Crítica | Estou Pensando em Acabar com Tudo

Existe um momento no relacionamento entre duas pessoas que pode significar que foi dado um passo mais sério no compromisso: conhecer os pais da pessoa amada. Inicialmente em “Estou Pensando em Acabar com Tudo”, novo filme do diretor e roteirista Charlie Kaufman, acompanhamos a viagem de carro de um casal onde a jovem está indo com o namorado jantar na casa dos pais dele. O clima de tensão e ansiedade é alto, além do clima de mistério.

No entanto, estamos diante de uma obra de Charlie Kaufman e dessa forma não iremos acompanhar essa narrativa de maneira tradicional. O artista tem seu jeito peculiar de contar histórias, como vimos em filmes como “Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças” e “Adaptação”, onde ele foi apenas o roteirista, ou em obras como “Anomalisa” e “Sinédoque, Nova Iorque”, que ele escreveu e dirigiu.

Suas obras sempre falam sobre o individualismo e “Estou Pensando em Acabar com Tudo” não é diferente. O que nos faz ser diferentes uns dos outros? Pode ser nossa forma de pensar, nosso corpo ou então os nossos gostos. Muitas vezes em um relacionamento uma das pessoas do casal pode passar por mudanças na sua forma de agir ou nas coisas que gosta, sofrendo influência da pessoa amada.

Durante o desenvolvimento da trama acreditamos que a jovem seja a protagonista da história. Ouvimos a sua narração em off do que seriam os seus pensamentos, mas em alguns momentos temos que a impressão de que Jake também consegue ouvir. E durante toda a narrativa temos essa sensação de estranhamento entre os dois. A mulher interpretada por Jessie Buckley não parece ter uma personalidade definida. Em cada momento ela é referenciada por um nome ou profissão diferentes. Mas o que estaria acontecendo com sua persona? Estaria ela se adaptando aos gostos do namorado?

A discussão proposta por Kaufman é interessante e a sua forma peculiar de explorar a narrativa é o ponto de destaque de “Estou Pensando em Acabar com Tudo”. Em toda obra de arte existem reflexões propostas pelo autor, algo tipo “o que ele quis dizer com isso”. Qualquer filme tem um pouco disso, seja em maior ou menor grau, mas o objetivo de qualquer artista é proporcionar ao espectador algum sentimento.

É impossível falar sobre “Estou Pensando em Acabar com Tudo” sem revelar alguns pontos sobre a narrativa, então a partir desse ponto fica o aviso de SPOILERS.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados no filme Estou Pensando em Acabar com Tudo.

Sem dúvidas a grande revelação do filme de Kaufman seja que na verdade não estamos acompanhando a história do ponto de vista da mulher, mas sim da de Jake. Isso é curioso já que vemos um reflexo do subconsciente do personagem. Então a figura da personagem de Jessie Buckley não representa apenas uma pessoa, mas sim as diversas figuras amorosas que passaram pela vida do rapaz. E quando vemos um homem trabalhando como zelador de um colégio, logo percebemos que ele na verdade é o próprio Jake que está refletindo sobre sua própria vida.

Um homem triste que é ressentido do passado, onde a reflexão sobre sua própria vida se confunde com outras obras que ele aprecia. Dessa forma quando de repente o Estou Pensando em Acabar com Tudo vira um musical, ele está apenas misturando a realidade com o sentimento afetivo de “Oklahoma!”, citado na conversa de Jake com a jovem durante a viagem. Ou quando imagina que ganhou um prêmio, que não passa da lembrança do filme “Uma Mente Brilhante”, que não por acaso é visto um dvd da obra em seu quarto anteriormente. Contudo, essas referências a obras, sejam cinema ou literatura, servem apenas para ilustrar a discussão em torno da individualidade.

Um exemplo interessante é durante o jantar quando o pai de Jake questiona a personagem de Jessie Buckley sobre sua obra. Nesse momento ela é retratada como uma pintora que pinta paisagens, onde explica que seus quadros retratam sentimentos. Eis que o senhor pergunta como é possível passar os sentimentos através daquele desenho, e essa reflexão diz muito sobre o filme. Como passar através de diálogos, movimento e atuações dos atores essa discussão sobre a individualidade? Talvez a forma que Kaufman utilize não seja a mais fácil, mas através da “abstração” muitas vezes é possível passar para o espectador, mesmo que de forma inconsciente, o que ele quer dizer com a sua obra.

A mudança da imagem dos personagens dos pais de Jake, quando eles parecem envelhecer ou rejuvenescer de uma cena para outra, também é um recurso interessante da obra de Kaufman. Aqui vou dar um exemplo pessoal. Eu não consigo me enxergar como um homem que está prestes a completar 40 anos, então dessa forma sempre tenho dificuldade em saber facilmente pela aparência a idade de estranhos. Essa falta da “auto-referência” dificulta, e algo parecido é visto em Estou Pensando em Acabar com Tudo. A nossa memória pode nos confundir e em nossas lembranças talvez você mesmo não pareça estar mais novo ou velho, mas as pessoas ao seu redor sim, ainda mais do ponto de vista de outra pessoa, no caso a personagem de Jessie Buckley.

Bom, eu poderia ficar aqui escrevendo sobre diversas outras reflexões sobre “Estou Pensando em Acabar com Tudo” e isso é o que faz a obra de Charlie Kaufman ser algo tão fascinante. Se o artista seguisse por um caminho mais simplista, talvez não estivesse aqui refletindo sobre seu mais recente trabalho e muito menos comparando com os anteriores. Isso é o que torna a arte algo tão interessante em ser apreciada.


Uma frase: – “Estou Pensando em Acabar com Tudo”

Uma cena: O jantar na casa dos pais de Jake.

Uma curiosidade: Brie Larson foi originalmente escolhida para o elenco e depois foi substituída por Jessie Buckley.

 


Estou Pensando em Acabar com Tudo (I’m Thinking of Ending Things)

Direção: Charlie Kaufman
Roteiro:
Charlie Kaufman
Elenco: Jesse Plemons, Jessie Buckley, Toni Collette, David Thewlis e Guy Boyd
Gênero: Drama, Thriller
Ano: 2020
Duração: 134 minutos

One thought on “Crítica | Estou Pensando em Acabar com Tudo”

  1. Não cheguei nem perto de gostar do filme o quanto você gostou. Achei bem mais ou menos porque já me cansei desse tipo de obra, talvez a culpa seja minha e eu que tenha que acabar com tudo haahha

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