Crítica | Game of Thrones – 7×04: The Spoils of War

No qual Dragões e Lanças colidem e fogo, destruição e morte se espalham pelo campo de batalha, e assim lembramos que o Caos é, acima de tudo, uma escada.

No quarto episódio da sétima temporada a guerra entre as duas rainhas alcança o ponto de tensão tão esperado. Afinal, não há vitória boa o bastante que possa ser celebrada precipitadamente e, no fim das contas, tudo se define a partir de quem sabe aproveitar melhor das vantagens que emergem do Caos e de a quem pertencem os espólios de guerra.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em The Spoils of War, o quarto episódio da sétima temporada de Game of Thrones.

#GoT (S07E04) – The Spoils of War

Em uma guerra um ataque aéreo faz toda a diferença. E Daenerys decidiu que já havia passado da hora de mostrar sua grande vantagem. Sem mais planos espertos, ela disse. É hora de mostrar a força.

Mas antes voltemos e observemos um pouco do que se desenrolou nesse episódio antes da grande batalha climática do final. E algumas coisas bem interessantes aconteceram.

Há uma cena particularmente interessante entre dois personagens particularmente enredados com o mistério e as sombras. Em um diálogo inesperado, Lord Baelish tenta seduzir Bran com um presente – a adaga de aço valeriano que deveria tê-lo matado – e assim sondar qual o papel do último dos filhos legítimos de Ned Stark vivo no jogo de poder. Para sua surpresa ele logo descobre que Bran não é de meias palavras nem de esconder seu jogo. Claro que isso não ficaria evidente para os menos atentos. A mensagem de Bran, porém, é bastante clara para Mindinho. “Caos é uma escada”, Bran afirma olhando fundo nos olhos de Mindinho, reverberando as mesmas palavras que Lorde Baelish disse para Varys no sexto episódio da terceira temporada.

Talvez, porém, a coisa mais importante tenha sido o retorno de Arya para casa. Não apenas ela ter enfim reencontrado seus irmãos, e pelo fato de afinal os últimos Stark vivos estarem reunidos enfim. Não apenas por Bran a presentear com uma adaga de aço valeriano que lhe permitirá matar alguns White Walkers. Não apenas por sua cena com Brienne ter sido uma das melhores da temporada. Mas principalmente por conta de uma aliança que se insinuou e, uma vez concretizada, pode vir a se tornar uma das mais devastadoras dos sete reinos. Mindinho, afinal, percebeu ali um talento único. Com a mente de Lorde Baelish e as habilidades de Arya “Ninguém”, as balanças do poder em toda Westeros e até em Essos jamais estarão seguras.

Jon e Theon também finalmente se reencontram. Talvez tenha sido impressão minha, mas pode sentir, através da performance de Kit Harrington, emoções bastante divididas em torno do seu praticamente irmão de criação. Não que ambos em algum momento tenham tido uma relação particularmente carinhosa. Mas Theon sem dúvida lembrou a Jon Snow de um passado mais simples no qual Ned Stark – o homem que para ele foi seu pai, que ensinou tudo que ele sabe e o único que o amou – ainda era o senhor de Winterfell. Não deve ter sido fácil.

Assim como não foi fácil para Daenerys e Tyrion lidarem com a derrota para os Lannisters. Assim como não é fácil para ela esquecer que Tyrion é um Lannister também. E essa lembrança não passa sem abalar a aliança de ambos, em alguma medida.

Por outro lado, temos os laços entre Jon Snow e Daenerys se estreitando. Ambos se conhecem e nitidamente se admiram mutuamente cada vez mais. Os que torcem por um romance devem ter comemorado bastante. As insinuações de Sor Davos ajudaram a reforçar isso. Aliás, suas insinuações foram além e se voltaram para a bela Missandei de Naath. Há algumas teorias acerca de uma relação mais obscura entre Davos e Missandei. Eu, por enquanto, vejo apenas a insinuação de uma disputa entre o Cavaleiro das Cebolas e do Verme Cinzento pelo coração da beldade.

O campo de batalha cheira a morte (e carne queimada)…

Sem dúvida, porém, os movimentos da guerra foram o ponto central do episódio dessa noite. Se nos episódios anteriores os Lannisters despedaçaram as forças de Daenerys, era mais do que hora dela mostrar seu poder. E para isso, afinal, ela não precisava destruir casas e castelos, como lembrou Jon Snow. Queimar tropas em movimento, porém, é algo totalmente diferente. Assim, eis que, para imenso espanto de Jamie e Bronn, surge Daenerys Targaryen cavalgando Drogon acompanhada de sua cavalaria Dothraki.

Tomemos um momento e observemos isso. É a primeira vez que Dothrakis engajam em combate para além do Mar Estreito, e sua performance faz jus à sua fama. É claro que o apoio aéreo de sua rainha, magistralmente cavalgando Drogon cuspindo fogo sobre as tropas que desesperadamente tentavam manter a linha, é de enorme ajuda. Ainda assim a habilidade Dothraki em combate é algo digno de respeito como Bronn pôde bem constatar.

