Crítica | Mortal Kombat (2021)

Crítica | Mortal Kombat (2021)

É muito curioso tentar entender o fenômeno que envolve as adaptações cinematográficas de jogos de videogame; salvo algumas raríssimas exceções, são obras cuja qualidade varia do mais profundo abismo da desgraça ao meramente medíocre. E ao que parece, boa parte dessa qualidade duvidosa (além da falta de talento envolvida) vêm da dificuldade dos realizadores de entender as obras que estão adaptando.

Um dos pouquíssimos casos que conseguiu atingir essa compreensão foi a primeira adaptação do game de luta Mortal Kombat, lançada em 1995. Tal jogo, que por sua vez é diretamente inspirado pelos filmes de artes marciais dos anos 70 e 80 (em especial os filmes chineses e os grandes clássicos estrelados pelo ator belga Jean-Claude Van Damme, como o inesquecível Grande Dragão Branco), e fez um ótimo trabalho em captar a tosqueira, o exagero e toda a atmosfera “B” destas películas.

Naquela adaptação, toda essa galhofa foi abraçada com maestria, e é por isso que é até hoje é uma das mais divertidas obras cinematográficas inspiradas em um jogo eletrônico. Ela sabia bem da qualidade duvidosa do material de original e usava isso como vantagem; até mesmos os atores abraçavam esse lado o que rendeu papéis divertidíssimos (e canastríssimos) – como o Johnny Cage de Linden Ashby e o Lord Raiden do imortal Christopher Lambert.

Esta nova adaptação, lançada simultaneamente em 2021 em alguns e nos serviços de streaming HBO Max, falha miseravelmente em captar a essência de Mortal Kombat. O maior pecado desse filme é se levar exageradamente a sério. Com exceção talvez do Kano – interpretado pelo australiano Josh Lawson – todo elenco é muito sisudo e parece estar levando a situação aos limites do drama. Isso acaba se tornando um problema muito grande, pois quase nada no roteiro de Greg Russo e Dave Callaham faz algum sentido. A “trama” se contradiz o tempo inteiro, os “personagens” tomam decisões burras e incoerentes… e até aí estaria tudo bem, se o filme reconhecesse que é uma grande patuscada, como tão bem fez seu antecessor. Mas passa longe disso.

Além disso, as cenas de luta, que poderiam talvez salvar o filme do desastre total, são, em sua maioria, monótonas e mal coreografadas. Salvo um ou dois momentos mais interessantes, minha atenção se desprendia totalmente quando dois (ou às vezes) mais personagens começavam a brigar na tela.

Nem o fanservice agrada. Embora exista um certo respeito à mitologia imposta pela série de jogos, a caracterização de alguns personagens ou localizações icônicas ficou totalmente sem tempero. Até mesmo o empolgante tema clássico, que foi muito bem usado em 1995, foi reduzido a um leitmotiv deveras sem graça aqui.

Talvez o único adendo “positivo” é que a película soube abraçar a violência extrema que deu fama à franquia, e fez isso muito mais do que o filme dos anos 1990 (que foi pensado para adolescentes, à época, e portanto, bem comedido nesse sentido). Algumas cenas são tão gráficas que ficariam em casa como uma continuação da saga “Jogos Mortais” ou qualquer outra do gênero splatter.

Em suma, como é de praxe com a maioria das releituras de joguinhos, esse Mortal Kombat de 2021 é um tremendo desperdício de tempo e de uma boa oportunidade de reviver uma das franquias mais amadas pelos fanáticos por games de luta. Dê um fatility nessa bomba e passe longe.


Uma frase: “GET OVER HERE!”

Uma cena: A luta entre os dois ninjas mais populares da franquia.

Uma curiosidade: A filha do ator Van Damme, Bianca Brigitte, chegou a fazer um teste para o papel de Mileena.


Mortal Kombat

Direção: Simon McQuoid
Roteiro: Greg Russo e Dave Callaham, história de Oren Uziel e Greg Russo
Elenco: Lewis Tan, Jessica McNamee, Josh Lawson, Tadanobu Asano, Mehcad Brooks, Ludi Lin, Chin Han, Joe Taslim e Hiroyuki Sanada
Gênero: Ação, Aventura, Fantasia
Ano: 2021
Duração: 110 minutos

Dario Lima

Dario Lima

Dario Lima, além de ser faixa branca em todas as artes marciais e modalidades de combate conhecidas pelo homem, é também formado em Cinema. Mas sua verdadeira paixão são os joguinhos eletrônicos, desde que ganhou um Atari de presente do pai em uma época longínqua em que Menudo tocava nas rádios, Chevette era carro de playboy e McGyver passava na TV nas manhãs de domingo. Escreve sobre games na POCILGA e de vez em quando perturba os outros em algum episódio do Varacast.

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