Crítica | Benedetta

Crítica | Benedetta

O diretor Paul Verhoeven nunca teve medo de enfrentar temas controversos em sua filmografia, onde assuntos como sexualidade e violência estão sempre presentes. Dessa forma, sem dúvidas o cineasta é um dos mais indicados para adaptar para os cinemas a história de uma freira católica mística e lésbica chamada “Benedetta”, que viveu na cidade de Pescia, no interior da Itália, no século XVII. O longa-metragem é inspirado no livro “Immodest Acts: The Life of a Lesbian Nun in Renaissance Italy”, de Judith C. Brown, lançado em 1986.

Benedetta” é basicamente um drama romântico que mostra as similaridades e diferenças entre um romance entre duas mulheres e o amor pela religião, representada pela figura de Jesus Cristo. Mas o mais importante é falar sobre um tema que ainda é controverso até hoje na Igreja Católica (e em praticamente todas que seguem o cristianismo): o amor livre.

A protagonista tem sua fé questionada por “dividir” seu amor entre uma freira e pela religião, mas esses sentimentos não deveriam ser complementares? Desde o início da história, Verhoeven, que escreveu o roteiro junto com David Birke, faz reflexões sobre alguns dogmas e comportamentos da igreja Católica. Quando o pai de Benedetta entrega a jovem no convento, a Abadessa questiona sobre o valor do dote da garota, fazendo uma crítica sobre a ganância da instituição.

Isso é apenas o início, pois é na figura da devoção de Benedetta (Virginie Efira) que o filme explora bem essas questões. A moça afirma ter visões sobre Jesus Cristo e o filme as apresenta para o espectador, sendo alguns dos melhores momentos da obra de Verhoeven. Em um deles a jovem é perseguida por homens que querem machucá-la, então surge Jesus com uma espada e os mata de forma sanguinolenta. Mas ao receber as estigmas representando as chagas do filho de Deus é que a protagonista tem o seu principal teste de fé, especialmente porque nem todos ao redor acreditam que esses sinais divinos sejam verdadeiros. Será que Benedetta está inventando tudo isso? 

Outro sinal sobre sua fé é a chegada de Bartolomea (Daphne Patakia), uma jovem que foge dos maus tratos do pai e busca no convento uma salvação. Surge uma amizade entre ela e Benedetta, mas a protagonista fica na dúvida sobre seus reais sentimentos pela moça. Essa paixão poderia atrapalhar a sua relação com Jesus ou seria um complemento?

Nesse ponto Verhoeven mostra seu ponto de vista de maneira muito clara, especialmente na cena em que as duas concretizam a relação carnal. É inevitável o que sentem uma pela outra, o único “empecilho” é a religião e o sentimento de culpa. Assim o orgasmo que Benedetta alcança é uma forma dela sentir algo maior, “divino” e assim se aproximar ainda mais do amor que sente pela religião, com a certeza que não fez nada de errado.

A relação entre Benedetta e a Abadessa, interpretada por Charlotte Rampling, também é muito bem explorada. Inicialmente a protagonista enxerga a Madre Superiora como uma figura materna, que assume com rigor sua função. Após o início das visões e o aparecimento das estigmas, essa relação muda e a Madre é uma das que duvida da fé de Benedetta, praticamente de maneira invejosa.

A partir desses relacionamentos é importante falar sobre o trabalho das atrizes. Charlotte Rampling está brilhante, como sempre, construindo na figura da Abadessa o questionamento sobre a fé. Essa personagem poderia facilmente cair em algo caricato e se transformar em uma vilã da história, mas graças ao roteiro muito bom e a excelente atuação de Rampling, ela se transforma em uma figura multidimensional e talvez a mais interessante da narrativa.

Virginie Efira também faz um excelente trabalho com um carisma impressionante, apresentando Benedetta como uma jovem ingênua que se transforma com o desenrolar dos fatos. A química dela com Daphne Patakia é muito boa, assim a relação entre as duas se apresenta de forma muito verossímil.

Tecnicamente “Benedetta” também é primoroso, com um belo design de produção que imerge o espectador no período em que a trama se passa, com ótimos cenários e uma linda fotografia. A trilha sonora de Anne Dudley da mesma forma contribui com temas graciosos que alternam entre a emoção com músicas que remetem aos cantos gregorianos. Paul Verhoeven equilibra muito bem a parte técnica com a direção de elenco, ambos fundamentais para fazer com que uma história desse tipo funcione.

Para finalizar, é importante falar sobre a presença dos homens na história, representados pelos integrantes da Igreja Católica. É óbvio que estamos diante de um mundo dominado pelos homens, algo que infelizmente ainda não mudou tanto quanto deveria na atualidade. O principal deles é um núncio apostólico interpretado por Lambert Wilson, enviado pela instituição para investigar o caso de Benedetta. Uma religião que deveria pregar o amor entre todos, especialmente por Deus e Jesus, não vê problemas em demonstrar medo e superioridade. Ou pior, torturar pessoas em busca da “verdade” e por afirmar que a relação de Benedetta com Bartolomea é um enorme pecado.

Assim fica claro que a intenção de Paul Verhoeven com “Benedetta” não é chocar, mas sim mostrar que mesmo com o passar dos anos algumas questões relacionadas à religião, especialmente a Igreja Católica, ainda precisam muito evoluir. O cineasta mostra de maneira emocional e um tanto óbvia as contradições da instituição e das religiões cristãs como um todo. Será que a relação entre duas mulheres (ou dois homens) é um pecado tão grande ou seria apenas uma forma de demonstrar amor, que também pode estar ligado à própria fé? Sem dúvidas é uma questão que não deveria estar sendo debatida em 2022, mas que infelizmente mesmo assim precisamos falar, por mais evidente que seja.


Uma frase: – Abadessa: “Lá fora, o dote de uma esposa é de, pelo menos, 150 moedas. Uma esposa de Cristo valeria menos do que 100?”

Uma cena: O pai de Benedetta “negociando” com a Abadessa sobre o dote da menina.

Uma curiosidade: Na conferência de imprensa do Festival de Cinema de Cannes, Paul Verhoeven ficou chateado com a sugestão de que seu filme é de alguma forma uma blasfêmia. “Eu realmente não entendo como você pode blasfemar sobre algo que aconteceu. Você não pode basicamente mudar a história após o fato. Você pode falar sobre que isso estava errado ou não, mas você não pode mudar a história. Acho que a palavra blasfêmia para mim neste caso é estúpido.”


Benedetta

Direção: Paul Verhoeven
Roteiro: David Birke e Paul Verhoeven
Elenco: Virginie Efira, Lambert Wilson, Daphne Patakia, Olivier Rabourdin, Clotilde Courau, Charlotte Rampling e Hervé Pierre
Gênero: Biografia, Drama, História
Ano: 2021
Duração: 131 minutos

Ramon Prates

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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