Crítica | Axé: Canto do Povo de um Lugar

Todo gênero musical muito popular acaba pagando o preço pela própria popularidade.

É como se o simples fato de agradar as massas automaticamente o desqualificasse e lhe retirasse a qualidade de arte, e aí não faltam pessoas classificando determinado tipo de música como “lixo” simplesmente porque uma quantidade razoável de gente gosta. Não é um fenômeno novo nem local: já vimos isso acontecer com o rock, com o rap, com o brega, com o funk e, é claro, com o Axé Music.

Axé: Canto do Povo de um Lugar conta as origens desse gênero — ou melhor, desse movimento, pois o próprio filme demonstra que o que se conhece como “Axé” engloba na verdade uma imensa variedade de ritmos e sons que têm como ponto comum apenas a geografia — com registros históricos e depoimentos de seus principais personagens.

Mas, muito mais que isso, o documentário mostra as origens populares do Axé Music — termo que inclusive nasceu como uma forma pejorativa de se referir à música vinda da Bahia — e de sua importância no empoderamento do negro no cenário baiano e do fortalecimento da Bahia como um todo no cenário nacional. Axé nos mostra como esse estilo musical tomou o país de assalto, dando à cultura negra e a um estado fora do eixo Rio-São Paulo um espaço sem precedentes na mídia nacional.

Vemos como o movimento surgiu quase que por acaso, por uma mistura improvável de ritmos, ideias e pessoas, e acabou se tornando uma verdadeira indústria que movimenta cifras milionárias. Vemos também como é um gênero que, apesar do que dizem seus detratores, tem suas qualidades reconhecidas inclusive internacionalmente.

Mas Axé, como um legítimo produto baiano, se destaca mesmo é nos causos, nos divertidos depoimentos de artistas, empresários e pessoas ligadas ao carnaval de modo geral, mostrando bastidores e histórias curiosas ocorridas ao longo dessas décadas que mudaram o cenário musical brasileiro. Nesse ponto se sobressaem a sinceridade de Durval Lelys, a falta de papas na língua de Gerônimo e o infindável carisma de Ivete Sangalo, além das peculiares histórias de como Chacrinha decidiu levar Luiz Caldas para tocar em seu programa e de como surgiu a famosa batida do Olodum.

É claro que essa história não se compõe apenas de alegria. Montado como uma tradicional narrativa de ascensão e queda, o filme mostra também o ocaso do gênero baiano, causado em grande parte pela mesquinhez e ambição exacerbada dos seus próprios protagonistas. Vemos como o lado musical foi sendo deixado cada vez mais de lado em prol da lucrativa indústria que se formou — e que terminou por formatar o modo como, infelizmente, se pensa música no Brasil hoje em dia.

O documentário não doura a pílula ao mostrar que a ganância teve participação fundamental no declínio da Axé Music, revelando que além de não pensar globalmente, buscar a renovação e investir na cena como um todo, alguns personagens desse movimento chegaram até mesmo a deliberadamente prejudicar certos artistas então vistos não como parceiros, mas como concorrentes.

Talvez para evitar um final melancólico, os minutos finais da projeção se dedicam a falar da nova geração, em especial de Saulo Fernandes — que a bem da verdade não é tão novo assim, já tendo alguns bons anos de carreira –, apontando-o como um talentoso artista que talvez traga a oxigenação e renovação necessárias ao Axé, sem desprezar os elementos pretéritos.

No final das contas, Axé: Canto do Povo de um Lugar é um documentário competente e interessantíssimo, não apenas para quem se interessa por esse estilo musical específico, mas — talvez até mais — para aqueles que não o toleram, pois revela que por trás de uma manifestação aparentemente simplória e popularesca pode se esconder uma história riquíssima da qual só não vai atrás quem já morreu.


Uma frase: “O que é Baixa do Tubo?” 

Uma curiosidade:  Considerado por muitos um dos pais do Axé Music, o produtor Wesley Rangel faleceu no começo de 2016, pouco depois de registrar seus depoimentos para o filme

 

 

 


Axé: Canto do Povo de Algum Lugar

Direção: Chico Kertész
Roteiro: Chico Kertész
Elenco: Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Margareth Menezes, Ivete Sangalo, Gerônimo
Gênero: Documentário
Ano: 2017
Duração: 105 minutos

Canto como Lionel Messi, jogo bola como Lionel Richie.

10 thoughts on “Crítica | Axé: Canto do Povo de um Lugar

  1. Acho que quem nasceu no Nordeste e viveu a década de 90 ativamente, sabe bem a importância que o Axé Music teve para a Bahia e para a nossa região, nesse período. Todo mundo tem alguma passagem com esse gênero musical, por isso mesmo espero que esse documentário tenha uma distribuição decente nos cinemas brasileiros, porque eu quero ter a chance de conferir o filme.

        1. Perguntei ao diretor pelo Instagram, ele disse que primeiro passaria na TV a cabo e só depois sairia DVD. Também estou acompanhando, mas até agora nada.

  2. Li novamente a sua crítica após FINALMENTE conseguir assistir este nobre documentário. Parabéns, excelente texto. Concordo completamente com o que disse e realmente, por mais que Saulo seja sensacional, colocá-lo como “a novidade que pode salvar o axé” foi, talvez, a única coisa que não “concordei” com o documentário.

    Sem dúvidas, quem viveu essa época e esteve junto com a crescente que foi o a Axé, é impossível não se arrepiar e se emocionar vendo algumas músicas, alguns causos e alguns artistas. Acho que o documentário acertou muito também ao comentar sobre o porquê da situação atual da indústria do axé.

    Poderia encerrar com “espero por tempos melhores” mas a verdade é que, apesar de querer, não espero. Ainda estamos com o “fogo baixo” e praticamente sem gás.

    1. Também acabei de assistir e a impressão foi a mesma. Vi surgir o axé em meados dos anos 80 e algumas informações mostradas sobretudo a respeito do início do movimento foram muito interessantes, surpreendentes e, confesso, emocionantes.
      Sempre que vou à Bahia, percebo que o axé agoniza, em especial diante do crescimento de outros gêneros populares, vindos de outras partes do Brasil. Penso que, musicalmente, o gênero está eternizado, aconteça o que acontecer. E concordo com Márcio: há na Bahia quem o dê sequência com mais qualidade e substância que Saulo. Mas do ponto de vista da lucratividade, acredito que o axé morreu.
      Senti falta de um contraponto no momento em que apontam o desenvolvimento dos blocos de corda como o ápice do gênero do ponto de vista mercadológico. Eu esperava, nesse momento, uma referência, mínima que fosse, ao que ocorria do lado de fora das cordas no carnaval. Mas, no geral, é um ótimo documentário, especialmente para quem viveu a história. E, de fato, não há no Brasil quem não a tenha vivido em nenhum momento, goste ou não de axé.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *