O pessoal é político? Cara Gente Branca e os movimentos sociais identitários.

O sucesso de Cara Gente Branca e de outras séries que abordam as questões da política identitária como Sense 8, refletem a importância que as pautas anti-discriminatórias alcançaram na sociedade contemporânea. Parece que, desde os anos sessenta, tal assunto não ocupa tanto espaço na vida das pessoas. Mesmo a esquerda, não tratou os problemas relativos à identidade de forma assertiva até o século XXI.

Cara Gente Branca aborda o racismo, porém não é essencialmente uma série sobre racismo, mas sim sobre o movimento negro (universitário) e é justamente aí que reside o ponto mais interessante e ao mesmo tempo mais problemático da série. É difícil saber se a abordagem das problemáticas da luta antirracista é uma crítica, apologia ou mera exposição de algumas questões polêmicas.

Somos guiados na história pela protagonista Samantha White (Logan Browning), mas não só por ela. No início de cada episódio o narrador nos apresenta um personagem que estará nos holofotes daquele capítulo. A série mostra-se interessante ao mostrar a diversidade de personalidades daqueles que sofrem e lutam contra o racismo, por outro lado (pelo menos a primeira temporada) peca em não problematizar as práticas e em nome da ideia de fraternidade entre os oprimidos e, parece, assumir que todos os negros, ainda que tenham visões radicalmente diferentes devam estar, de certo modo, aliados. Outra questão de suma importância é a relação entre o pessoal e o político.

“O pessoal também é político”

Após a reformulação dos movimentos sociais ao final dos anos sessenta, as pautas políticas atravessaram a rua e adentraram as casas das pessoas. Uma feminista chamada Carol Hanisch escreveu em 1969, no calor das revoltas de 68, O Pessoal é Político. O texto, bem como diversos movimentos da época, estava preocupado em diminuir a distância entre a vida pública e a privada. Já não seria mais admitido pautar igualdade nos discursos políticos, mas manter uma postura diferente nas relações pessoais.

Algumas décadas depois, com o resgate da força dos movimentos sociais identitários, a ideia de que o pessoal também é político também retorna, com uma força, talvez, ainda maior. Na série, logo no primeiro episódio, nos defrontamos com uma situação envolvendo tal questão. Samantha é hostilizada em um primeiro momento pelos amigos ao descobrirem sua relação com um rapaz branco, Gabe (John Patrick Amedori). Já que o pessoal é político, seria incoerente uma pessoa que luta pela afirmação e exaltação de sua identidade se relacionar com alguém que não corresponde a tal identidade e ainda representa o opressor. Seria uma autoafirmação escolher alguém de sua etnia. Após a surpresa da descoberta do namoro, os amigos de Samantha suavizam a crítica à relação, ainda que não aceitem completamente. Creio que, ao escrever essa parte da história, o autor queria passar a mensagem de que ambas as posições são válidas. A moça pode se apaixonar pelo cara branco (mais problemático seria se o cara negro se apaixonasse pela mulher branca, mas isso já é outra história), mas os membros do movimento também têm o direito de policiar a vida dela. Parece-me que a ideia do pessoal se tornar político, dotou certas pessoas de poderes para julgar e condenar alguém pelas suas relações afetivas e isso não é considerado um problema. É claro que existe racismo, eurocentrismo e isso cria um padrão, porém o problema surge no reducionismo do “pode” ou “não pode” e no controle da vida do militante através do constrangimento moral.

Outro fenômeno interessante ocasionado pela penetração da política na vida pessoal é o jogo do “acordado” criado por Samantha no quarto episódio e que mais tarde se transforma em um app. Em ambos os casos a intenção é distinguir aqueles que estão acordados, isto é, conscientes e ativos na vida política, daqueles que estariam dormindo, quer dizer, ignorantes ou passivos perante as injustiças. Primeiramente é possível discordar da posição binária de que existam pessoas conscientes e pessoas adormecidas. Tal distinção reflete a ideia de superioridade que infelizmente, por vezes, contamina os ambientes de ativismo. Muitos membros do movimento estudantil, sobretudo universitário, costumam considerarem-se superiores moralmente (e intelectualmente) dos reles mortais. São inteligentes, ativos, trabalham em prol da comunidade enquanto os demais seriam não politizados, ignorantes e preguiçosos que não sacrificam suas vidas em prol da revolução como deveriam.

