Crítica | O Homem Invisível (2020)

O Homem Invisível superou o desafio de adaptar uma história de terror clássica com genialidade e ousadia. Da primeira aparição do personagem nos cinemas, na década de 1930, até os dias atuais, o gênero de horror tem ganhado cada vez mais popularidade e aceitação, pela diversidade de subgêneros e também por conseguir abordar temas áridos do comportamento humano e exibir críticas sociais pertinentes. É com essa bagagem que o cineasta Leigh Whannell revisita a obra literária de H. G. Wells, de 1897, para adaptá-la ao contexto específico dos relacionamentos abusivos, um padrão de comportamento antigo da cultura patriarcal que começou recentemente a ser identificado e denunciado.

No filme, Adrian Griffin (Oliver Jackson-Cohen) é um renomado cientista especializado em experimentos óticos, que é casado com Cecilia Kass (Elisabeth Moss). Cansada das constantes agressões verbais, físicas e psicológicas praticadas pelo marido, Cecilia foge do relacionamento e busca abrigo e proteção com a irmã Emily Kass (Harriet Dyer) e o amigo James Lanier (Aldis Hodge). Pouco tempo depois, Adrian forja a própria morte e passa a atormentar Cecilia no papel de homem invisível, fazendo com que todos pensem que a mulher está enlouquecendo. O que parece ser ficção no longa, infelizmente, é um retrato do cotidiano de pesadelo e horror vivido por muitas mulheres.

O terror psicológico de O Homem Invisível é tão verossímil para vítimas de histórias semelhantes que pode despertar inúmeros gatilhos mentais capazes de reavivar traumas. Apesar de pertinente, incômodo e pedagógico, o filme é uma armadilha perigosa para espectadoras desavisadas. A trama é propositalmente amarga, indigesta, revoltante para chocar e provocar sentimentos conflitantes, justamente no intuito de expor a complexidade das decisões, pensamentos e atitudes dos personagens. A atriz Elisabeth Moss, a famosa June da série The Handmaid’s Tale, se destaca pela entrega física e emocional de todo seu potencial dramático ao filme.

A sensação é de que o longa cumpre muito bem o propósito de ser mais uma excelente obra de terror do seu tempo. É justo nesse ponto que o filme também me incomoda. A exemplo de Corra!, de Jordan Peele, cuja temática principal é o racismo, O Homem Invisível utiliza de maneira inteligente e criativa recursos narrativos do terror clichê, como cenários vazios e jump scare, fortalecidos por uma temática densa para entregar o medo real que vitimiza milhares de pessoas mundo afora em uma embalagem palatável de entretenimento cinematográfico. Ainda assim, é válido pela mensagem crítica e por traduzir o significado de uma prática tão comum no dia a dia de todas as mulheres, que é gaslighting.


Uma frase: – “Ele disse que onde quer que eu fosse, ele me encontraria, andaria até mim e eu não seria capaz de vê-lo.”

Uma cena: Cecília e a irmã conversando em um restaurante.

Uma curiosidade: O nome da heroína, Cecilia, diminui para um apelido que, no idioma original, é um trocadilho com a palavra “ver”.


O Homem Invisível (The Invisible Man)

Direção: Leigh Whannell
Roteiro:
Leigh Whannell
Elenco: Elisabeth Moss, Oliver Jackson-Cohen, Harriet Dyer, Aldis Hodge, Storm Reid e Michael Dorman
Gênero: Terror, Mistério, Sci-Fi
Ano: 2020
Duração: 124 minutos

2 thoughts on “Crítica | O Homem Invisível (2020)”

  1. Nossa, filmaço sem sombra de dúvidas!
    A utilização da ciência para representar a invisibilidade dos homens que assombram mulheres que sofrem em relacionamentos abusivos é sensacional, apesar de ser uma triste realidade.

    Texto excelente!!!

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