Crítica | Projeto Gemini (Gemini Man)

Projeto Gemini, novo filme do cineasta Ang Lee estrelado por Will Smith, é um clone genérico de filmes de ação e ficção científica, e ainda por cima não tem alma. Infelizmente essa é a melhor maneira de definí-lo. O diretor é conhecido por sua versatilidade em explorar diversos gêneros enquanto o ator tem um incrível carisma, mas suas qualidades combinadas não foram suficientes para salvar a obra cinematográfica do desastre.

O principal destaque de Projeto Gemini são os efeitos visuais, que agora em 2019 chegou num ponto onde é possível criar uma versão mais nova e digital de um ator de forma verossímil. O efeito é realmente impressionante, contudo a escolha de Will Smith para o papel do protagonista tem um problema: o ator não é tão diferente assim da sua versão mais jovem. Dessa forma o impacto visual não é tão grande quanto seria com outros atores que já estiveram ligados ao projeto como Clint Eastwood e Nicolas Cage.

Além disso, o filme foi filmado em um frame rate de 120 quadros por segundo, diferente dos 24 tradicionais, algo parecido com que fizeram na trilogia O Hobbit. Junto com o 3D e a resolução 4k isso prometia ser um grande avanço para o cinema. No entanto, eu preferi assistir o filme em 2D, então não posso avaliar esse aspecto.

A fotografia do filme é interessante em alguns momentos, principalmente nas cenas de ação. Em alguns ponto a câmera opta pela visão de 1ª pessoa, como se fosse um jogo de videogame, conferindo uma imersão maior ao espectador dentro da narrativa. Mas apesar de ser tecnicamente correto, nos outros aspectos Projeto Gemini deixa muito a desejar.

O principal problema é a narrativa. Na história Henry Brogan (Will Smith) é um assassino profissional (considerado o melhor que já existiu!?) que trabalha para o governo e resolve se aposentar. No entanto, ele descobre que seu último trabalho foi uma farsa. Ele acreditava ter matado um terrorista, mas matou um homem inocente. Ao descobrir esse segredo Henry começa a ser perseguido pela Gemini, empresa comandada por Clay Varris (Clive Owen), que envia Junior (Smith digital mais jovem) para matá-lo. O protagonista conta com a ajuda de Baron (Benedict Wong), amigo de longa data, e de Dani Zakarweski (Mary Elizabeth Winstead), mulher que também trabalha para o governo e estava espionando Brogan, mas resolve ajudá-lo.

É interessante que o filme é protagonizado por um negro, uma mulher e um descendente de oriental. Mas apesar da diversidade étnica, infelizmente o roteiro não desenvolve os personagens de maneira minimamente interessante para que tenham algum aprofundamento dramático. A química entre Smith e Winstead é quase nula, enquanto Wong não funciona nem como alívio cômico. Mas no quesito unidimensionalidade o vencedor é Clive Owen, já que Clay é tão caricato que o seu figurino preguiçoso sempre usando preto já deixa claro que não veremos nada ali além de um vilão clichê. E o roteiro alterna entre diálogos expositivos e frases de efeito, sendo que esses recursos só contribuem para deixar os personagens ainda mais estereotipados.

Contudo o mais bizarro são as cenas onde Will Smith conversa com seu clone digital mais jovem. Eles têm o mesmo DNA, mas o roteiro insere elementos para justificar que eles sejam literalmente iguais que são absurdos e beiram o ridículo, como o fato deles quando espirram, espirram quatro vezes (isso seria genético!?), ou a alergia a abelhas, que assim que é citada sabemos que ela será utilizada em algum momento, só não esperamos que fosse de forma tão idiota.

O roteiro é cheio de absurdos, surgem soluções mirabolantes e nada parece fazer sentido dentro da narrativa, desde mudança de comportamento dos personagens (principalmente a de Junior), a questionamentos tipo “como eles sempre sabem onde nós estamos” – cuja resposta é ainda mais clichê e idiota. Os diálogos quase nunca parecem verossímeis, como se nada dentro da história parecesse real (e a frase escolhida no final do texto diz muito sobre isso).

Uma boa história de ficção científica, principalmente envolvendo clones, deveria ter todo uma questão filosófica e moral por detrás, mas Projeto Gemini também nem tenta tocar no assunto. A motivação da escolha de Henry para a experiência e a justificativa para resolver matá-lo quando ele resolve se aposentar também é sem sentido. Ou seja, o filme de Ang Lee acredita que efeitos visuais e a presença de Will Smith são suficientes para se construir uma obra cinematográfica. É uma pena que uma dupla dessa junta resulte em um longa tão decepcionante. Mas como foi dito no início do texto: faltou uma alma. E isso parece que é difícil de ser clonado.


Uma frase: – Henry: “Se podiam clonar uma pessoa deviam ter clonado Nelson Mandela.
– Dani: “Nelson Mandela não mataria alguém num trem a 2 km de distância!”

Uma cena: O primeiro encontro entre Henry Brogan e Junior (Will Smith atual e sua versão jovem).

Uma curiosidade: O filme foi escrito originalmente para Clint Eastwood e Nicolas Cage também esteve cotado para estrelar. Os diretores Tony Scott e Curtis Hanson estavam ligados ao projeto nos anos 1990 quando a Disney estava produzindo. No entanto ele foi cancelado porque os efeitos visuais não eram bons suficientes.


Projeto Gemini (Gemini Man)

Direção: Ang Lee
Roteiro:
David Benioff, Billy Ray e Darren Lemke; história de Darren Lemke e David Benioff
Elenco: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen e Benedict Wong
Gênero: Ação, Drama, Sci-Fi
Ano: 2019
Duração: 117 minutos

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