Crítica | Deuses Americanos – 1×02: The Secret of Spoons

Como é possível uma simples colher, adoçar o negro amargor do café? (e afinal, como você prefere seu café mesmo? Doce ou amargo?).

O segundo episódio de Deuses Americanos traz um dos personagens mais interessantes da obra, devidamente encarnado pelo sempre confiável Peter Stormare. Stormare se especializou em interpretar tipos vilanescos do leste europeu, principalmente os de origem eslava.

Curiosamente, seu perfil cai como uma luva para o intrigante Czernobog o Deus do Mal, do caos, da noite e das trevas. De tudo que é negro, enfim. E esse parece ser o mote do episódio intitulado “The Secret of Spoon: aquilo que pode ser considerado negro, como isso pode ser considerado negro, e tudo que se constrói de significado (depreciativo, não raro) em torno dessa palavra.

O episódio abre, afinal, com um quase monólogo do excelente Orlando Jones, encarnando Compé Anansi. Talvez seja uma das cenas mais diretas e carregadas de discurso que veremos em uma série como essa. A história do negro na América, não é a história do branco. Não é a história do sonho americano, mas uma outra história, que lhes ensinou o que é ser negro e definiu esse atributo, deixando para trás um mundo onde tal distinção talvez sequer um dia tenha existido. E subitamente o linchamento sofrido por Shadow Moon (Ricky Whittle), um negro, no final do episódio de estreia, ganha todo um outro sentido.

O aparente anacronismo entre a forma de vestir e falar de Anansi logo revela seu propósito. Seu discurso é transcendental, porém carregado de uma dura clareza. Dramaticamente, é um artifício inteligente que nos arranca da nossa relação habitual com a mídia audiovisual – muito mais próxima de uma recriação “naturalista” da aparente realidade – e nos lança em um espaço simbólico similar ao do teatro, talvez a mais antiga dos engenhos da arte da humanidade, e aquela que primeira nos permitiu recriar deuses.

É curioso que esse caráter mais teatral tenha sido evocado pelo diretor David Slade (que também conduziu o primeiro episódio) justamente em um episódio no qual um dos principais antagonistas da trama se revela, a deusa Mídia, na forma de Lucy Ricardo (personagem da histórica série de TV “I Love Lucy”), então interpretada pela atriz Lucille Ball. Como Lucille Ball não mais se encontra disponível, coube a Gillian Anderson (a eterna Agente Especial Dana Scully) o desafio de personifica-la, algo que a excelente e sempre bela atriz cumpre a altura.

Mas, como assim Deuses?

Desculpe, estou aqui falando sobre deuses, e representações dos mesmos, já considerando que vocês sabem do que estou falando. Mas talvez seja preciso ser um pouco mais explícito, para aqueles que ainda precisam se situar. Nós gravamos um Varacast tratando sobre a premissa central da série, no qual esclarecemos algumas coisas. Para aqueles que ainda não ouviram, ou não tem qualquer noção dessa premissa, bem, vamos lá: Deuses Americanos é uma história de fantasia negra, que se passa no mundo contemporâneo, que tem como tema um conflito entre os deuses antigos e os deuses contemporâneos.

De um lado temos os “velhos deuses”; deuses e entidades do folclore nórdico, africano, eslavo, britânico, etc., que chegaram ao Novo Mundo, a América – os Estados Unidos, sendo mais específico – trazidos pelos por seus seguidores, sejam colonos, sejam escravos. Deuses como Odin, Thor, Toth, Anúbis, Anansi, Bilquis, bem como entidades como Leprechauns e Djinns (os gênios da lâmpada) e tantas outras que se possa imaginar.

De outro lado temos os deuses do mundo contemporâneo, os “novos deuses”. Mas quem seriam esses deuses? Quem seriam essas entidades que a humanidade do século XXI venera em seu dogmatismo cego pela ciência e sua permanente alienação? Ora, ninguém menos senão a tecnologia, a mídia, os carros e seus motores, as cidades e outros mitos e lendas urbanas que afetam nossa percepção do mundo. Na série esses seres são representados por tipos como Technical Boy (já introduzido no primeiro episódio, vivido por Bruce Langley), Mídia (Gillian Anderson), Mr. World (Crispin Glover, ainda a ser introduzido).

Todos os deuses – usemos esse termo genérico – se alimentam da crença da humanidade neles e ganham poder através dos tributos que lhe são pagos na forma de sacrifícios e oferendas que lhes são destinados. Esses tributos se dão das mais diversas formas, e não apenas na forma tradicional de holocaustos e presentes. Para a Mídia, por exemplo, para citar o segundo episódio, o tempo – talvez o que há de mais valioso na vida humana, alguns pensadores diriam – lhe é dado em forma de sacrifício quando o dispendemos em frente às TVs. (e há muita metalinguagem aí para que eu possa dar conta em um parágrafo).

Sem dúvida, porém, o avanço da tecnologia e do pensamento mecanicista cartesiano determinou uma mudança de paradigmas nas crenças da humanidade. O homem atual questiona seus mitos e os mantém apenas na forma de histórias curiosas. Em contrapartida, o dogmatismo científico impera e determina nossas vidas. A verdade, afinal, costuma ser determinada na forma de um conhecido preâmbulo que diz que “a ciência comprova”. Em certa medida, substituímos o dogmatismo religioso pelo dogmatismo científico. Ou seja, a ciência hoje ocupa um espaço em nossas vidas que, de forma similar ao que a religião teve no passado, em grande medida não nos emancipa, mas sim nos aliena.

Deixemos, porém, de elucubrações. O fato é que Neil Gaiman traz isso com sua pena através da polarização entre esses grupos de entidades, os velhos deuses e os novos deuses. E na medida em que as formas de veneração e sacrifício mudam, também se altera o eixo de poder dos deuses. No mundo moderno, afinal, não há mais espaço para sacrifícios de sangue (a não ser que esse venha na forma dos sacrifícios ao deus motor nas estradas, as quais Mr. Wednesday, sabiamente, prefere evitar) e, consequentemente, os velhos deuses definham à medida que são esquecidos.

Assim, encontramos os velhos deuses em uma condição de clara decadência; imiscuídos em meio à vida mundana da humanidade e de suas tarefas comezinhas. Uma existência muito mais dolorosa, por não estar sujeita à libertação que o tempo traz. Ainda assim sua existência pode ser ameaçada. Para sobreviver, porém, os velhos deuses precisam se reunir e enfrentar os novos deuses. E é isso que eles farão, sob a liderança do astuto Mr. Wednesday (Ian McShane).

Czernobog e as três Zayas

Se você ainda não conseguiu se dar conta de quem é a divindade que na série se apresenta simplesmente como Mr. Wednesday, bem, uma boa dica está justamente nesse episódio, e na forma como Czerbog se refere a ele, a todo momento. Voltemos, a propósito, a Czernobog, e tudo que ele representa nesse episódio.

Na obra de Gaiman Czernobog é um mito adaptado de uma entidade pouco conhecida da mitologia eslava. Há poucos registros sobre esse deus, portanto, faz mais sentido se ater àquilo que a imaginação de Gaiman propôs. Em Deuses Americanos, o Czernobog de Peter Stormare é o deus do mal e das trevas, ou simplesmente o Deus Negro. Ou pelo menos, é o que dizem que ele é. Conta-se que Czernobog tem uma irmão – desaparecido – chamado Belobog, ou, o deus da pureza e da bondade, o Deus Branco.

Em diversos momentos Gaiman sugere, porém, que essa dualidade entre Czernobog e Belobog é apenas aparente. Há inclusive teorias que afirmam que os “irmãos” são na verdade apenas dois aspectos da personalidade de um mesmo ser. O mais importante nessa dicotomia, porém, a meu ver, diz respeito a determinação dos papéis de cada um desses aspectos.

Como a fala do amargo Czernobog parece deixar claro, foi a aparência de seu irmão de cabelos e barba brancos que levou a todos que o conheciam a assumir que ele só poderia ser o Deus Branco e, portanto, bondoso. Em contrapartida, Czernobog, de cabelo e barba negros como a noite, só poderia ser o Deus Negro, e assim, maligno. Teriam sido esses papéis responsáveis por definir quem Czernobog e Belobog seriam? Ou será que isso apenas serve para demonstrar como funcionam rótulos e como eles são enganadores? Seria, como a obra de Gaiman sugere, e a série insinua, que em verdade Belobog é o mais maligno? E se isso for verdade, isso faria de Czernobog bondoso?

Independente de qualquer conclusão a que se possa chegar, o mais interessante mesmo parece ser toda a dualidade que Czernobog representa; e toda a contradição que essa dualidade carrega consigo. Dualidade essa que percebemos ali, sempre presente de alguma forma, sob a calculada canastrice de Peter Stormare.

Mas não é apenas por conta de Stormare e da sua capacidade de dar vida ao intrigante Czernobog que os deuses eslavos são facinantes; eles representam a síntese dos velhos deuses. Onde outros ainda se apegam, desesperadamente, a qualquer resquício de glórias passadas, e tentam se adaptar ao mundo contemporâneo, os deuses eslavos já desistiram e são consumidos pela decadência e pela nostalgia estéril. Tudo em tdeles deles é anacrônico: cada peça de figurino e cenário; e esse anacronismo em nada se assemelha ao de Anansi. Os deuses eslavos são tudo aquilo que já passou.

Ajudam a compor esse quadro as ótimas irmãs Zorya: Zorya Polunochnaya (Erika Kaar), Zorya Utrennyaya (Martha Kelly) e a excelente  Zorya Verchenyaya (Cloris Leachman). Na versão da mitologia apresentada por Gaiman cada uma representa um aspecto do dia e da vida: elas são a estrela da manhã (Utrennyaya), a estrela do anoitecer (Verchenyaya) e a estrela da meia-noite (Polunochnaya). isso é uma histó para o futuro. O que importa notar é a força com a qual elas representam o tempo e como este cerca a Czernobog. Elas são o suporte necessário para que esse personagem entregue suas falas. E são as falas de Stormare, reverberando de alguma forma as falas de Orlando Jones, que dão o tom desse episódio.

