Crítica | A Pé Ele Não Vai Longe

A Pé Ele Não Vai Longe, novo filme de Gus Van Sant, têm diversos elementos que poderiam transformá-lo em uma obra-cinematográfica clichê e melodramática. Felizmente isso não aconteceu com a cinebiografia do cartunista John Callahan, graças ao talento do diretor, e também do protagonista Joaquin Phoenix. Callahan é um homem que lutou contra o alcoolismo e graças ao vício sofreu um acidente que o deixou paraplégico. Ou seja, temos uma história de superação com muitos clichês, que felizmente graças a habilidade do cineasta conseguiu encontrar um tom de equilíbrio entre o drama e a comédia para contar a trama, sem deixar de passar a emoção necessária.

O filme já começa fugindo dos clichês através de uma ótima montagem do próprio Gus Van Sant junto com David Marks, que optou por não contar a história de forma cronológica. Através de idas e vindas no tempo, A Pé Ele Não Vai Longe encontra o ritmo ideal para apresentar sua narrativa. Além disso, o longa também usa elementos visuais interessantes, como em dois momentos em que imagens são mostradas “subindo na tela” de forma vertical, ou “caminhando para a direita” de forma horizontal. Essas duas cenas são como se trechos da vida do protagonista estivessem passando diante dos seus olhos. O efeito funciona muito bem em passar essa sensação ao espectador.

A história de John Callahan segue um pouco o humor ácido e politicamente incorreto das charges e tirinhas que ele fazia. Elas serviram para dar um sentido a sua vida após o acidente, além de ajudar a lidar com o alcoolismo. O próprio protagonista faz piadas com sua situação, como ao constantemente contar sobre o fato de ter sido abandonado por sua mãe biológica e adotado por uma família. Essa é a sua principal “desculpa” para beber, mas ao frequentar as reuniões de alcoólatras anônimos percebe que seu drama não é muito diferente dos outros viciados.

Apesar do tom cômico, A Pé Ele Não Vai Longe em nenhum momento deixa sua seriedade e o drama de lado. A narrativa tem um teor melancólico e complicado, e o roteiro do próprio Gus Van Sant explora muito bem esses elementos. O equilíbrio entre tragédia e a comédia funciona principalmente graças ao trabalho do elenco.

Sem dúvidas o papel de John Callahan é um dos melhores que Joaquin Phoenix já interpretou. O ator entrega mais uma performance intensa e maravilhosa, construindo muito bem a figura do protagonista dentro da sua jornada de superação. Em nenhum momento Phoenix parece caricato, fazendo um trabalho brilhante na emoção necessária para o personagem. Outro grande destaque é Jonah Hill, como Donnie Green – o padrinho do AA de Callahan. A química entre eles é impressionante e seus momentos juntos são os melhores do filme, onde eles passam toda a comoção necessária para emocionar o público, sem nunca apelar para o melodrama. Vale citar também as participações de Rooney Mara e Jack Black, que mesmo com pouco tempo em tela, deixam sua marca.

A principal mensagem de A Pé Ele Não Vai Longe é em como lidar com o vício, mais especificamente do alcoolismo. O sentimento de culpa de John Callahan é enorme, além de usar seus problemas e o seu drama como desculpa para beber e continuar se destruindo. No entanto, sem se preocupar em querer passar uma história edificante, o cineasta Gus Van Sant apresenta a jornada do protagonista com o objetivo de mostrar uma narrativa nua e crua. Não é de uma hora para a outra que ele vai largar o vício. É o tipo de luta para enfrentar para sempre, mas que nem por isso precisa ser contada de forma melodramática. De drama, já basta os problemas, e muitas vezes enxergar a situação com outros olhos, principalmente o cômico, ajuda a superar. E isso funcionou para Callahan, através de seus desenhos.


Uma frase: – Donnie: “Meu dia estava ótimo, até eu vir aqui e ver vocês.”

Uma cena: A primeira ida de John Callahan a uma reunião de AA na casa de Donnie Green.

Uma curiosidade: O diretor Gus Van Sant originalmente tinha planejado fazer esse filmes nos anos 1990, com Robin Williams no papel de John Callahan.


A Pé Ele Não Vai Longe (Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot)

Direção: Gus Van Sant
Roteiro:
Gus Van Sant, história de John Callahan, Gus Van Sant, Jack Gibson e William Andrew Eatman
Elenco: Joaquin Phoenix, Jonah Hill, Rooney Mara e Jack Black
Gênero: Biografia, Drama, Comédia
Ano: 2018
Duração: 113 minutos

One thought on “Crítica | A Pé Ele Não Vai Longe”

  1. Achei o filme muito interessante, gostei a originalidade dos desenhos do personagem servirem de contribuição para contar a história

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