A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Super-Homem – A Múmia

A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Super-Homem – A Múmia

Seja bem vindo à coluna A Nostalgia era Melhor Antigamente, na qual eu covardemente analiso histórias que foram escritas em outro contexto e aponto incongruências inaceitáveis em gibis sobre um alienígena caucasiano enfrentando terráqueos verdes.

No episódio de hoje, descobriremos que um homem mais veloz que uma bala não tem tempo para se barbear, perceberemos que jornalistas de mídia impressa não entendem bem como funciona uma gravação em vídeo e veremos como Clark Kent desenvolveu um sistema para fraudar o ressarcimento de viagens a serviço.

Argumento e desenhos: John Byrne
Arte-Final: Karl Kesel
Publicado no Brasil em Super-Homem 56, Editora Abril

Nossa história começa com o Super-Homem tendo um sonho erótico com a Mulher-Maravilha.

Ok, isso foi de zero a cem muito rápido, mas é sério mesmo, começa assim. E o pior é que mais pra frente, em uma outra história, ele encontra a moça e tasca-lhe um beijo sem prévio aviso, consentimento ou autorização.

“Excedeu” é eufemismo, super assediador

Mas essa é uma história para um outro dia. O que temos pra hoje é Clark Kent tendo polução noturna e chegando atrasado no trabalho, mostrando que o capitalismo é implacável mesmo quando o sujeito é mais veloz que uma bala.

Depois de sofrer assédio moral por chegar ao trabalho com a barba por fazer, Clark é chamado à sala de Perry White, editor do Planeta Diário e seu chefe, que depois de lhe dar uma espinafrada gratuita (ver “capitalismo” acima) mostra uma fita na qual a jornalista Lois Lane apresenta seu relatório sobre uma reportagem que está escrevendo na América do Sul.

Mas alguma coisa dá terrivelmente errado e o relato da repórter é interrompido por um tipo de interferência eletromagnética, ou talvez porque o videocassete estava com cabeçote sujo.

Jovens: “teipe” é como seu avô chamava fita VHS, que é tipo um Youtube de plástico

Tem uma coisa que eu confesso que não compreendi muito bem: por algum motivo Lois decidiu que o relato não poderia ser passado por telefone, afinal ainda não existia Whatsapp e ligação internacional devia estar pela hora da morte. Ela então resolveu gravar uma fita com seu relato, mas no meio da filmagem o negócio desanda, uma interferência eletromagnética estraga a gravação e ela apenas pensa “dane-se, vou mandar assim mesmo”?

Como o jornalista Clark Kent não entende muito bem como funciona uma gravação, seu chefe precisa lhe explicar que aquelas imagens foram feitas no passado, mais especificamente quatro horas antes, o que levanta um novo questionamento: considerando que o Youtube somente surgiria dezoito anos depois, como essa fita estragada pôde chegar tão rapidamente a um hemisfério de distância? #DigaNãoÀPrivatizaçãoDosCorreios

Para tristeza de Clark, o Xvideos demoraria ainda mais tempo para surgir

Pois muito bem, Perry acredita que a situação é mais grave que um simples caso de fita embolada dentro do videocassete, então decide não alertar as autoridades, mas sim mandar um segundo repórter para enfrentar seja lá qual problema Lois tenha se deparado.

Ele então instrui Clark a pegar o “primeiro voo para a América do Sul”, sem especificar o país, afinal trata-se de um continente minúsculo, praticamente uma cidadezinha do interior, uma corrida de táxi do Uruguai para a Venezuela deve dar o quê, uns trinta pesos?

Clark, no entanto, decide que não vale a pena entrar no site da companhia aérea, pesquisar preço, fazer check-in e comer goiabinha com cream cracker, então decide simplesmente pôr seu uniforme de Super-Homem e voar por conta própria.

Mas espera um segundo, como ele vai explicar isso para o chefe? Vai dar o golpe e pedir ressarcimento pelo voo que não pegou ou vai dizer que resolveu pagar com o salário de jornalista uma viagem internacional marcada em cima da hora?

Sempre lembrando que estamos falando de um sujeito que fingiu entrevistar a si mesmo para conseguir o emprego, então não é como se ética fosse o seu forte

Mas essas questões burocráticas podem ficar pra depois, pois Clark chega na América do Sul e é recebido com desconfiança por Lois, temerosa de que ele roube a matéria que ela está escrevendo sobre as descobertas feitas por um arqueólogo e entusiasta de bigodes vistosos chamado Doutor Estevez.

Por “temerosa” entenda-se “homicida”

A descoberta do arqueólogo envolve uma imensa estrutura no subsolo de uma pirâmide Maia Asteca da América do Sul, construída por uma civilização desconhecida que habitou nosso planeta muitos séculos antes do surgimento da espécie humana.

Faço um parêntese aqui para dizer que esse Doutor Estevez trabalha com o curioso método arqueológico de chutar datas aleatórias, não se decidindo se a tal civilização tem três mil, cem mil ou mesmo seiscentos mil anos.

Mais umas quinze páginas e ele falava que a construção estava lá antes da formação do planeta

Lois, Clark e o Doutor Estevez adentram a estrutura e, como manda a boa técnica arqueológica, começam a futucar tudo sem qualquer critério ou rigor científico, até que eventualmente encontram uma múmia — afinal, não dá pra ter pirâmide sem múmia, você não consegue nem o alvará da prefeitura pra construir uma pirâmide se não tiver ao menos uma múmia.

Só que essa não é uma múmia normal — ao contrário dessas múmias ordinárias que a gente vê por aí todo dia –, eis que ela voa e solta raios pelos olhos, colocando todos em perigo e obrigando Clark a entrar em ação.

Nosso herói, contudo, precisa arrumar alguma forma de se afastar dos demais, para não comprometer sua identidade secreta enquanto luta com o monstro que está apenas se defendendo depois de ter sua casa invadida por três desconhecidos. A melhor solução que ele encontra para esse dilema é agredir Lois com um empurrão que a arremessa longe.

Não perca as contas: já tivemos assédio sexual, assédio moral, desvio ético e agora agressão física

Mas a múmia acaba levando a melhor na luta, e, depois de passar dois dias desacordado, o Super-Homem encontra Lois, o Doutor Estevez e toda sua equipe agindo de forma estranha, o que lhe dá a perfeita desculpa para invadir a privacidade da colega com sua visão de raio-x.

A explicação para o comportamento estranho é muito simples: a jornalista e o grupo de arqueólogos tiveram seus corpos dominados por hevlerianos, uma raça humanoide que viveu na Terra quinhentos mil anos atrás.

O que significa dizer que o Doutor Estevez errou absolutamente todos os chutes que deu

Segundo seu relato um tanto parcial, os hevlerianos eram a “raça mais perfeita” que já viveu na Terra, mas apesar disso não tiveram capacidade para desenvolver uma vacina quando foram acometidos por doenças transmitidas por bactérias FDP e micróbios do c*ralho presentes nos organismos dos seus escravos humanos.

Eventualmente, depois de presumivelmente terem travado um longo debate sobre uso de máscaras e adoção de hábitos de higiene, os hevlerianos optam pela solução mais óbvia e simples: construir naves suficientes para transportar vinte milhões de seres e deixar o planeta…

Não julgo

…exceto quinhentos negacionistas, que optaram por transferir suas mentes para um robô-hospedeiro (anteriormente conhecido como múmia), que deveria acompanhar o desenvolvimento do planeta ao longo dos séculos até que a humanidade atingisse um nível tecnológico próximo do seu, para então terem suas mentes dominadas.

Não fica claro por que eles não fizeram isso 500 mil anos antes e simplesmente mantiveram a própria tecnologia

Uma vez que a múmia foi convenientemente encontrada, os hevlerianos negacionistas tomaram os corpos de Lois Lane e de toda a equipe de arqueólogos, tendo o Super-Homem escapado desse destino apenas porque estava desacordado, e a transferência de mentes só pode ser feita em um hospedeiro consciente.

Porém, mesmo com o Super-Homem acordado, eles seguem sem fazer a transferência para o seu corpo, preferindo primeiro lutar com ele para só então ocupar seu corpo, o que faz com que o herói desenvolva a brilhante estratégia de fingir estar desmaiado.

…mas não DESMAIADO, só um pouquinho desmaiado, bem de leve

A aposta dele é que cada um dos 500 hevlerianos desejará tomar seu corpo, fazendo com que o impasse resulte em uma imensa explosão de ganância e escrotidão, o que a princípio me pareceu um palpite extremamente arriscado…

Acho que agora entendi o que eles quiseram dizer com “esperar a humanidade atingir o seu nível”

…mas eventualmente dá certo, afinal ninguém perde dinheiro se apostar que negacionismo e egoísmo andam sempre de mãos dadas.

Lionel Leal

Lionel Leal

Canto como Lionel Messi, jogo bola como Lionel Richie.

7 comentários sobre “A Nostalgia Era Melhor Antigamente: Super-Homem – A Múmia

  1. * Rapaz, a coluna já começa com uma chamada para a próxima coluna, esse Lionel é um gênio do marketing.
    * “videocassete estava com cabeçote sujo” – ou não sabem usar o tracking pra ajustar a imagem
    * “teipe” é foda, podiam ter traduzido como fita mesmo
    * viva ao SEDEX, abaixo o Amazon Prime #DigaNãoÀPrivatizaçãoDosCorreios
    * hoje Clark deve fazer a festa vendo vídeos no Xvideos de cosplays de Mulher-Maravilha
    * “afinal trata-se de um continente minúsculo” – eles não tinham Google Maps nem o Earth na época pra obter essa informação
    * se fosse hoje esse Doutor Estevez teria dito que viu um documentário no History Channel e que na verdade foi tudo feito por alienigenas, talvez parentes do Super-Homem
    * “é agredir Lois com um empurrão que a arremessa longe.” – lembrei do filme Ruas de Fogo em que o protagonista dá um soco na mocinha pra colocar ela pra dormir, assim ela poderia ser levada para um lugar seguro. os anos 80 foram muito loucos.
    * Talvez os hevlerianos tivessem a capacidade de fazer a vacina, mas eram antivax
    * “construir naves suficientes para transportar vinte milhões de seres e deixar o planeta…” – é que os bilionários de hoje em dia tão fazendo, mas no caso construíram uma nave só pra eles mesmos

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