Czernobog, ansiando por um sacrifício, um desafio a Shadow: um jogo de damas; peças brancas contra peças negras. Se Shadow vencer, Czernobog acompanha Mr. Wedsneday. Se Shadow perder, Czernobog o mata com uma pesada martelada em seu crânio. Durante a disputa – e antes dela -, Stormare profere os diálogos que, em contraponto ao texto de Orlando Jones no princípio, talvez seja o mais complexo do episódio. “Você é negro, não é Shadow?”, pergunta o Deus Negro. “Nós nunca nos imaginamos como bancos, até encontrarmos vocês.”, segue afirmando o personagem que carrega em si aquele típico racismo que encontramos a todo momento pelas redes sociais principalmente: aquele que não se reconhece como tal, e que se vê diante de um estranhamento quando forçado a encarar essa realidade.

Nesse momento os roteiristas andam sobre gelo fino, mas me parece que se saem bem. Czernobog, afinal, evoca o notório discurso de “cor da pele é apenas um detalhe externo e por dentro somos todos iguais” que, quando dito por uma pessoa branca em uma sociedade que historicamente oprimiu e oprime pessoas negras, serve apenas para mascarar os imensos problemas de desigualdade social que vêm acompanhados com a questão racial (seja nos EUA, seja no Brasil).

É bem diferente quando Anansi fala quase que as mesmas coisas (quase), ao afirmar que aqueles escravos no navio holandês não se reconhecem como negros, como diferentes, pois jamais haviam visto um branco. Ali Anansi chama a atenção para uma realidade que o discurso da homogeneização costuma querer esconder: que a identidade do negro nas Américas foi forjada sobre um forte componente de exploração do homem pelo homem, que garante a perpetuação da desigualdade até hoje, uma desigualdade que em muito transcende meros critérios econômicos.

Enquanto Czernobog – representando aquela parte da cultura estadunidense que remete ao imigrante médio de baixa renda que, de seu lugar, é incapaz de perceber a posição de exploração pré-estabelecida a qual o negro é submetido na formação daquela nação – usa o discurso da igualdade para diluir diferenças e assim lidar com os problemas de sua consciência, ele não se dá conta – ou sequer se importa -, ao desafiar Shadow, que eles não são iguais: Czernobog, afinal, ainda que decadente, é um Deus. E mesmo que possa se afirmar que, em essência, há alguma similaridade entre ele e Shadow, a posição na qual Czernobog foi colocado – graças à exploração da devoção de seus fiéis – evidentemente o coloca em uma posição injustamente injustamente superior à de seu competidor. Pode parecer um simples jogo de damas mas, como qualquer jogo jogado nesses​ termos, é um jogo de cartas marcadas no qual a casa sempre vence.

Considerações adicionais:

  • As cenas envolvendo Bilquis, a Rainha de Sabá, são um deleite à parte. Ela parece que terá mesmo, na série, um papel muito mais importante do que no livro. Espero que sim;
  • Fiquem atentos para a pessoa que Mr. Wedsneday encontra no café; ele é o Djinn. O ser que realiza desejos. Vamos ver qual será o papel dele nesse jogo;
  • O título do episódio não é uma referência a uma colher – spoon -, como a fala de Czernobog pode induzi-lo a imaginar. Fique atento, você está sendo enganado! Spoon também é uma referência a um tipo de isca usada em fly fishing nos EUA, para pegar peixes grandes. Qual o peixe exatamente se quer pescar nesse episódio, pode até estar em debate, porém, não há dúvidas sobre quem esteja fazendo a pescaria.

*No Brasil, Deuses Americanos vai ao ar todas as segundas-feiras pelo canal de streaming Amazon Prime.


Série: Deuses Americanos (American Gods)
Temporada: 1ª
Episódio: 02
Título: The Secret of Spoons
Roteiro: Bryan Fuller e Michael Green
Direção: David Slade
Elenco: Ricky Whittle, Peter StormareYetide BadakiEmily Browning, Gillian Anderson, Cloris Leachman, Orlando Jones,  e Ian McShane.
Graus de KB: 2 – Peter Stormare atuou em O Grande Lebowski (1998) ao lado de Leon Russom , que esteve em Ele Disse, Ela Disse (1991) ao lado de Kevin Bacon
.



Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

One thought on “Crítica | Deuses Americanos – 1×02: The Secret of Spoons

  1. Achei esse episódio bem superior ao primeiro, ainda que continue deixar alguns mistérios no ar (que você faz questão de revelar em seus textos ghahahaha) é muito menos maluco do que foi o primeiro.

    Enfim, ainda acho que essa tal deusa as cenas são muito ruins, ao contrário do que você pensa. Talvez seja a única coisa que não estou curtindo na série.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *