Crítica | Superman (2025)

Crítica | Superman (2025)

Mesmo em um mundo cínico como o de hoje, ainda podemos acreditar que o homem pode voar.

Costuma-se dizer que o maior desafio em narrativas de super-heróis é criar uma ameaça à altura do protagonista. Mas e quando o herói é o Superman — o ser mais poderoso do universo, ícone máximo de justiça, bondade e esperança? Como fazer com que nos importemos? Como criar urgência onde não há vulnerabilidade?

James Gunn responde a essas perguntas com a segurança de quem compreende não só o personagem, mas o espírito das HQs clássicas que o forjaram. Procurar um senso de urgência num herói como Superman pode ser uma armadilha. Ele é — e precisa ser — o ápice do poder super-humano. Não deveria haver qualquer ameaça real à sua força.

Mas ao ser humano por trás da capa — atravessado por vínculos, dúvidas, emoções e responsabilidades — as ameaças permanecem. É aí que Gunn aposta: não na urgência artificial dos blockbusters que forçam intensidade com cortes frenéticos e dilemas fabricados, mas nos pequenos dramas humanos. Em vez de correr atrás da “relevância”, o filme confia no próprio valor narrativo.

“Bad dog!”

Essa ausência de urgência tradicional não implica falta de gravidade. Pelo contrário: Superman (2025) é, por vezes, surpreendentemente denso — até mesmo violento em tom, embora sem apelar à violência gráfica. Em uma cena-chave, Lex Luthor usa um refém para forçar Superman a obedecê-lo. A conclusão parece inofensiva aos olhos de uma criança, mas carrega, para o espectador atento, um peso simbólico e emocional devastador.

Gunn demonstra domínio do tom e mostra, mais uma vez, que em seus mundos — por mais coloridos e fantásticos que sejam — ações têm consequências. Como já se via em O Esquadrão Suicida, Pacificador e Creature Commandos, o que interessa ao diretor não é o realismo, mas uma verossimilhança ética: a ideia de que até as decisões de meta-humanos moldam realidades — e que essas decisões, às vezes, não têm volta.

E o diretor e roteirista acerta em cheio em escolhas que à primeira vista pareceriam arriscadas. Desde os letreiros iniciais — que contextualizam o universo de forma elegante, à la George Lucas — até o começo direto na ação, em pleno in supermedia res (com o perdão do latim inventado), tudo soa natural e bem encaixado. Embora conte com uma estrutura linear e até previsível, em alguns momentos, o filme se favorece de um ritmo fluido, dinâmico e divertido, intercalando bons momentos de ação, muito bem dirigidos, com bons momentos cômicos, também bem escritos. 

E ainda há espaço para explorar o debate político.  O tema central, evidentemente, é uma analogia com a atual situação dos imigrantes ilegais nos EUA. Kal-El, afinal, é o maior dos “illegal aliens” e no passado já foi o símbolo de um Estados Unidos mais próximo do sonho americano do que do pesadelo em que se encontra hoje. Um pesadelo que a trama repercute ao demonstrar como o medo é capaz de ser uma ferramenta muito útil de controle nas mãos de pessoas inescrupulosas. Junte-se a isso um bilionário megalomaníaco com uma assumida super necessidade obsessiva de reparar seu ego ferido à qualquer custo e uma nação corrupta que invade outra a pretexto de “libertá-la” e temos um painel político sólido, integrado de forma orgânica à trama e apresentado com humor, ironia e sem panfletarismo.

Mas o que ancora o filme, de fato, são seus personagens — e, acima de tudo, seus intérpretes. David Corenswet entrega um Superman multifacetado e humano. Seu herói é doce, digno, inseguro em muitos momentos — e por isso mesmo ainda mais humano. Jovem, um tanto impulsivo, por vezes engraçado, mas sempre movido por um senso profundo de justiça. Como Clark Kent, compõe com leveza e carisma um jornalista desastrado, meio goofy, com toda a aura de nerd clássico — e que funciona perfeitamente no ambiente da redação do Planeta Diário.

Nicholas Hoult, por sua vez, constrói um Lex Luthor que equilibra genialidade, vilania e insanidade com precisão teatral. Seu Luthor tem estilo, cinismo e obsessão — e faria Gene Hackman sorrir. Mas é Rachel Brosnahan quem rouba a cena: sua Lois Lane é carismática, astuta, magnética. Com um único olhar, Brosnahan nos convence de que estamos diante de uma Lois clássica — atualizada com elegância para o presente, sem perder nada de sua força icônica.

