Crítica | Duas Rainhas (Mary Queen of Scots)

Baseado no livro “Queen of Scots: The True Life of Mary Stuart”, de John Guy, Duas Rainhas é um drama de época sobre poder, visibilidade feminina e sororidade. O longa roteirizado por Beau Willimon – responsável por escrever as primeiras temporadas de House of Cards – faz uma adaptação ousada da famosa história de disputa pelo trono inglês ocorrida nas primeiras décadas do século XVI, entre a rainha dos escoceses, Mary Stuart (Saoirse Ronan), e a rainha da Inglaterra, Elizabeth I (Margot Robbie).

Com uma dedicação especial aos figurinos, às maquiagens e também à fotografia do filme, a famosa diretora inglesa de teatro, Josie Rourke, faz uma elegante e surpreendente estreia nos cinemas. O olhar feminino na direção é um diferencial perceptível que eleva a qualidade da narrativa de época para ressaltar o empoderamento de duas grandes mulheres, cujas personalidades ganham as devidas camadas de complexidade e dramaticidade, numa trama que se equilibra entre o ficcional e a adaptação de fatos históricos.

No longa, a jovem Mary Stuart retorna à Escócia após ficar viúva do monarca francês com o qual havia se casado aos 16 anos. A Inglaterra, nesse período, é governada por sua prima, a rainha Elizabeth I, que vive assombrada com a possibilidade de ser destituída do cargo, pelas inúmeras conspirações políticas e conflitos religiosos liderados por católicos e protestantes à época em praticamente toda a Europa. A chegada de Mary em terras escocesas é vista com desconfiança por Elizabeth, que tenta a todo custo manter a diplomacia com aquela que por muitos é considerada herdeira legítima da coroa inglesa.

Obstinada, segura, destemida e ambiciosa, Mary acredita que sua linhagem a concede o propósito e a responsabilidade de assumir o trono da Inglaterra, sagrando-se rainha de ingleses e escoceses. Apesar de subestimada pela maior parte de seus súditos, por ser jovem e mulher, a descendente dos Stuart ascende à liderança do território escocês e desafia Elizabeth I a construir um acordo no qual as duas sejam capazes de dividir o comando da nação. A resistência da rainha inglesa é colocada à prova quando Mary dá à luz ao possível único herdeiro do trono e nomeia Elizabeth como madrinha da criança.

As principais questões e tabus enfrentados por mulheres ainda nos dias atuais com relação a casamento, gravidez, menstruação, prazer sexual, empoderamento e sororidade são postas no filme com personagens do século XVI. Mary e Elizabeth, apesar das diferenças, são mulheres que enfrentaram problemas semelhantes para se manterem no poder num ambiente político dominado por homens que as desacreditavam e as difamavam. Por isso, é bastante simbólica a forma como as duas se tratavam, por “irmãs”, mesmo que na prática fossem primas.

Saoirse Ronan está impecável na pele de Mary Stuart. Margot Robbie, mesmo com menos tempo de tela, entrega toda emoção reprimida de uma rainha que abdicou do casamento e do desejo de ter filhos para se dedicar integralmente ao comando firme de uma nação, num momento crítico da história britânica. As personagens são propositalmente ambíguas, complexas e contraditórias. Elas são exaltadas pela força e também por suas fraquezas e inseguranças, que simbolicamente são “descortinadas” entre elas, na cena final, o momento mais emocionante do filme.


Uma frase: – Queen Elizabeth I: “Como são cruéis os homens!”

Uma cena: O encontro entre as duas rainhas.

Uma curiosidade: A diretora Josie Rourke teve que convencer o estúdio a não excluir a cena em que Queen Mary está menstruada. Ela afirmou que “essas foram discussões instrutivas sobre o quão honestos estávamos sendo sobre o corpo das mulheres e o que elas fazem, o prazer das mulheres e o que é isso, e o corpo de uma rainha como uma tela política”. Ela acrescentou que “isso acontece com metade de nós”, então “precisamos [mostrar] essas coisas. É necessário normalizar”.


Duas Rainhas (Mary Queen of Scots)

Direção: Josie Rourke
Roteiro:
Beau Willimon e John Guy
Elenco: Margot Robbie, Saoirse Ronan, Jack Lowden, Richard Cant, James McArdle e Joe Alwyn
Gênero: Biografia, drama, história
Ano: 2018
Duração: 124 minutos

2 thoughts on “Crítica | Duas Rainhas (Mary Queen of Scots)”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *