Crítica | Colette

Colette é uma cinebiografia tradicional de uma mulher pouco convencional e a frente de seu tempo. Uma história do passado que vem, apropriadamente, lembrar a sociedade do presente que a luta pela igualdade de gênero, apesar de alguns custosos avanços, ainda tem um longo, frágil e lento caminho a ser percorrido. Essa é a mensagem do filme que conta a jornada de autoconhecimento e empoderamento da escritora francesa que, com sua literatura e modo de vida, subverteu valores e papéis delegados às mulheres de sua época.

Na França do final do século XIX e do início do século XX, a tímida e jovem Sidonie Gabrielle Colette (Keira Knightley) se apaixona e se casa com o boêmio empresário do ramo editorial Willy (Dominic West). A lua-de-mel dos dois dura pouco e o relacionamento abusivo dá lugar às juras de amor antes registradas com afeto nas lindas cartas escritas pela apaixonada Gabrielle – nome que Colette assinou por bastante tempo.

Com dívidas e sem conseguir lançar nenhum livro de sucesso, Willy pede à esposa que escreva sobre suas aventuras do tempo de escola. Em poucos dias, a talentosa Gabrielle dá vida à personagem Claudine, o seu alter ego literário. Pouco crédulo do potencial da obra, ainda assim, Willy decide arriscar o investimento diante da possibilidade iminente da falência de seus negócios. O livro sai assinado por ele, sob alegação de que o reconhecimento de seu nome no mercado aumentaria as chances da empreitada editorial ser bem sucedida.

Para surpresa de Willy e também de seus sócios, a obra faz um estrondoso sucesso, principalmente, entre jovens mulheres, que se interessaram pela narrativa sensível e feminina da vida da personagem. Claudine vira então uma franquia a ser explorada em novos livros e peças de teatro. No longa, a personagem do livro dita, inclusive, a moda francesa da época e se transforma em marca de produtos publicitários. A “galinha dos ovos de ouro” de Willy, no entanto, se cansaria de trabalhar sem reconhecimento.

É nessa fase que Gabrielle começa a se descobrir como Colette. A mudança de nome, no filme, simboliza um ritual de passagem entre a velha mocinha acuada do interior, relegada até então ao papel de esposa – sem voz ativa no relacionamento e coadjuvante de sua própria vida, para o que mais tarde se tornaria uma artista empoderada, destemida, ousada, a verdadeira protagonista de seus desejos, criações e atitudes.

O mergulho profundo de Gabrielle para fazer submergir Colette também passa pela delicada narração da descoberta da sexualidade da escritora que, ainda durante o casamento com Willy, viu sua atração por mulheres crescer e se concretizar em experiências sexuais e amorosas com as quais, pouco a pouco, entenderia e reconheceria a urgência de se libertar da opressão do marido machista e abusivo. Tudo isso é posto no longa por meio de excelentes diálogos sem nenhum aparente propósito planfetário.

E, nesse ponto, a interpretação de Keira Knightley é simplesmente impecável e comovente. O desenvolvimento do arco da protagonista, muitas vezes, parece se confundir com o da própria atriz, que evolui magistralmente na personificação dos dramas e das posturas assumidas por Gabrielle até virar Colette. Como coadjuvante, Dominic West também se destaca na medida certa. Além dele, é interessante ver representada no cinema de época a caracterização da nobre Mathilde de Morny também conhecida como Missy (Denise Gough), transexual por quem Colette se apaixona.

Com toda uma excelente história a ser contada, porém, o filme peca em se limitar aos padrões narrativos mais tradicionais de biografia. Uma mulher tão incrível, cuja vanguarda de seus comportamentos e atitudes ainda hoje podem causar reações incrédulas e repelíveis por grande parte da sociedade, merecia ser descortinada de forma mais criativa para a geração do século XXI. Heroínas femininas e mulheres de importantes áreas do conhecimento, em geral, não costumam figurar no imaginário histórico convencional. É bom que suas vidas sejam contadas, mas é melhor ainda se essas narrativas façam jus aos seus legados, que no caso de Colette eram duas virtudes: coragem e ousadia.


Uma frase: – “Meu nome é Colette e a mão que segura a pena escreve a história”

Uma cena: A cena em que Colette confronta Willy pela venda dos direitos autorais dos livros da personagem Claudine.

Uma curiosidade: Segundo a atriz Keira Knightley, era ilegal as mulheres usarem roupas masculinas naquele período na França.


Colette

Direção: Wash Westmoreland
Roteiro:
Richard Glatzer e Wash Westmoreland
Elenco: Keira Knightley, Dominic West, Eleanor Tomlinson, Fiona Shaw e Denise Gough
Gênero: Biografia, Drama, História
Ano: 2018
Duração: 111 minutos

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