Crítica | 7 Dias em Entebbe (Entebbe)

O filme 7 Dias em Entebbe, longa mais recente do diretor José Padilha, aborda um tema complicado: o conflito histórico entre Israel e Palestina. O cineasta utiliza uma história real, ocorrida em 1976, para falar sobre o assunto. À primeira vista Padilha segue um tom bastante documental, se atendo aos fatos e apresentando uma narrativa quase fria. Observamos que existem exageros de ambos os lados e que muitas vezes um deles resolve usar a força, perdendo a razão.

Entretanto, alguns detalhes deixam claro que na verdade não estamos diante de uma obra tão imparcial assim. Isso não seria um problema se pelo menos ela fosse eficiente em sua narrativa, mas infelizmente nesse quesito ela também apresenta falhas.

A história gira em torno do sequestro de um avião francês realizado por um grupo de ativistas pró-Palestina liderados por Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike). A aeronave é levada para Uganda, onde são recepcionados pelo general Idi Amin (Nonso Anozie) – cuja história foi contada no filme “O Último Rei da Escócia“. Começam então as negociações do grupo com o governo de Israel, que tem a política de não negociar com terroristas. Iremos acompanhar os 7 dias que o sequestro durou e toda a tensão por trás dessas negociações. Os israelenses deveriam ceder às exigências, resgate de 5 milhões de Dólares e a soltura de 53 militantes da causa pró-Palestina, para salvar os reféns ou invadir o lugar para resgatá-los com o risco de morte de alguns deles?

Analisando os fatos esse é uma história bastante tensa e complicada, envolvendo tomada de decisões difíceis de ambos os lados. O início do longa é bastante eficaz e promissor ao mostrar a tensão por trás do sequestro do avião. No entanto o filme de Padilha não consegue construir essa emoção dentro da narrativa. A apresentação dos personagens envolvidos é superficial, assim como as motivações do conflito entre Israel e Palestina. Tudo bem, a parte histórica por trás do conflito seria difícil de ser realmente explicada, então um resumo é suficiente e o roteiro resolve isso com uma pequena apresentação no início do longa. Porém, o desenvolvimento dos personagens, principalmente os protagonistas, é essencial para criar um elo emocional com que é visto na tela.

7 Dias em Entebbe, foto 1

O roteiro de Gregory Burke falha na construção dos personagens, mesmo utilizando alguns flashbacks para mostrar o passado dos protagonistas. Durante a narrativa tentamos entender o que se passa na cabeça dos ativistas e quais as suas motivações, mas sem sucesso. Falta sutileza ao desenvolvimento da história, então somos expostos a muitos clichês, principalmente entre os passageiros do avião, com simbolismos muito óbvios. Tentamos observar alguns detalhes e é justamente através deles que percebemos problemas em relação a isenção dos seus realizadores.

Duas cenas deixam claro esse problema. Uma envolve uma conversa entre Wilfried e um dos pilotos do avião. Nela, o homem diz ao ativista que um engenheiro, sua profissão, é capaz de construir 10 vezes mais que um “revolucionário”. Ou seja, a luta do personagem não tem uma motivação coerente. E essa dúvida surge também em outro momento quando ele é questionado por um outro ativista. Isto é, o filme está querendo dizer que a luta talvez não seja válida. Outra cena apresenta Brigitte realizando uma ligação em um telefone público, mas aos ser informada por uma pessoa que o mesmo não funciona, a mulher mesmo assim termina a sua “ligação”, indicando algum sinal de loucura. Quer dizer, só mesmo sendo louca para estar envolvida com essa causa.

Porém a decisão mais polêmica de “7 Dias em Entebbe” é apresentar um simbolismo sobre o conflito através de um espetáculo de dança contemporânea, criado por Ohad Naharin. Elas são utilizadas durante toda a projeção, mas tem papel fundamental no ato final do longa durante a missão militar de resgate realizada por Israel. O montador Daniel Rezende, colaborador tradicional de Padilha, alterna entre momentos de dança com a ação dos soldados. Após a conclusão bem realizada da missão, temos também o fim da apresentação musical, então vemos a platéia de pé aplaudindo. Seria uma forma também do próprio filme estar batendo palmas pela decisão de Israel? Parece que sim.

Esse momento deixa mais clara as intenções do filme e tentam colocar um pouco de emoção na narrativa, mas nem mesmo a bela apresentação de dança é capaz de trazer alguma comoção à narrativa. A última cartada é utilizar o maior clichê de longas baseados em fatos reais: apresentar cenas verdadeiras e frases contando o desfecho de alguns dos personagens. No entanto nem mesmo esse recurso parece funcionar.

7 Dias em Entebbe, foto 2

Contudo, é preciso citar o ótimo trabalho do diretor de fotografia Lula Carvalho, outro que sempre colabora com Padilha. Ele sempre posiciona bem a câmera com cuidado no que quer apresentar na cena. Vemos os personagens de perto quando estão tendo conversas mais acaloradas, enquanto acompanhamos de longe quando os vemos caminhando pensando qual decisão difícil tomar. A parte técnica do filme é correta no geral, menos na trilha sonora de Rodrigo Amarante, que usa músicas tradicionais israelenses de forma clichê , além de não conseguir influenciar em nenhum momento na parte emocional do filme, sem criar tensão ou emoção quando necessário.

O elenco também não está muito inspirado, principalmente por causa dos problemas do roteiro. Brühl e Pike não apresentam muito carisma e nem química entre si. Os diálogos são muito irregulares e muitas vezes mostram discussões políticas vazias e superficiais. Daniel ainda tenta construir um pouco do lado humano do seu personagem, mas não tem espaço para alcançar seu objetivo com sucesso.

7 Dias em Entebbe poderia muito bem assumir seu lado e suas intenções, e a partir disso construir sua narrativa. Mesmo que conseguisse ser bem sucedido em sua isenção, a frieza em como aborda os fatos transformam a trama em algo genérico e sem emoção. O principal problema é não conseguir construir personagens interessantes e deixar claro seus objetivos de forma que o público pudesse criar algum tipo de conexão com eles.

Além disso, ao assumir uma posição – mesmo que nas entrelinhas – em relação ao conflito entre Israel e Palestina, o cineasta erra em tentar se apresentar como “isentão”. Esse posicionamento só prejudica o resultado final da obra, já que ela passa o maior tempo tentando ser imparcial, mas chega a uma conclusão de qual lado está certo, mas sem ter apresentado uma análise consistente sobre o ocorrido.


Uma frase: – Wilfried Böse: “Quero atirar bombas na consciência das massas.”

Uma cena: O sequestro do avião.

Uma curiosidade: Studio Canal optou pelos direitos do livro “Operação Thunderbolt: Voo 139 e o Sequestro no Aeroporto de Entebbe,” publicado no dia 1 de dezembro de 2015 pelo Saul David. O livro contém informação que antes não estava disponível sobre a Operação Entebbe, por questões de sigilo e segurança.


7 Dias em Entebbe, cartaz7 Dias em Entebbe (Entebbe)

Direção: José Padilha
Roteiro:
Gregory Burke
Elenco: Rosamund Pike, Daniel Brühl, Eddie Marsan, Ben Schnetzer, Lior Ashkenazi e Denis Ménochet
Gênero: Crime, Drama, Thriller
Ano: 2018
Duração: 107 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Crítica | 7 Dias em Entebbe (Entebbe)”

  1. Já não gostei da sinopse e nem dei uma chance ao filme. É um erro, mas existem certos tipos de narrativas que não dá mais. Os malvados palestinos contra os bondosos israelenses? Não obrigado.

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