Crítica | Bate Coração

Bate Coração faz parte de uma categoria – quase gênero cinematográfico bem brasileiro – que é a dos filmes de temática espírita. O longa, inclusive, é escrito e dirigido por Glauber Filho, cineasta cearense responsável por outros exemplares como Bezerra de Menezes – O diário de um espírito (2008) e As mães de Chico Xavier (2011). Nesta nova produção, o diretor aposta no drama com comédia para falar de temas sérios e complexos. O resultado é que ele entrega um filme morno, sem personalidade e que fica muito abaixo da qualidade das atuais produções nacionais do mesmo estilo.

No filme, Sandro (André Bankoff) é um homem heterossexual, preconceituoso e que se orgulha de ser um cafajeste com as mulheres. Sua jornada de redenção e evolução começa quando, após sofrer um ataque cardíaco, ele recebe o transplante do coração de Isadora (Aramis Trindade) – uma transexual que morre atropelada na noite de reveillón. A história dessa personagem fascinante é conhecida ao longo do filme, em razão das atitudes tomadas por parentes, amigos e inimigos, depois de sua morte. Enquanto isso, o espírito de Isa acompanha Sandro, influenciando suas ações e ajudando a mudar seu comportamento.

Por muito pouco, o longa não envereda pelo clichê clássico de comédias de troca de corpo. Ainda assim, erra e muito na abordagem da desconstrução da masculinidade e na representação das personagens LGTBQI+. Em diversos momentos, inclusive, o filme faz uma abordagem tão ostensiva sobre aceitação, que parece exageradamente falsa e superficial. Sem falar que as personagens travestis e transexuais são reduzidas, na maior parte do tempo, ao alívio cômico do longa, retratadas folcloricamente. As piadas são machistas e misóginas até mesmo quando Sandro é confrontado pela desconstrução de seus preconceitos.

A masculinidade tóxica é presente e constante do começo ao fim do longa, com curtos intervalos para subversão dessa lógica, como na introdução do filho de IsadoraDavi (Brenno Leone) – na história, o que faz o espectador refletir sobre a diversidade de modelos familiares possíveis no mundo atual, que ainda carecem de visibilidade e respeito. No meio de toda essa sequência de equívocos, há um ensinamento moral – pautado em conceitos do Espiritismo – e também uma mensagem de caráter social, cujo objetivo é promover a doação de órgãos. A sensação é de que roteiro foi construído em torno dessa proposta, se assemelhando mais a uma peça publicitária de longa duração do que a uma produção cinematográfica.

Também são visíveis problemas de montagem, dificuldades para realizar com eficiência transições de cena e ainda de conjugar organicamente os pontos de convergência entre os diferentes núcleos dos personagens principais. As resoluções do roteiro parecem ser aceleradas do segundo para o terceiro ato, por meio de soluções fáceis e transformações milagrosas de personagens. Talvez, nesse sentido, fosse mais eficiente do ponto de vista comercial, a produção de uma série ou uma novela sobre a temática, na qual seria possível explorar mais profundamente as nuances dos personagens de forma a gerar maior identificação do público com a história.


Uma frase: “Você vai ter que provar que merece essa nova vida que ganhou.”

Uma cena: A cena na qual Sandro encontra Isadora em sonho, no hospital.

Uma curiosidade: O longa é baseado nas peças de teatro “Acredite, Um Espírito Baixou em Mim” e “O Coração Safado”, ambas de Ronaldo Ciambroni.


Bate Coração

Direção: Glauber Filho
Roteiro:
Glauber Filho
Elenco: Aramis Trindade, André Bankoff, Heloísa Jorge, Brenno Leone, Germana Guilhermme, Paulo Verlings e Dênis Lacerda
Gênero: Drama, Comédia
Ano: 2019
Duração: 94 minutos

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