Crítica | Nós Somos os Robin (2015)

Um punk, uma otaku, um atleta, uma latin queen, um filho da máfia italiana e um cinéfilo são os protagonistas da história Nós Somos Robins (2015). Não! Melhor: um mecânico hacker, uma fã da batgirl, um ativista, uma poliglota, um ex-prodígio da música e um intelectual marginal são os personagens principais da história. Na verdade, esqueça tudo que eu disse, nenhuma dessas definições conseguem encarcerar em sentido os heróis dessa HQ. A dificuldade de definir rapidamente os protagonistas reside justamente na complexidade dos mesmos. Os dois conjuntos de adjetivos remetem a exatamente os mesmos indivíduos, porém, nenhum deles dá conta de definir verdadeiramente os personagens. Os diversos predicados oferecidos a eles revelam justamente a complexidade com a qual a questão da identidade é tratada ao longo da história.

A história de Nós Somos Robin, como o título já entrega, ocorre no universo de Batman, porém sem ter o Batman como centro. A narrativa desenvolvida por Lee Bermejo nos oferece o ponto de vista de jovens que tiveram contato, de algum modo, com o homem morcego e fazem parte de um grupo de heróis urbanos atuando com o nome e as cores do Robin. Dessa forma, os Robins constituem uma espécie de tribo urbana que se comunica através de grupos em aplicativos de mensagem instantânea (à la Whatsapp). Eu poderia dizer que os robins se comunicam como os jovens que marcam uma festa ou coisa que a valha, porém, não menosprezando as festas, acho relevante frisar que as redes sociais e os aplicativos mensageiros também tiveram e têm um importante papel para a troca de informação e organização de diversos movimentos políticos. Sendo assim, é também uma apropriação da tecnologia da informação para uma finalidade de transformação social. Dessa forma, os nossos heróis aproximam-se bastante da juventude ativista que se organiza na internet, mas não se mantém somente na internet.

A proposta da HQ é contar uma história vista de baixo, do ângulo de pessoas “normais” que vivem a rua, a transpiração da cidade de Gotham.  A ideia de que “pessoas comuns”, inspirando-se no Batman, poderiam se tornar justiceiras foi tratada também por Christopher Nolan em sua adaptação cinematográfica. Ora, em um universo onde existe um herói sem superpoderes, não seria de se estranhar que as pessoas seguissem o exemplo na luta contra o crime. Porém, o que acontece quando diversas pessoas sem o treinamento e o equipamento adequado se lançam no embate contra criminosos armados? As mais diversas coisas podem acontecer. Os nossos heróis amadores podem simplesmente se ferir ou morrer em combate, mas talvez esse não seja o maior problema. Talvez o maior problema do justiceiro seja a falta preparação intelectual e emocional para guiar sua ação caso ele seja o vencedor. Explico: talvez o grande problema seja a violência excessiva do herói amador, que movido por diversas paixões pode vir a assassinar o criminoso ou coisa pior. Talvez por isso o Batman no filme do Nolan não tenha aceitado os heróis amadores empunhando fuzis e escopetas.

Assim como no Cavaleiro das Trevas (2008), o homem morcego da nossa história também não se mostra muito simpático aos heróis amadores. Em uma cena, ele aterrissa no meio de uma batalha entre os robins e um grupo fascista e ordena que os robins deixem de existir. Nesse momento surge outro ponto extremamente interessante da trama. Os jovens vestidos de vermelho e amarelo não dão muita bola para a ordem do Batman, ainda que isso tenha ocasionado um certo desconforto para ambos os lados. Eu poderia dizer que a rebeldia dos nossos heróis se assemelha muito à rebeldia adolescente sem causa (à la James Dean), porém não menosprezando a juventude transviada, prefiro frisar a relevância da crítica à autoridade que se configura como ponto muito importante em diversos grupos políticos que questionam a representação, a hierarquia, o centralismo etc. Os robins desobedecem o Batman não por um capricho, mas porque tinham ciência que a sua causa e a sua luta se faziam necessárias naquele momento, inclusive para superar a posição de sombra do cavaleiro das trevas. Os jovens heróis da história cometendo uma espécie de parricídio edípico assumem seu lugar para além da dicotomia Batman-Coringa; eles estão, nesse caso, para além do bem e do mal. Assassinam o pai (metaforicamente) para construir as suas próprias identidades.

We Are Robin | DC Comics

A história de Lee Bermejo se mostra, então, como uma ode à juventude, ou melhor, como um grito necessário para reoxigenar a própria noção de juventude. Em tempos de adolescentes conservadores é mais do que importante reavivar a força da rebeldia presente nos jovens. Os robins são mulheres e homens, são multiétnicos, são de origens sociais diferentes e enfrentam o dilema de ter que acolher todas essas individualidades para pensar coletivamente. O título da obra não é em vão. O pronome na primeira pessoa do plural expressa a importância desse ser e agir coletivo. Talvez não seja absurdo conjecturar que o “nós somos” do título esteja ligado à diversas manifestações contemporâneas como o slogan “we are the 99%” (nós somos os 99%) do Occupy Wall Street (a porcentagem se refere à parcela da população que é explorada em contraste com o 1% dos exploradores).

Portanto, a DC Comics nos apresenta uma história densa e até mesmo sombria, ainda que a ideia principal seja que os robins são necessários para colorir os tons de preto que costumeiramente pintam Gotham City. Isso porque, como nada nessa história é tão óbvio, temos um enredo que é ao mesmo tempo claro e escuro, arejado e claustrofóbico. Ao término da leitura, porém, o que sentimos é que a série poderia ser muito maior. Não por apego aos personagens, mas porque a proposta de trabalhar as nuances complexas das questões abordadas é feita de uma forma um tanto quanto apressada. A quantidade de protagonista é muito grande e isso é bom, porém os nove números da revista não conseguem desenvolver tão bem a ideia que foi colocada. Entretanto, isso não chega a manchar a qualidade do quadrinho, que apresenta uma excelente história urbana sobre juventude, identidade e o mais importante, criticando o próprio conceito de herói.

Assiste uns filmes e umas séries, lê uns livros e uns quadrinhos e gosta de conversar e escrever sobre essas coisas. Tirado a filósofo, tem mania de fazer interpretação filosófica de quase tudo. Anarquista e usuário de marxismo, possui especial apreço pelas distopias e pira nas narrativas sobre crítica social. Excepcionalmente nesta descrição refere-se a si mesmo na terceira pessoa.

2 thoughts on “Crítica | Nós Somos os Robin (2015)

  1. Cara, excelente texto.

    Estou há algum tempo fora da leitura de quadrinhos e sempre penso em voltar. Achei interessante essa We Are Robin, de repente pode ser um retorno hehehe

    1. Super indico! um ótimo caminho pra voltar pros quadrinhos pq ele tem uma pegada bem contemporânea, uma forma nova de fazer quadrinho

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