E esse cuidado se estende aos coadjuvantes: Jimmy Olsen, Perry White e a equipe do Planeta Diário não estão ali como pano de fundo. Eles participam da trama, intervêm nos conflitos, movimentam a ação. São personagens vivos, inseridos num mundo que pulsa — não apenas figurantes em meio aos efeitos.

“A Gangue da Justiça em ação.”

O roteiro, embora simples em estrutura, é sólido nos diálogos e dinâmico nas interações. Gunn, mais uma vez, se mostra um grande diretor de atores. A química entre os personagens é prazerosa de acompanhar, e o humor — sempre afiado — nunca quebra o tom. Os momentos emocionais, ainda que discretos, são genuínos. Em vários trechos, aliás, o filme evoca o espírito vibrante da saudosa Liga da Justiça Internacional, de Keith Giffen e J.M. DeMatteis — especialmente nas interações entre a Gangue da Justiça e o Guy Gardner de Nathan Fillion – o melhor Lanterna Verde que o cinema já produziu.

No plano técnico, o filme também impressiona. A fotografia é colorida e viva, distante do visual sombrio e dessaturado dos tempos de Zack Snyder — o que é, diga-se, uma bem-vinda mudança de paradigma. Os efeitos visuais são excelentes, realistas, e contribuem para a sensação de verossimilhança de um universo onde alienígenas, magia e tecnologia coexistem sem ruído. Gunn mostra domínio dos enquadramentos, escolhas de ângulo e composição, enquanto a montagem sustenta o dinamismo constante do filme. Figurinos e cenários reproduzem com fidelidade o espírito dos quadrinhos, sem cair no kitsch ou na artificialidade. O resultado é uma obra que funciona muito bem enquanto cinema, mesmo quando avaliada de forma isolada, fora do contexto do universo expandido. Uma obra muito bem resolvida enquanto experiência cinematográfica.

Mas ele carrega, inevitavelmente, o peso de estar reintroduzindo um dos maiores ícones da cultura pop contemporânea. Superman completou recentemente 90 anos — e ainda é, ao lado do Batman, uma das propriedades intelectuais mais valiosas do planeta. Há, portanto, expectativas — e para muitos, expectativas altíssimas. Talvez alguém menos envolvido com esse legado veja neste filme uma obra fenomenal, até mesmo um marco.

E há argumentos a favor disso: Superman (2025) é importante por resgatar para o cinema o espírito colorido, dinâmico e criativamente caótico dos quadrinhos da DC que muitos de nós crescemos lendo — aqueles onde magia, multiverso, supercientistas e demônios conviviam com buracos negros em universos de bolso. Gunn parece ter encontrado o tom certo para traduzir isso à tela com verossimilhança, sem precisar pedir desculpas por abraçar o absurdo. Mais ainda: ele é capaz de nos lembrar de por que, em um mundo tão cínico e sombrio como o de hoje, acreditar que o homem pode voar ainda seja relevante.


Uma frase: Jonathan: [para Clark] “Suas escolhas, suas ações, é isso que faz de você quem você é.”

Inglês (original):
Jonathan: [to Clark] “Your choices, your actions, that’s what makes you who you are.”

Uma cena: Mister Terrific mostra a Lois Lane por quê ele é mesmo “fucking” Terrific.

Uma curiosidade: O filme traz uma participação especial de Will Reeve, filho mais novo de Christopher Reeve, o eterno Superman. A participação foi inicialmente divulgada em julho de 2024 pelo jornal local The Plain Dealer, de Cleveland, durante as filmagens externas realizadas na Public Square da cidade. No longa, Will Reeve aparece como repórter de televisão — função que também exerce na vida real como correspondente da ABC News. Ele tinha apenas três anos quando seu pai sofreu o acidente que o deixou paralisado.


Superman

Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn
Elenco: David Corenswet, Rachel Brosnahan, Nicholas Hoult, Nathan Fillion, Isabela Merced, Edi Gathegi, Anthony Carrigan, María Gabriela de Faría, Milly Alcock
Gênero: Super-herói; Aventura, Fantasia, Sci-fi
Ano: 2025
Duração: 129 minutos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *