Crítica | Real – O Plano Por Trás da História

Real – O Plano Por Trás da História” não é bem um filme sobre a criação do plano Real em 1994 durante o governo de Itamar Franco, mas sim sobre a figura de Gustavo Franco, um dos economistas criadores do plano. Ao concentrar a trama em um dos personagens, e não na história como um todo, o longa do diretor Rodrigo Bittencourt tem como objetivo mostrar uma visão mais “humanizada” de um fato histórico importante da história do país.

Além disso, o longa apresenta uma visão política claramente de direita, o que não seria problema se ele assumisse de forma transparente a sua ideologia. No entanto, o filme tenta pagar de “isentão” ao mostrar uma versão imparcial da história, só que isso é algo que sem dúvidas ele não é.

O roteiro de Mikael de Albuquerque apresenta os personagens de forma caricata e superficial, principalmente as figuras políticas que são mostradas como idiotas – na falta de uma palavra melhor para definir. O presidente Itamar Franco, interpretado por Bemvindo Sequeira, parece uma versão piorada da apresentada por Reinaldo no programa humorístico Casseta e Planeta. Ele é uma pessoa patética que em um momento constrangedor pede que alguém o explique o plano Real de forma simples para que ele possa entender. Pior é a forma como o PT é representado, através de um político genérico chamado Gonçalves, interpretado por Juliano Cazarré (de “Boi Neon”), em uma crítica bastante superficial ao partido.

Os políticos são apresentados como “farinha do mesmo saco”, por exemplo em uma cena é mostrada uma conversa entre Gonçalves e o então Ministro da Fazenda FHC (Norival Rizzo), onde eles negociam apoio político e Fernando, representando o PSDB , lembra que apoiou Lula nas eleições de 1989. Isso sem falar em outro momento constrangedor no qual FHC está reunido com sua equipe econômica e no meio do debate ele só tem a capacidade de perguntar se alguém quer um cafezinho. Ou seja, o filme não está interessado em apresentar um debate político inteligente, mas apenas ridicularizar o tema, só que de forma séria e não como uma paródia.

A discussão política do filme parece uma conversa de Facebook entre “coxinhas” e “petralhas” onde nada é aprofundado e são apenas apresentadas acusações difamatórias entre esquerda e direita. Uma cena que mostra uma conversa entre Franco e um ex-colega da faculdade resume bem o tema quando o protagonista acusa seu amigo de ser hipócrita por ter votado em Lula do alto de sua cobertura. Ou seja, são apresentados diálogos vazios e com “frases de impacto” que mostram um debate sem um mínimo de conteúdo. O que dizer quando Gustavo afirma que “eu não me formei em primeiro lugar na turma para ficar anos corrigindo prova de aluno comunista“? É como se o longa se passasse nas redes sociais dos dias de hoje.

A figura de Franco como protagonista representa bem a ideologia dos realizadores do filme. Ele não é um político, mas sim um “gênio” responsável pela elaboração do plano Real que fez diversos sacrifícios pessoais em prol do país. Então ele passou por cima de políticos, do sistema e daqueles que não acreditavam que o plano econômico daria certo. Quase um salvador da pátria, ou um Capitão Nascimento (Tropa de Elite) da economia, que mesmo com alguns “defeitos” – ego do tamanho do mundo, prepotente, entre alguns outros mostrados na história – conseguiu salvar o país, praticamente um anti-herói. A forma que o roteiro arruma em tentar ser imparcial é justamente ao mostrar as “imperfeições” do seu protagonista. Em determinado momento uma personagem o chama de idiota por ele ter colocado o trabalho acima da sua família, e essa é uma das poucas críticas que temos a respeito dele durante a trama.

Se o roteiro não ajuda na construção dos personagens, o elenco também fica perdido sem uma base para se apoiar em suas atuações. Os atores sofrem para passar uma imagem séria e verossímil dos seus respectivos papéis, mas não conseguem fugir das caricaturas que eles representam. O único deles que tem espaço para ir um pouco mais além é Emílio Orciollo Neto como Gustavo Franco, mas o ator não tem carisma ou talento para tornar o protagonista em uma figura forte e relevante como o longa tenta construir. Ele apresenta uma atuação que beira a canastrice.
Já na parte técnica o filme tenta soar moderno com alguns movimentos de câmera interessantes, como na cena dentro do bunker onde a equipe econômica é reunida. Cada personagem é mostrado com uma câmera se movendo da esquerda para a direita, mas quando é a vez do protagonista falar o movimento é executado no sentido inverso, com o objetivo de chamar a atenção para a sua fala. Só que em seguida temos a utilização de um clichê cinematográfico ao mostrar os personagens escrevendo em um quadro para mostrar sua “genialidade”, da mesma forma que no longa “O Contador”, mas esse recurso é inútil e só mostra um tratativa visual preguiçosa do diretor. Já a montagem do longa se mostra problemática ao ser estruturada na forma de flashbacks, onde no presente é realizada uma entrevista com Franco. As passagens de tempo nunca ficam muito claras e as voltas ao presentes tornam o ritmo da narrativa irregular.

A escolha dos cenários é bastante curiosa. Brasília é uma cidade com locais marcantes e o filme utiliza diversos cartões postais da capital do país de forma totalmente aleatória. Então temos cenas dos personagens conversando na Praça dos Três Poderes ou na Torre de TV sem qualquer justificativa, sendo que seriam claramente conversas que deveriam ocorrer em algum local mais reservado. Ou seja, a justificativa da escolha não faz o menor sentido dentro da narrativa.
Seria fácil ficar aqui citando todos os exemplos negativos do filme na representação dos seus personagens e na construção da narrativa. É importante citar que “Real – O Plano Por Trás da Históriasegue um caminho perigoso em contribuir para o esvaziamento da discussão política ao apresentar um debate superficial sobre um tema tão complexo. Uma crítica simplória, principalmente sobre a esquerda, que contribui mais para a polarização política do que para um diálogo sobre os problemas no país ou sobre um momento tão recente e importante da história do Brasil que foi a criação do plano Real.


Uma frase: – Gustavo Franco: “Eu não me formei em primeiro lugar na turma para ficar anos corrigindo prova de aluno comunista.”

Uma cena: Quando Gustavo Franco sobe no palanque na frente do Banco Central para discursar em um protesto contra o Plano Real.

Uma curiosidade: Baseado no livro “3.000 Dias no Bunker – Um Plano na Cabeça e um País na Mão”, de Guilherme Fuiza.


Real – O Plano Por Trás da História

Direção: Rodrigo Bittencourt
Roteiro: Mikael de Albuquerque

Elenco: Emílio Orciollo Neto, Bemvindo Sequeira, Norival Rizzo, Tato Gabus Mendes, Fernando Eiras, Guilherme Weber, Giulio Lopes, Carlos Meceni, Mariana Lima, Thiago Justino, Klebber Toledo, Paolla Oliveira, Cássia Kis Magro e Juliano Cazarré
Gênero: Drama, Histórico
Ano: 2017
Duração: 95 minutos

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

One thought on “Crítica | Real – O Plano Por Trás da História

  1. Seu texto foi suficiente para me deixar sem vontade de assistir a este filme. Nunca que eu imaginaria Bemvindo Sequeira como Itamar Franco. Os dois não são NADA parecidos!!!!!

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