Crítica | O Dia do Atentado (Patriots Day)

O Dia do Atentado” é inspirado em fatos reais e mostra o que ocorreu quando duas bombas explodiram durante a maratona de Boston em 2013 e a investigação por trás do atentado terrorista. O filme do diretor Peter Berg apresenta diversos personagens, dentre eles policiais e civis, envolvidos direta e indiretamente no ocorrido, seguindo por um lado mais pessoal e dramático. Só que no fundo o longa é um típico filme policial construído de forma humanizada na tentativa de ser imparcial e também de mostrar o drama das pessoas comuns, na tentativa de fazer com que o espectador se envolva emocionalmente com os personagens.

Entretanto, o filme se perde em seu objetivo por não se definir entre querer apresentar os fatos da forma mais realista possível, ou se quer fazer uma homenagem à cidade de Boston, principalmente aos seus habitantes. A tentativa de humanizar a história focando em diversos personagens conectados ao ocorrido prejudica o longa por não conseguir dar conta de tantas pessoas.

O final deixa isso bastante claro quando o filme opta por mostrar um mini documentário com entrevistas com as pessoas reais e o que ocorreu com elas após os acontecimentos apresentados no longa. Ou seja, o diretor reconhece que não foi capaz de passar toda a emoção que queria, então é melhor garantir que o espectador tenha certeza de que são serem humanos reais na narrativa. Talvez tivesse sido melhor fazer um documentário e não um longa baseado em fatos reais.

O principal problema é a apresentação dos “vilões” da história: os irmãos Dzhokhar e Tamerlan Tsarnaev. Eles curiosamente são os menos “humanizados” da narrativa e parecem sempre estar nervosos sem saber exatamente o que estão fazendo. O roteiro tenta ser imparcial ao mostrar os irmãos criticando as atitudes dos EUA em relação ao 11 de Setembro. No filme, eles alegam que o governo utilizou esse fato para que a população criasse ódio aos muçulmanos mas, de forma contraditória, os Tsarnaev são retratados como dois lunáticos e fanáticos. Eles até podem ter sido, mas parece mais como justificativa para frases de efeitos de quem está os perseguindo como “peguem esses filhos da puta”

A situação entre os “cidadãos de bem” não é muito melhor em sua apresentação. O principal exemplo é o personagem de Mark Wahlberg, protagonista da história, que tem um ciclo de redenção clichê e mal desenvolvido. O pior é notar a ingenuidade dele, que parece ser a mensagem que o diretor quer mostrar com o filme: é possível combater o terrorismo com o “amor”. Sim, é isso mesmo, você não leu errado. O atentado pode até ter servido como aprendizado e uma forma de aproximar as pessoas de Boston, mas considerando a política utilizada pelo seu próprio país em relação ao terrorismo isso parece não fazer sentido, para não dizer simplesmente que é ridículo.

Curiosamente, o personagem que parece ser o mais racional é justamente o que representa o governo. Richard DesLauriers, agente especial do FBI, interpretado por Kevin Bacon, tenta conduzir as investigações da forma mais correta possível sem deixar que os ânimos de políticos e policiais locais passem por cima das regras. Afinal de contas, para eles o atentado tem um lado pessoal e encontrar os responsáveis para que possam ser punidos é algo que precisa ser feito da forma mais rápida possível. Mas infelizmente DesLauriers tem pouco tempo na tela.

Em sua parte técnica o longa de Peter Berg tem erros e acertos. A montagem, juntamente com o roteiro, não consegue alternar bem entre os personagens, principalmente na parte inicial responsável por apresentá-los. É muita informação e o filme não consegue lidar com ela. Já a trilha sonora da dupla Trent Reznor e Atticus Ross, que costumava trabalhar para o diretor David Fincher (Garota Exemplar) e apresentava uma criatividade muito interessante, segue por uma linha tradicional exagerando nos temas de perigo e emoção sem conseguir transmitir as sensações de forma natural. Em compensação, nas poucas cenas de “ação” o diretor mostra seu talento ao conseguir construí-las de forma eficiente, principalmente o momento do atentado que retrata bem a tensão e pânico das pessoas sem saber exatamente o que está acontecendo.

Mesmo com um ótimo elenco e alguns bons momentos, “O Dia do Atentado” não funciona como um retrato fiel dos eventos ou como uma homenagem à cidade que “sobreviveu” a um ato terrorista. O filme não consegue passar o lado humano e nem e emoção dos envolvidos no ocorrido de forma satisfatória. Como foi citado no texto, talvez um documentário funcionasse melhor do que um filme de ficção.


Uma frase: – Richard DesLauriers (Agente Especial do FBI): “É terrorismo. Nós assumimos.”

Uma cena: O momento da explosão das bombas.

Uma curiosidade: O script do filme surgiu a partir da junção de dois scripts: “Boston Strong”, que puxava mais para o gênero de suspense, e “Patriots Days”, que era mais para o drama.


O Dia do Atentado (Patriots Day)

Direção: Peter Berg
Roteiro: Peter Berg, Matt Cook e Joshua Zetumer; história de Peter Berg, Matt Cook, Paul Tamasy e Eric Johnson

Elenco: Mark Wahlberg, John Goodman, J. K. Simmons, Vincent Curatola, Michelle Monaghan, Kevin Bacon, Alex Wolff, Themo Melikidze, Michael Beach, James Colby, Jimmy O. Yang, Rachel Brosnahan, Christopher O’Shea, Melissa Benoist, Khandi Alexander, David Ortiz, Jake Picking e Cliff Moylan
Gênero: Drama, História, Thriller
Ano: 2016
Duração: 133 minutos
Graus de KB: Total Kevin Bacon

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.