Crítica | Mank (2020)

No cinema a figura do diretor é considerada como o principal artista responsável pelo filme, mas a verdade é que é uma arte colaborativa e o roteirista é um dos elementos cruciais para o sucesso. Mank, dirigido por David Fincher, conta um pouco da história de Herman J. Mankiewicz no período em que escreveu um de seus mais célebres roteiros: o do filme Cidadão Kane. A obra cinematográfica dirigida por Orson Welles em 1941 é considerada uma das melhores e mais importantes da história do cinema.

O roteiro foi escrito por Jack Fincher, pai de David, que faleceu em 2003. Depois de alguns anos, o filho conseguiu dirigir a história que mostra a jornada de Mank enquanto escrevia o roteiro de Cidadão Kane. A estrutura da narrativa mostra o protagonista no tempo presente isolado em um hotel no deserto se recuperando de um acidente de carro e escrevendo o roteiro contando com a ajuda de Rita (Lily Collins). Enquanto com o uso de flashbacks conhecemos um pouco sobre a história do personagem e a influência no que escreve.

David Fincher é um cineasta que sempre surpreende de alguma forma em seus filmes, mas em Mank ele optou por uma linha mais tradicional. Ele filmou em preto e branco e fez de tudo para que sua obra parecesse que tivesse sido filmada na época em que a história se passa. Se por um lado isso ajuda na imersão dentro da narrativa, por outro parece que o diretor estava mais interessado em premiações. Se existe algo que Hollywood e a Academia do Oscar gostam é de filmes que falam sobre cinema.

A maneira de filmar deixa Mank um pouco engessado, longe da inventividade comum da filmografia de Fincher. Até mesmo a trilha sonora dos colaboradores tradicionais do cineasta, a dupla Trent Reznor e Atticus Ross, está mais interessada em emular a época utilizando até instrumentos do período, criando algo artificial e com pouca criatividade, apesar de correta.

Na parte técnica um dos pontos de destaque é a mixagem e design de som feita em mono, onde todos os sons do filme (trilha, diálogos, efeitos sonoros) ficam no mesmo canal, criando um efeito de estarmos assistindo o longa em uma grande sala com um pouco de eco. Isso ajuda a destacar a trilha e deixam os diálogos mais próximos aos filmes da época em que a narrativa se passa.

Outros elementos se destacam como o uso de fades, recurso comum na época, e ajudam na imersão. Entretanto, na montagem com o uso de flashbacks é mostrado na tela textos de um roteiro de filme, como por exemplo “externa na frente do hotel em 1930”, para deixar óbvio para o espectador que ele está diante de uma obra sobre um roteirista. Isso só mostra o quanto Fincher está interessado, como já foi dito, em agradar a indústria do cinema e ganhar pontos para as premiações.

Contudo, o uso de flashbacks é bem utilizado no filme para mostrar o que ocorreu durante a vida de Mank que o influenciou no roteiro de Cidadão Kane. A principal influência é do magnata da mídia William Randolph Hearst, interpretado muito bem por Charles Dance, no qual o protagonista Kane seria baseado. O roteiro de Fincher pai explora de maneira bem didática a indústria do cinema e de como poder, política e cultura caminham lado a lado. Herman trabalhou para grandes estúdios e fez concessões a sua visão política para continuar trabalhando, enquanto os seus excessos no comportamento (principalmente por causa do álcool) eram minimizados por causa do seu talento e carisma.

Por outro lado, a forma como o roteiro de Mank desenvolve seus personagens apresenta alguns problemas. A jornada do protagonista exibe seus dilemas pessoais, mostrado como um homem carismático e acima de suas próprias questões, sem apresentar nenhuma mudança ao longo dos anos. Apesar do problema da narrativa, Gary Oldman faz um trabalho brilhante e dá a Herman alguma multidimensionalidade, sem transformar o papel em algo caricato, principalmente nas cenas em que aparece bêbado.

Rita, interpretada por Lily Collins, tem pouca utilidade na narrativa e até mesmo o arco envolvendo notícias do seu marido na guerra pouco agrega ao roteiro. Já Marion interpretada por Amanda Seyfried tem muitos bons momentos, apesar do pouco tempo em cena, e quando aparece ao lado de Mank sempre rouba a cena com seu carisma e talento.

Em síntese, Mank é um filme que funciona melhor para quem já conhece a indústria do cinema dos anos 1930 e 40 e principalmente para quem já assistiu Cidadão Kane. É interessante ver esse ponto de vista do roteirista Herman J. Mankiewicz e das influências na escrita do roteiro. Contudo é uma pena ver David Fincher mais interessado em ganhar prêmios do que apresentar uma obra inventiva e criativa, marcas importantes da sua filmografia.


Uma frase: – Mank: “Você não pode captar a vida inteira de um homem em duas horas. No máximo, pode deixar uma impressão.”

Uma cena: Quando Mak chega bêbado em um jantar.

Uma curiosidade: O filme foi filmado utilizando câmeras RED Monstrochrome 8K, não existe versão colorida.


Mank

Direção: David Fincher
Roteiro:
Jack Fincher
Elenco: Gary Oldman, Amanda Seyfried, Lily Collins, Arliss Howard, Tom Pelphrey, Sam Troughton, Ferdinand Kingsley, Tuppence Middleton, Tom Burke, Joseph Cross, Jamie McShane, Toby Leonard Moore, Monika Gossmann e Charles Dance
Gênero: Biografia, Comédia, Drama
Ano: 2020
Duração: 131 minutos

One thought on “Crítica | Mank (2020)”

  1. O tipo de filme que me dá uma preguiça enorme justamente por toda essa “artimanha” para premiações e essa estética em preto e branco, gente.

    Esse vou deixar passar sem remorsos, mesmo sendo muito fã das obras de Fincher

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