Crítica | Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker)

Não vou mentir e dizer que Cinquenta Tons Mais Escuros teria potencial para ser um filme excelente. Afinal, nem sempre entretenimento significa qualidade. A sequência de “Cinquenta Tons de Cinza”, filme homônimo da franquia de E.L. James, revive uma fórmula conhecida que enlouqueceu jovens do mundo inteiro em “Crepúsculo”: um jovem milionário, lindo de morrer e problemático que se apaixona pela garota sem graça, pobretona e virgem. Mas, direcionado ao público adulto, a franquia “Cinquenta Tons” leva milhares de mulheres ao cinema pela ousadia das cenas de sexo e pela promessa de um conto de fadas para adultas.

Com 118 minutos de exibição, o filme apresenta tanto conflito que fica difícil acompanhar: a submissa que passa a perseguir Anastasia (Dakota Johnson) depois que essa última reata o romance com Christian Gray (Jamie Dornan); o confronto de Anastasia com Elena (Kim Basinger), a mulher que iniciou Gray no mundo da dominação e submissão sexual; o assédio sexual que a moça sofre no trabalho; e as sequelas de Gray que o impedem de se abrir a um relacionamento saudável. Como o filme não tem pretensão alguma de levar ninguém a refletir sobre coisa nenhuma, a parte em que Christian trata Anastasia como sua propriedade não é vista como um problema. Chega, inclusive, a ser tratada como romantismo desenfreado.

Com a justificativa de proteger a mocinha da stalker malucona que anda por aí destruindo carros alheios, Christian cria dificuldades para que Anastasia vá a uma viagem a trabalho acompanhada do chefe. Mas, hey, não é controle, lembram? É amor. Além de xaropar sobre a viagem, Gray parece considerar desnecessário que ela trabalhe. Já, de cara, após reatar o romance, a presenteia com um macbook air, um iPhone 7 e, pasmem, um carro. Trabalhar para quê, né, se eu tenho um príncipe que me dá tudo o que eu quero?!

Risadas na sala de cinema quando, durante uma discussão do casal na rua, Christian decide que é melhor debater o assunto em local mais reservado. “Se você não vier comigo eu te carrego”, ameaça o boy magya. Oi? Como é? Quer dizer que se a moça não estiver onde ele quer que ela esteja, ele simplesmente a coloca no ombro e vai-se embora? Tá de parabéns, Gray.

A questão do assédio sexual também foi tratada de forma rápida e indolor. A moça faz vista grossa para os olhares concupiscentes do chefe e, no momento em que ele tenta chegar às vias de fato, ela se livra do rapaz com imobilização e joelhada no saco. Estranhamente, esse comportamento heroico da moça não é mencionado e tampouco é discutido a denúncia do mal caráter. Vamos deixar que ele faça isso com outras mulheres, certo?

Quem fica mesmo no “preju” é Kim Basinger. Com apenas 5 minutos em tela, a loira não convence como vilã, pois não chega a ser um empecilho para o casal, e nem tampouco elucida questões relevantes sobre Christian. O chefe assediador, Jack Hyde (Eric Johson) por sua vez, passa de personagem carismático e sexy para maluco psicopata estuprador de uma cena para a outra, literalmente. Sem contar a maluquete, Leila (Bella Heathcote), submissa sexual do passado de Gray. Até agora ninguém explicou como uma pessoa com sérios problemas mentais conseguiu entrar, sem ser vista, na “condomínio fortificado” do protagonista e destruir o carro de Anastasia.

Para além de ver corpos bonitos em cenas quentes de sexo, é preciso assistir a Cinquenta Tons Mais Escuros com senso crítico em relação à romantização da possessividade e relacionamentos abusivos. Nada contra ver Jamie Dornan nu e mandando ver, porém há que se considerar que a maioria dos contos de fadas é machista. #prontofalei


Escrito por Elaine Andrade: “jornalista, servidora pública e nerd”.


Uma frase: – Christian Gray: “Tá bom, eu janto com você, mas só porque eu estou com fome”.

Uma cena: Christian Gray se exercitando sem camisa.

Uma curiosidade: O roteirista Niall Leonard é o marido de de E.L. James, autora dos livros.

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Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker)

Direção: James Foley
Roteiro: Niall Leonard
Elenco: Dakota Johnson, Jamie Dornan, Eric Johnson, Eloise Mumford, Bella Heathcote, Rita Ora, Luke Grimes, Victor Rasuk, Kim Basinger e Marcia Gay Harden
Gênero: Drama, Romance
Ano: 2017
Duração: 117 minutos

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3 thoughts on “Crítica | Cinquenta Tons Mais Escuros (Fifty Shades Darker)”

  1. Ainda cheguei a assistir o primeiro e, pelo visto, nada mudou. Ou ‘melhor’, mudou para pior pelo visto já que toda a visão machista segue sendo o ponto ‘forte’ dessa história aborrecida.

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