Crítica | Dave Chappelle: Equanimity & The Bird Revelation

Dave Chappelle é conhecido nos Estados Unidos como um dos melhores comediantes do mundo, mesmo após ter vivido um hiato de 12 anos. Agora, encerrando suas apresentações como comediante, Chappelle subiu aos palcos “pela última vez” e lançou os especiais Equanimity & The Bird Revelation pela Netflix.

Existe uma história que não é muito bem contada, mas Chappelle ficou fora durante uma década após recusar uma renovação de contrato com a tv (um contrato de cinquenta milhões de dólares) e assim encerrou o ciclo de um dos programas de comédia com a maior audiência dos Estados Unidos (o famigerado Chappelle’s Show). Dizem que ele estava se reabilitando das drogas, mas o próprio nega e diz que não estava dando conta da fama e que não era bem o que esperava, preferindo assim se isolar com a família.

Equanimity & The Bird Revelation não são shows comuns, mas também não sei se podem ser definidos como documentários, como estão categorizados. No primeiro evento temos uma apresentação filmada dentro de um teatro, casa lotada, enquanto no segundo episódio é algo mais “intimista”. Algo como uma casa de comédia típica.

Em ambas, Chappelle mantém um padrão com temas muito parecidos. Ele aborda temas que envolvem desde a discriminação racial e o contexto histórico dos negros, passando por uma reflexão, enquanto que consegue fazer piadas que fogem do politicamente correto. Suas piadas com conteúdo LGBTQI são polêmicas com a intenção de não fugir do propósito daquilo que pensa. Como o mesmo diz:

“Não sinto nenhum ressentimento pelas coisas que digo”.

Da mesma forma ele trata de temas políticos e aborda a cultura americana e seu orgulho em agir de forma “estúpida”, até mesmo fala sobre os casos de assédio em Hollywood.

O que dá a entender em seus discursos é que ele não concorda com a forma que certos assuntos estão sendo abordados e critica a nova cultura da sensibilidade. Ao mesmo tempo tem atitudes em que faz o contraponto àquela realidade, como se estivesse apontando a hipocrisia no discurso que a maioria das pessoas não conseguem enxergar. Esse é um dos momentos que marcam a forma dele atuar, é como se fosse a assinatura: Pegar um assunto como se estivesse abrindo um pão com uma faca e mostrar como é por dentro.

Existem momentos que podem ser constrangedores nesses shows e por mais que ele reconheça o quanto está vacilando, fica evidente que não é uma atitude de alguém que está tentando reparar os danos e sim de alguém que tem uma atitude passivo agressiva e de auto depreciação para gerar aceitação da sua platéia ou de quem estiver assistindo.

Não é de me impressionar a atitude homofóbica, mesmo com ar de constrangimento, que Chappelle assume em seus depoimentos.

Para quem não sabe, a questão da masculinidade é algo muito forte entre homens negros e quase que não se conversa sobre os efeitos que esse preconceito causa. É ainda pior se pensar na parte da “censura” que isso causa em comediantes, assim como também atinge homens comuns que se sentem acuados por não poderem mais agir como era de costume há dez anos. De fato, temos aqui um caso explícito de um homem muito inteligente, mas que usa o juízo como convém. Não consigo aceitar como que alguém tem tanta empatia para certos assuntos, tem um discurso reflexivo, mas ainda assim faz questão de se manter irredutível, mesmo sendo um homem negro (como eu sou) e não consegue trazer seus reforços negativos e experiências mal vividas, se pondo no lugar do outro.

“Só é engraçado enquanto não é com você”.

Vivemos uma época em que também precisamos retribuir com exemplo. Enfim, vale a pena ver os shows. O homem é hilário, mas vacila. 


Uma frase: “Desde quando a América ta pouco se fodendo para o que sentimos por dentro?”

Uma cena: A análise que ele faz relacionando a eleição do Trump com a eleição do Obama

Uma curiosidade:  Ele recebeu sessenta milhões por três especiais para a Netflix.

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Dave Chappelle: Equanimity & The Bird Revelation

Direção: Stan LathanDave Chappelle, Netflix
Roteiro: Dave Chappelle
Elenco: Dave Chappelle
Gênero: Comédia, Documentário
Ano: 2017
Duração: 49 minutos / 64 minutos

 

Uma alma com boas intenções que está metendo dança. Dizem.

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