Tudo indica, porém, que a máxima “o pessoal é político” não deva ser interpretada desta forma. Carol Hanisch, em seu texto de 69, deixa clara algumas posições acerca do ativismo proposto por ela. Primeiramente, podemos analisar o que Hanisch teria a dizer sobre a culpa de Samantha por seus sentimentos pelo seu namorado branco. Carol, assim como a nossa protagonista, também sofreu a pressão da vida militante. “Como mulher ativista, fui pressionada a ser forte, altruísta, voltada para os outros, sacrificadora, e, no geral, controlar muito minha própria vida. Admitir os problemas em minha vida é ser julgada fraca” (Hanisch). Todavia, a feminista dos anos sessenta já estava preocupada com a importância do bem-estar dos militantes para a luta política. Como diria Belchior, “a felicidade é uma arma quente”. Segundo Hanisch:

O mais importante é livrar-se da auto-culpa. Você consegue imaginar o que aconteceria se mulheres, negros, trabalhadores (minha definição de trabalhador é a de qualquer um que tem de trabalhar para viver ao invés de aqueles que não precisam. Todas as mulheres são trabalhadoras) parássemos de nos culpar pelas nossas tristes situações? (Hanisch).

A autora de O pessoal é político também teria algo a dizer para a nova geração de revolucionários sobre o binarismo do jogo do acordado proposto por Samantha. Segundo ela, no lugar de criar rótulos que afirmem a superioridade, deve-se tentar olhar mais de perto para as pessoas. Não adianta se colocar como um movimento que defende a causa de uma maioria, se essa maioria não é escutada e considerada alienada.

Eu acho que devemos ouvir o que as supostas mulheres apolíticas têm a dizer – não para que possamos fazer um trabalho melhor organizando-as, mas porque juntas somos um movimento de massa. Eu acho que nós que trabalhamos tempo integral no movimento temos a tendência de nos tornarmos muito limitadas. O que está acontecendo agora é que quando mulheres de fora do movimento discordam de nós, nós presumimos que é porque elas são apolíticas, não porque pode ter algo de errado com o nosso pensamento (…) O que eu estou tentando dizer é que há coisas na consciência de mulheres “apolíticas” (eu as considero bastante políticas) que são tão válidas quanto qualquer consciência política que achamos que temos (Hanisch).

Depois de décadas adormecidos, os movimentos sociais identitários retomaram a popularidade na segunda década do século XXI. Propulsionados pelas ferramentas da Web 2.0 como blogs, fóruns e redes sociais, os novos militantes têm acesso a uma quantidade enorme de informação. Porém, infelizmente, isso não resulta necessariamente numa melhor formação dos ativistas. O terceiro milênio criou também sua forma de encarar a realidade e o conhecimento.  Nesse novo mundo tudo tem que ser rápido e simples, como um post de twitter ou uma frase num meme. Até mesmo os textões de facebook raramente ultrapassam a profundidade dos clichês das palavras de ordem. A repetição toma o lugar da reflexão, a pesquisa cede o lugar ao senso comum dos movimentos identitários.

A série, que pretende refletir a dinâmica do movimento negro universitário americano, cumpre o papel de apresentar tal realidade com todas as limitações. O que não sabemos, porém, é se ao expor tais situações o autor estava tecendo uma crítica, ou concordado com tais posturas. Talvez, numa próxima temporada fique mais clara a ideia do criador para a história.

Assiste uns filmes e umas séries, lê uns livros e uns quadrinhos e gosta de conversar e escrever sobre essas coisas. Tirado a filósofo, tem mania de fazer interpretação filosófica de quase tudo. Anarquista e usuário de marxismo, possui especial apreço pelas distopias e pira nas narrativas sobre crítica social. Excepcionalmente nesta descrição refere-se a si mesmo na terceira pessoa.

2 thoughts on “O pessoal é político? Cara Gente Branca e os movimentos sociais identitários.

  1. Esse texto é uma aula. Parabéns.

    Eu confesso que não me senti à vontade de escrever sobre a série mas gostei bastante dela e sua análise foi excelente.

    Gosto mais um pouco do filme que originou a série. Recomendo quem não o assistiu que faça. Alguns atores da série inclusive são os mesmos do filme.

    1. Valeu vei! Acho q o q a série pode oferecer de interessante é a possibilidade de uma segunda temporada q deixe mais clara a perspectiva do autor

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