Crítica | Venom: Tempo de Carnificina

Crítica | Venom: Tempo de Carnificina

Há pouca diferença entre Venom (2018) e sua sequência. Em matéria de direção, o filme ganhou um pouco mais de consistência nas mãos de Andy Serkis, que ao optar por uma câmera e estrutura bastante conservadora e burocrática, oferece um resultado mais regular do que Ruben Fleischer, do primeiro filme. Para além disso, temos um roteiro praticamente idêntico, recorrendo aos mesmos tropes e apostando nos mesmos apelos. Não é de espantar: o primeiro Venom foi um surpreendente sucesso de público e o segundo parece caminhar na mesma direção.

Sucesso, porém, nunca foi sinônimo de qualidade, e vice-versa. De uma perspectiva objetiva, Venom é o equivalente, em termos de experiência cinematográfica, a uma sequência interminável de piadas escatológicas que costumam nos entreter tanto em nossa infância ou adolescência. É como brincar de “vaca amarela” dias a fio, sem parar. Imagine o quanto seria você capaz de encarar esse tipo de entretenimento, e talvez seja capaz de avaliar se esse tipo de entretenimento é para você ou não.

Venom, porém, (tanto o filme mais recente, quanto o primeiro), talvez conte com um componente muito mais cruel: a tentativa de romantizar e transformar monstros do pior tipo em heróis. Nesse caso é como se você participasse de uma longa sessão de vaca amarela na qual, após falar primeiro, você é forçado de fato por seus “amigos” a comer o estrume da bovina indicada.

Explico: Venom é um vilão que surgiu na década de 1990 nas páginas da revista do Spider-Man. Criado por David Micheline e Todd McFarlane ele é oriundo de um período bastante “depressivo” da série em quadrinhos do teioso. Venom era, em sua junção com Eddie Brock, um paranoico psicótico que culpava Peter Parker por tudo de ruim que acontecera a ele. Quase como se um vilão da galeria do Batman (que tinha claras pretensões de ser o Coringa de a Piada Mortal do universo do Spider-Man) fosse diretamente transposto para a Marvel.

Dessa forma, matar Spider-Man para Venom estava longe de ser suficiente. Ele queria fazê-lo sofrer. E muito. Conhecendo todos os segredos de seu objeto de fixação, Venom parte logo para o alvo mais evidente: Mary Jane, então esposa de Peter Parker. Na fim da edição #299 de Amazing Spider-Man, o monstro aparece pela primeira vez para ela. No primeiro momento ela pensa que ele é Peter para depois ser aterrorizada pela criatura. No início da edição #300, vemos a mesma Mary Jane sendo encontrada por Peter, em prantos e aterrorizada, profundamente traumatizada pela experiência com o vilão. Ela ainda carregará o trauma durante anos, o que levará Peter Parker a nunca mais usar outra versão do uniforme negro. Não é preciso ser explícito: fica claro que Venom abusou (provavelmente até sexualmente) de Mary Jane. Pois bem, é esse mesmo personagem que a Marvel não teve problemas em transformar em anti-herói ao perceber sua popularidade.

Claro, por características estilísticas, sociais e históricas da arte sequencial, a presença de anti-heróis nunca foi estranha. Venom, porém, aumentava a aposta. É evidente que sua obsessão por Peter Parker foi deixada para trás e seu comportamento abusivo foi convenientemente esquecido (com eficiência maior até do que uma magia de Mefisto). Mas, ele ainda comia cérebros. Nada de mais.

Obviamente que haveria quem pudesse argumentar que a origem do Venom dos cinemas é bem diferente e que talvez essas observações prévias aqui feitas sejam um tanto quanto descabidas. Ou mesmo que não fossem relevantes ao se analisar o valor (digno de vaca amarela) da obra enquanto tal. Tudo isso seria verdade se o cinema, guardada as suas devidas proporções, não repetisse aqui o erro da indústria dos quadrinhos.

Explico de novo. Para Venom ser alçado à condição de anti-herói a Marvel recorreu a uma manobra bastante óbvia: criou um outro Venom pior do que o Venom. Assim surgiu Carnificina (Carnage, no original). O vilão unia o fascínio da década de 1990 por personagens psicóticos e assassinos frios e cruéis com o mundo dos Superseres. Era como se você desse superpoderes a Hannibal Lecter. Se Eddie Brock era “apenas” um fracassado ressentido e obcecado por seu rival que havia sucumbindo aos impulsos bestiais do simbionte alienígena, Cletus Kasady era desde sempre tão ruim quanto o simbionte que se uniu a ele. Para deter o monstro Spider-Man e Venom se unem na saga Maximum Carnage, e ao fim dela, “todos os pecados” de Venom parecem ser perdoados (menos para Mary Jane, com certeza).

Aqui, em Venom: Tempo de Carnificina, os produtores apostam exatamente no mesmo movimento. Na tentativa de “domesticar” o monstro que é Venom, além de submetê-lo a uma rigorosa dieta de muita galinha e chocolate, inventam um monstro que deveria ser ainda pior. No cinema, e com as limitações que um PG-13 exigem, a manobra se torna risível. O Cletus Kasady de Woody Harrelson é caricato e superficial. Pior ainda, na tentativa de criar um vilão mais “denso” apostam em também romantizar esse monstro. A principal motivação de Kasady parece ser o amor (tragicamente sincero, nesse caso), e seus inúmeros assassinatos são sempre referenciados de maneira lúdica. Ou seja, não basta apostar no erro de alçar um monstro a anti-herói, é preciso dobrar a aposta.

Nesse caso, porém, a coisa toda é tão mal executada, que não há a menor chance de funcionar. A ideia é ruim desde sua essência, e sua execução é tão pífia, que não faz a menor diferença em que tipo de embate estamos vendo ali. Venom é mais um genérico do já estabelecido subgênero de Super-heróis do cinema contemporâneo, que tem tanta coisa errada tanto em nível técnico quanto ético, que nos coloca diante da inevitável e constrangedora pergunta: como um filme desses faz tanto sucesso?

Uma resposta possível é que haja muita gente que se identifique com aquilo que o personagem representa. E aqui, de novo, creio serem válidas as informações relacionadas ao personagem antes reproduzidas. Em tempos tão obscuros como os que vivemos, nunca é demais essa autocrítica enquanto sociedade. Afinal, cada qual tem o Protetor Letal que merece.


Uma frase: – Cletus Kasady: “Algo terrível está acontecendo.” [Carnificina aparece]

Uma cena: O “nascimento” do Carnificina.

Uma curiosidade: Tom Hardy recebeu seu primeiro crédito de história por este filme, tornando-se a quinta pessoa a receber crédito de escritor para um filme de super-herói de história em quadrinhos no qual ele também estrelou, depois de Christopher Reeve (Superman IV: Em Busca da Paz (1987)), Paul Rudd (Homem-Formiga (2015)), Edward Norton (O Incrível Hulk) e Ryan Reynolds (Deadpool 2 (2018)).


Venom: Tempo de Carnificina (Venom: Let there be Carnage)

Direção: Andy Serkis
Roteiro: Kelly Marcel; história de Tom Hardy e Kelly Marcel
Elenco: Tom Hardy, Michelle Williams, Naomie Harris, Reid Scott, Stephen Graham, Peggy Lu e Woody Harrelson
Gênero: Ação, Aventura, Sci-Fi
Ano: 2021
Duração: 97 minutos

Mário Bastos

Mário Bastos

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

Um comentário em “Crítica | Venom: Tempo de Carnificina

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: