Crítica | A Música da Minha Vida

Lembra daquela música da sua adolescência? Aquela mesma, que você escutava e escutava até furar o disco. Que parecia descrever perfeitamente seus medos e frustrações. Que te aconselhava e te fazia suportar o caminho interminável de obstáculos… Pois é, para Javed Khan, um garoto de origem paquistanesa que nasceu no Reino Unido, essas músicas são de autoria do Bruce Springsteen.

O filme A Música da Minha Vida (em inglês, Blinded by the light) é dirigido por Gurinder Chadha, uma mulher que nasceu no Quênia e se mudou para a Inglaterra ainda jovem. Qualquer semelhança com o protagonista não é mera coincidência. Javed se vê dividido entre dois mundos: entre a herança cultural e religiosa de sua família e o mundo ocidental moderno, cheio de possibilidades.

A comédia dramática é apresentada de forma brilhante. Em um momento em que a indústria do cinema parece incentivar a representatividade nas telas mais como um fator para aumentar a bilheteria do que para de fato representar e defender as minorias sociais, é um alívio poder assistir a um filme como ‘A música da minha vida’. Segundo o próprio Viveik Kalra – que interpreta o jovem Javed – “Acho que as coisas estão mudando, mas apenas porque as pessoas perceberam que as pessoas de cor são comercializáveis. Eu não acho que grandes estúdios estariam fazendo filmes agora com pessoas de cor diferente. É um negócio”. No entanto, filmes mais atuais como Pantera Negra e Podres de Ricos estão mudando este cenário e finalmente apresentando pessoas reais nas telonas.

Terei que ser honesta, as únicas pessoas paquistanesas que eu conheço são Malala (escritora e ativista) e Kumail Nanjiani (ator e humorista conhecido por Silicon Valley). E já que estamos sendo francos, quando o cantor Bruce Springsteen começou sua carreira e emplacou seus maiores sucessos eu ainda nem era nascida! Mas aí que se reflete a maravilha desse filme: músicas atemporais e assuntos pertinentes.

O roteiro do filme é co-escrito pelo jornalista Sarfraz Manzoor – o jovem que inspirou toda a história e que teve que lutar por seu sonho na cidade de Luton, ainda em 1987. Isso foi um fator importantíssimo, pois traz o nível de detalhismo necessário para tornar real toda essa experiência. O cuidado que os roteiristas tiveram com o filme são perceptíveis, tanto a direção de arte quanto o figurino são bons, o que nos possibilita mergulhar nas cenas e nos envolver na situação a ponto de quase sentirmos as agonias do protagonista. E ainda que você não conheça ou não goste tanto de Springsteen, nesse filme você vai achar as cenas musicais divertidas.

Não é fácil ser adolescente, todos nós já passamos por isso. Mas imagine que além de ter que lidar com seus próprios sentimentos, Javed se vê perseguido por sua religião, sua cor e por suas crenças fora de casa. E dentro de casa, mantido com a rigidez de um pai que não aceita os seus sonhos. Lembremos ainda que essa época foi marcada por inúmeros outros fatores externos que oprimia e minimizava qualquer oportunidade que um jovem paquistanês poderia ter. Estamos falando da ocupação da Rússia em países orientais, a política de extrema direita legitimando manifestações de preconceito e ódio, altíssimos índices de desemprego, e o governo da ‘Dama de Ferro’ no Reino Unido.

Em 1987, Bruce já estava no auge de sua carreira, após lançar álbuns como “Born to run” de 1975 e “Born in the U.S.A.” de 1984. No filme, o estilo musical dele já não é mais o que acompanha a adolescência da época, afinal “o futuro da música são os sintetizadores”. Mas Javed renova seus sonhos e expectativas de futuro ao escutar pela primeira vez suas músicas, e aos poucos vai se tornando mais e mais viciado em Springsteen a ponto de chegar a ser um pouco irritante no filme. Mas a história felizmente toma um rumo mais simples e agrada de maneira geral.

Não é difícil reconhecer que a música é um instrumento poderoso. A música nos ensina, nos provoca, nos acalma e nos agita. No filme A Música da Minha Vida fica fácil entender o poder que a música exerce na vida de qualquer pessoa. Especialmente quando precisamos escutar aquilo que nos representa e que simboliza a nossa luta.

E você, qual é a música da sua vida?


Uma frase: Malik – “Me diga um escritor paquistanês? Escrever é coisa de britânico. Eles têm pais ricos!”

Uma cena: A festa diurna em uma boate para asiáticos.

Uma curiosidade: O ator que interpreta Javed, Viveik Kalra, em entrevista ao The Guardian revelou que nunca havia escutado Bruce Springsteen antes do filme, que achava que a música “Hotel California” fosse dele.


A Música da Minha Vida (Blinded by the Light)

Direção: Gurinder Chadha
Roteiro:
Paul Mayeda Berges, Gurinder Chadha e Sarfraz Manzoor
Elenco: Viveik Kalra, Kulvinder Ghir, Meera Ganatra, Nell Williams, Aaron Phagura e Dean-Charles Chapman
Gênero: Comédia, Drama, Musical
Ano: 2019
Duração: 117 minutos

One thought on “Crítica | A Música da Minha Vida”

  1. Achei esse filme lindo mesmo. Tocante, divertido e me emocionou de verdade. Faz a gente pensar em nossos pais. Acho que é um recorte ótimo, mesmo que seja de uma época que muitos não tenham vivido conversa muito sobre os tempos atuais como você escreveu.

    Ótimo texto, parabéns. Só achei a nota um pouco tímida, daria 4 bacons 😛

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *