Crítica | Os Guardiões (The Guardians)

Se tem um vilão que os super-heróis russos ainda não conseguiram vencer, é a força esmagadora do imperialismo estadunidense.

 

Uma coisa chama atenção na cópia de Os Guardiões (Zashchitniki), filme de super-heróis russos, totalmente produzido no país de Lênin, que não deixa de ser emblemático: o filme foi dublado em inglês, provavelmente para facilitar a venda nos EUA e em outros mercados.

É uma pena. Como um admirador da terra de Tchekov, ansiava por apreciar um produto do gênero que soasse menos ianque aos ouvidos. Porém, é importante reconhecer, não é apenas a dublagem que descaracteriza o filme de (Sarik Andreasyan). Toda a estrutura, narrativa, composição, etc., pretende simplesmente emular o cinema estadunidense do gênero de ação e aventura, e do sub gênero de super-heróis.

Contudo, ainda que o quesito originalidade seja prejudicado, Os Guardiões faz um bom trabalho na atividade de emulação do cinema estadunidense. E, em certos casos, até o supera. Principalmente se o comparamos não com um, mas com todos os filmes do Quarteto Fantástico produzidos pela Fox. A comparação é imediata, afinal, trata-se de um grupo de quatro super-seres, um deles sendo uma mulher com capacidade de ficar invisível, e outro um homem atormentado pela monstruosidade.

Tomemos como exemplo o primeiro ato da fita. A formação do grupo é apresentada de forma rápida e a premissa extremamente simples é estabelecida em questão de minutos. Não há qualquer pretensão em tentar convencer a audiência de uma trama mirabolante. Assim se evita o estranhamento que surgem das inconsistências de roteiro e que, nesse tipo de produção, fatalmente vitimam o cinema hollywoodiano. Em suma, se apresentando como aquilo que é, sem vergonha e pretensões, apostando na capacidade do público de embarcar naquela estrutura já bem conhecida, Guardiões estabelece uma abertura honesta e bem resolvida. Uma lição para a bilionária e excessivamente expositiva indústria de Hollywood de como se pode falar muito mais falando menos.

O filme, porém, tem alguns momentos constrangedores. O diretor apresenta um didatismo quase pueril que incomoda até mesmo para uma fita que possa ser enquadrada no campo do trash. Um grande exemplo disso são as cenas que pretendem explorar os aspectos humanos de cada personagem. A música, o enquadramento, os diálogos, a edição, enfim, tudo é realizado com um amadorismo que foge até mesmo do tom ao qual o filme parece se propor.

Outro problema são as sequências de ação que se sustentam apenas em efeitos especiais razoáveis, mas que também são conduzidas de maneira burocrática, explorando sempre cada um dos membros do supergrupo agindo sozinhos. Fica evidente a falta de domínio e câmera e a incapacidade técnica do diretor para construir composições que dêem destaque justamente a ação do grupo. Ainda assim a opção por uma narrativa mais direta e objetiva favorece a trama a se mover com um ritmo que não nos incomoda.

Porém, é no longo terceiro ato que Os Guardiões comete seu maior pecado. Ao invés de optar por uma resolução mais simples e direta, o filme perde muito mais tempo do que deveria em sua conclusão. Isso acaba comprometendo um pouco a experiência ao final. Entretanto, vale destacar que em matéria de soluções de roteiro, Guardiões ainda é muito mais coerente do que muitos filmes de Hollywood. Seu vilão, assumidamente caricatural, conhece bem seus poderes e não esquece de suas habilidades em função de uma conveniência de roteiro. Ao menos o respeito à inteligência do espectador o cinema russo parece ainda respeitar.


Uma frase: “Ferrum!”

Uma cena: Cena de abertura mostrando o esplendor na estátua do Lênin.

Uma curiosidade: Tem cena durante os créditos finais. Fique até o final.

 

 


The Guardians 

Direção: Sarik Andreasyan
Roteiro:  Andrey Gavrilov, Sarik Andreasyan, Gevond Andreasyan
Elenco: Anton Pampushnyy, Sanjar Madi, Sebastien Sisak, Alina Lanina, Valeriya Shkirando, Vyacheslav Razbegaev
Gênero: Aventura, Ação
Ano: 2017
Duração: 89 minutos

 


 

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

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