Não há dúvida que a cena de batalha dessa noite serve para atestar o motivo de Game of Thrones ser tão admirada por tantos. De uma perspectiva técnica as cenas que misturam computação gráfica e atores reais, colocando em um mesmo plano aberto e bem iluminado um imenso dragão e dezenas de figurantes e efeitos práticos é um marco talvez sem precedentes na história da televisão; mesmo no cinema a sequência encontra pequena rivalização. O resultado é sem dúvida magistral e impactante; capaz de traduzir toda a crueza e o desespero de uma guerra na qual o fogo que cai inclemente dos céus ceifa vidas calcinadas aos borbotões.

Há espaço ainda para atos de heroísmo, ou mesmo de pura tolice. Uma belíssima e emocionante cavalgada de Jamie Lannister em carga contra Daenerys e Drogon. O resultado, porém, foi um pouco frustrante. Eu apostava que Jamie matasse um dos dragões de Daenerys. Isso ampliaria a sensação de vulnerabilidade da Mãe dos Dragões e certamente deixaria tudo mais interessante. Porém não foi isso que aconteceu.

A alternativa dos roteiristas, ademais, de decidir por poupar Jamie diante de uma situação de tão difícil salvação me parece menos interessante ainda. Em um embate daqueles alguém deveria ter sucumbido. Faltou pouco para que esse episódio se consagrasse como talvez um dos mais épicos da série.

Por outro lado, talvez os fãs de Daenerys e dos Dragões não devessem comemorar com tanta precipitação. Lembram do meu alerta anterior sobre comemorar antes da hora? Creio que se aplica aqui também. Afinal, uma arma criada pelo engenhoso – e versado em conhecimentos alquímicos e congêneres – Qyburn não deve ter a toa o nome de “escorpião”.

No balanço final da guerra, enfim, Daenerys parece ter equilibrado as coisas. Ela não apenas destruiu os exércitos dos Lannisters e – provavelmente – aprisionou Jamie. Ela também azedou a relação entre Cersei e o Banco de Ferro ao – aparentemente* – arruinar a melhor chance da Lannister pagar sua dívida para com os banqueiros bravosi. Ambas as rainhas, assim, parecem estar em uma situação que não é das melhores no que diz respeito a recursos. Por sorte Sansa parece que vem sendo mais bem sucedida nesse quesito. Vamos torcer que seja suficiente para todos que ainda estejam vivos quando o Rei da Noite chegar.

*Alguns amigos me alertaram de que no episódio fica bem explícito que o ouro chegou em Porto Real em segurança. Fui induzido a crer que não pois Cersei é bem categórica ao afirmar, previamente, que Jaimie está pessoalmente escoltando o ouro até a capital. Porém, de acordo com a informação de Lorde Tarly – o pai de Sam – no finalzinho do episódio, o ouro chegou são e salvo nas mãos de Cersei, ou melhor, do banco de Bravos. Obrigado a Malu Bengochea e a Rafael Batista pelo alerta.


Série: Game of Thrones
Temporada: 7ª
Episódio: 04
Título: The Spoils of War
Roteiro: David Benioff  e D.B. Weiss
Direção: Matt Shakman
Elenco: Kit Harington, Peter Dinklage, Emilia ClarkeLiam CunninghamSophie TurnerAidan GillenNikolaj Coster-Waldau, Maisie Williams Conleth Hill, Nathalie EmmanuelIsaac Hempstead WrightLena Headey, Alfie Allen, Gwendoline Christie Mark Gatiss, Jerome FlynnTom Hopper,
Graus de KB: 2 – Tom Hopper atuou em Um Jogo Legendário (2013) ao lado de Joshua Malina, que esteve em Questão de Honra (1992) ao lado de Kevin Bacon.


 

Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os “melhores” críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

3 thoughts on “Crítica | Game of Thrones – 7×04: The Spoils of War

  1. Achei fanservice e genérico. Os roteiristas estão com o peso nas mãos de matar qualquer personagem, antes era facil botar a culpa no papai noel.
    O “exercito” dothraki só impressiona nos numeros. Contra um exercito treinado com arqueiros linha de defesa e pikeiros eles seriam dizimados.
    Tambem achei estranho danaerys dizimar a linha de suprimentos. Nao faz sentido. ou voce faz uma incursão apenas com o dragao, destroi os suprimentos e vai embora com perda zero no seu exercito e ou invade com apoio de terra para capturar a comida.

    1. Também achei os Dothraki mal organizados, é muito mais vontade do que tática e numa guerra sem o suporte aéreo talvez eles não fossem tão bem.

      Acho que pelo menos um dos Dragões ainda devem morrer, mas matar Drogon seria um golpe duro demais para a Fanfic que tá rolando.

      Tá certo, tem coisas como não matar Jaime nesse episódio que dão um pouco de saudades do destempero “na medida certa” do “Papai Noel” escreveu em seus livros, mas ainda assim tá sendo gostoso acompanhar um pouco dos nossos desejos sendo atendidos pela HBO.

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