Crítica | Maria do Caritó

Maria do Caritó é o mais novo lançamento do cinema brasileiro que mostra a história de uma mulher nordestina considerada santa na sua pequena cidade. A obra tenta divertir e deixar claro que “Milagres, milagres, negócios à parte”. No entanto nem o elenco nem o diretor João Paulo Jabur conseguem aproveitar essa intervenção divina.

Lília Cabral é Maria do Caritó, uma mulher já perto dos 50 anos que vivem na pequena cidade de Úrsula, cidade típica interiorana do nordeste brasileiro (e diga-se de passagem, com todo o estereótipo e clichês possíveis de uma narrativa desse tipo). A mulher vive com seu pai, um senhor extremamente religioso que fez uma promessa para salvar a vida de sua filha na hora do parto complicado: caso ela vingasse, seria virgem a vida inteira, sendo posteriormente entregue a São Djalminha. No entanto, desde os primeiros minutos do filme, Maria deixa claro que essa nunca foi sua intenção, e que seus interesses são exatamente o oposto.

A pequena e pacata cidade é a representação fiel de um interior regido pela força da religião e representantes da igreja local. As cenas de procissão e de romarias são fiéis as que de fato ocorrem por todo o país em diferentes interiores. Boa parte da comédia do filme está justamente nessas cenas, no entanto a obra peca ao não ter um timing bom para as piadas. Em alguns momentos a situação transcende de cômica para ridícula e vergonhosa para quem assiste, ainda que o telespectador não esteja encarando o filme de forma séria.

O coronel da trama, que se apresenta claramente como o “vilão”, típico matador e político de pequenas cidades, defende a sua candidatura para prefeito ao lado da “santinha” Maria, que para todos opera milagres e é a perfeita escolha para se tornar a santa da cidade. Com a ajuda da igreja e de seus representantes a obra apresenta mais um clichê muito utilizado em filmes que retratam os interiores, desmerecendo um pouco mais a capacidade de discernimento dos próprios nordestinos, apresentando eles como seguidores cegos dos mandantes da cidade.

Por outro lado, a moça pura e ingênua tratada como santa a todo momento está mais interessada em encontrar seu grande amor e dar um fim a sua tortura e “esse fogareiro debaixo da saia”. No entanto, a ingenuidade e o jeito sonso de Lília Cabral nesse filme, infelizmente não convencem. Inicialmente a personagem é nos apresentada com esse ar inocente, o que faz com que as expectativas aumentem para um momento de rebelião, que nunca chega, ou pelo menos não se sustenta na trama. O resto das atuações do filme são tão insossas quanto a da protagonista. Momentos interessantes são apresentados, mas nada comove e surpreende, assim como a própria Maria do Caritó.

A segunda parte do filme nos apresenta uma Maria mais desesperada por amor, que tenta abrir mão da vida de santa, indo contra os princípios e promessas de seu pai, se juntando a um circo que chega à pequena cidade. Porém, por melhor que tenha sido a intenção do diretor em trazer esse novo elemento, a fim de dar um sentido e uma oportunidade de liberdade à protagonista, o que se vê na tela não agrada nem um pouco e dá uma impressão de que o filme está sendo desnecessário e arrastado.

É difícil julgar um filme brasileiro, dentro da perspectiva do cinema nacional, sem me sentir um pouco culpada. Afinal, é nosso dever valorizar o que é nosso, no entanto verdade seja dita; nem o próprio Maria do Caritó poderia salvar esse filme de uma crítica não tão positiva. Pontos têm que ser dados à obra obviamente pelo interesse na cultura nordestina, no entanto a forma como se apresenta os detalhes e papéis dentro da trama a desconstrói e desvaloriza. Em um momento em que o cinema brasileiro tem se desenvolvido tanto, e se destacado no exterior, como com “Bacurau” e o mais novo “A vida invisível”, fica difícil simpatizar com essa obra.

João Paulo Jabur traz às telonas Maria do Caritó, uma “santa” virgem que só queria encontrar seu grande amor. Uma pena que a trama não convence e nem valoriza a cultura nordestina. Lilian Cabral infelizmente não consegue ser real na pele de Maria, já que a atriz tem o mesmo papel na peça que deu origem ao filme. Porém nem a própria “santinha” poderia salvar a trama de uma crítica ruim.


Uma frase: “Fazer promessa com a cabaça dos outros é fácil!”

Uma cena: A cena em que a romaria canta uma música feita especialmente para Maria em frente à sua casa.

Uma curiosidade: Baseado na peça teatral “Maria do Caritó”, também estrelada por Lília Cabral.


Maria do Caritó

Direção: João Paulo Jabur
Roteiro:
Newton Moreno e José Carvalho
Elenco: Lília Cabral, Gustavo Vaz, Juliana Carneiro da Cunha, Leopoldo Pacheco, Larissa Bracher, Kelzy Ecard, Fernando Neves e Alice Assef
Gênero: Comédia
Ano: 2019
Duração: 94 minutos

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