulher pobre e louca, Carrie é subestimada por ser uma pessoa da “classe operária” e que, por isso, teria um único motivo para abduzir uma criança privilegiada: dinheiro. Aos poucos, a espectadora nota que a narrativa da mulher louca e vingativa não faz o mesmo sentido raso e misógino como em “A Mão que Balança o Berço” (1992). Apesar de carregar uma história de traumas diversos, como um luto invisibilizado, Carrie é apenas mais uma vítima de uma sociedade patriarcal e, por isso mesmo, cruel, que a rotulou louca por ser mulher e diferente, esmagando sonhos e deslegitimando sua voz, principalmente quando ela mais precisou.

A série traz à luz a pauta da “economia do cuidado” que recai sobre as mulheres. A invisibilização das tarefas domésticas e cuidados com os filhos em detrimento da saúde mental de mães e esposas já virou estatística. Pesquisas revelam que, no Brasil, o casamento heterossexual funciona como uma “almofada psíquica” para homens e um fator danoso para saúde mental das mulheres. São várias as micro violências às quais elas são submetidas diariamente, a exemplo da cena em que Marissa relembra os primeiros dias da maternidade quando, exausta, implora ao marido que ele se esforce nos cuidados com o bebê e, em resposta, ela escuta “Me diga o que eu devo fazer e eu farei.”. A frase soa como um gesto de boa vontade se tivesse saído da boca de uma criança de 6 anos, e não de um adulto perfeitamente funcional e que também é responsável por uma criança recém-nascida.

All her Fault entrega excelentes atuações, com destaque para Sarah Snook, e verbaliza incômodos reais e situações abusivas disfarçadas de atos de amor. Desde os cuidados altruístas de Peter, camuflados de puro controle, até um amor paterno que envolve tão somente estar com o filho em situações excepcionais de ausência materna, como no caso de Richie. A série é um tapa na cara dos “pais de selfie” e algumas mães exaustas que, a serviço de uma sociedade que odeia mulheres, julgam outras mães exaustas. Mas a obra também rende, acima de tudo, uma visão de mulheres que escolheram resistir e, sobretudo, subverter uma lógica misógina que insiste em que sejamos rivais umas das outras, nos esquecendo que, ao fim e ao cabo, quem nos salva são sempre outras mulheres.



All Her Fault

Criado por: Megan Gallagher
Plataforma: Prime Video (originalmente da Peacock)
Elenco: Sarah Snook, Jake Lacy, Dakota Fanning, Jay Ellis, Abby Elliott, Michael Peña, Thomas Cocquerel e Daniel Monks
Ano: 2025

Elaine Fonseca

Jornalista, servidora pública e nerd.

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