Crítica | Eu, Tonya (I, Tonya)

A história da patinadora Tonya Harding tem todos os elementos de um melodrama. Entretanto, o diretor Craig Gillespie (A Garota Ideal) conseguiu em Eu, Tonya, cinebiografia da moça, realizar um trabalho muito interessante. O cineasta e o roteirista Steven Rogers enxergaram que no meio do drama também existiam elementos absurdos capazes de transformar a narrativa em algo engraçado, sem deixar de mostrar o lado trágico do ocorrido.

Uma decisão acertada foi a de construir um longa que mistura uma espécie de falso documentário, onde os atores encenam entrevistas interpretando seus respectivos papéis, com a dramatização dos fatos ocorridos em formato de flashbacks. Além disso, a narrativa muitas vezes quebra a quarta parede e os personagens conversam com a câmera dizendo se o que está sendo apresentado na tela ocorreu ou não na vida real, recurso parecido com o utilizado em “A Grande Aposta”.

A alternância entre documentário e flashback funciona graças a um excelente trabalho da montagem, que equilibra muito bem os dois recursos, entregando um ritmo ágil à trama e dando uma ótima dinâmica para a narrativa. É interessante notar também a diferença entre os formatos de tela. Na parte das entrevistas temos um quadrado, típico do formato televisivo, para dar a impressão de ser algo antigo, ou então mais “caseiro” e pessoal.

A escolha das músicas da trilha sonora também é muito boa e dá um impacto ainda maior a determinadas cenas. Um bom exemplo é a primeira vez que LaVona (Allison Janney) leva a pequena filha Tonya para aula de patinação. A personagem tem um comportamento meio “demoníaco”, com uma língua afiada que não perdoa ninguém. Então a canção escolhida foi “Devil Woman” de Cliff Richard. A própria Tonya tinha uma escolha musical diferente dos padrões da patinação artística para suas apresentações e o filme mostra o quanto isso afetava no julgamento dos juízes.

A patinação artística é um esporte complicado já que envolve avaliação de juízes através de notas, então abrange um pouco de arte e também gosto, por mais que essa classificação seja bastante técnica. Tonya sofreu com isso por estar fora dos padrões. A jovem não tinha dinheiro para roupas e sua família não era uma típica “família americana”. O longa nos mostra o quanto isso afetou a sua carreira.

As cenas de patinação das apresentações de Tonya são um dos destaques do filme. A câmera acompanha a personagem por todo o ringue de gelo com ângulos muito bem pensados para deixar o espectador ao mesmo tempo próximo da moça, mas também para que possa acompanhar todos os seus movimentos. Harding ficou conhecida por realizar acrobacias que poucas outras atletas tentaram executar, como o salto Axel. Então seria impossível para a produção do longa conseguir alguma patinadora disposta a tentar apenas para as filmagens. Então o diretor utilizou efeitos especiais para filmar as cenas e o resultado na tela impressiona pela qualidade final.

Tonya é um caso clássico de relacionamento abusivo. Primeiro com sua mãe, que sempre a tratava mal com o intuito de fortalecê-la para o esporte. Mas a relação entre as duas, mesmo em casa, era terrível por parte de LaVona. Tudo que a garota fazia era motivo para alguma crítica da progenitora. Quando a jovem conhece Jeff Gillooly (Sebastian Stan), enxerga no namoro uma forma de escapar dos abusos domésticos. Entretanto, ela só fez trocar um relacionamento abusivo por outro, já que o rapaz batia nela e depois pedia desculpas.

O elenco faz um trabalho fantástico na construção desses relacionamentos. Allison Janney sempre brilha quando está em cena ao apresentar a mãe de Tonya como uma figura abominável, quase um “monstro”, mas ao mesmo tempo extremamente carismática. Cada frase que ela diz, geralmente alguma ofensa ou reclamação à filha, é motivo de risos. A atriz se encaixou de forma perfeita no tom tragicômico da narrativa, sem em nenhum momento parecer caricata. Sebastian Stan também faz um ótimo trabalho como Jeff, equilibrando bem os momentos carinhosos com os mais agressivos, representando de forma muito eficiente o que é um relacionamento abusivo. Mas é claro que o filme é de Margot Robbie.

A atriz nos mostra que a salvação para Tonya era a patinação, mas também sua “maldição”. No esporte a moça encontrou a sua válvula de escape, seu refúgio emocional. Robbie mostra o quanto a jovem sofreu em seus relacionamentos abusivos e mesmo assim encontrava forças para continuar. Uma mulher forte, mas ao tempo frágil. Mas a história é trágica, então já sabemos que o final não é feliz. O maior problema da carreira foi o “incidente”: a agressão sofrida por Nancy Kerrigan, uma patinadora que era rival de Harding na disputa de uma vaga na equipe olímpica americana.

O “incidente” é a cereja do bolo da narrativa. O negócio foi tão absurdo, sem noção e cômico, que é difícil acreditar que ele ocorreu dessa forma. O esquema foi “arquitetado” por Shawn Eckhardt (Paul Walter Hauser), amigo de Jeff. Foi algo tão amador que é impressionante que tenha dado certo. O ocorrido define bem o tom tragicômico do filme. Como uma idéia idiota, que era apenas “assustar” Kerrigan, se transformou em algo de grandes proporções que destruiu a vida dos envolvidos.

Eu, Tonya surpreende ao encontrar um tom cômico para contar uma história que tem muitos elementos de melodrama. Uma narrativa trágica, mas que o diretor consegue contar de forma divertida e interessante, sem deixar de apresentar o lado dramático e emocionante do ocorrido. Uma cinebiografia ousada por fugir dos padrões, mesmo que em alguns momentos utilize alguns clichês, afinal de contas continua sendo um longa baseado em fatos reais. Uma parte técnica primorosa, uma ótima trilha sonora, e claro, um elenco sensacional. Esses elementos resultam em um filme fascinante, assim como carreira da protagonista.


Uma frase: – LaVona: “Eu a tornei uma campeã mesmo sabendo que me odiaria. É esse o tipo de sacrifício que uma mãe faz.”

Uma cena: Tonya realizando o Salto Axel.

Uma curiosidade: Para não danificar seus cabelos, Margot Robbie usou perucas para interpretar Tonya Harding. Mas a equipe precisou usar cerveja para conseguir a textura de cabelo desejada, já que todos os cosméticos disponíveis não ajudaram muito.


Eu, Tonya (I, Tonya)

Direção: Craig Gillespie
Roteiro:
Steven Rogers
Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson, Bobby Cannavale e Paul Walter Hauser
Gênero: Biografia, Drama, Comédia
Ano: 2017
Duração: 119 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Crítica | Eu, Tonya (I, Tonya)”

  1. Particularmente, não gostei muito do formato narrativo do filme. Acho que o formato falso documentário, apesar de interessante, não foi muito bem abordado. Também me incomodou muito o fato do filme, apesar de não vitimizar demais Tonya Harding, mostrou-a como um produto dos relacionamentos abusivos que marcaram sua vida. O incidente, realmente, é o ápice do longa. Margot Robbie, pra mim, foi o grande ponto alto do filme, com uma excelente atuação.

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