Crítica | Game of Thrones – 6×10: The Winds of Winter

O que acontece quando um dos pilares de um reino rui por inteiro? Certamente é preciso que outro venha a se erguer. E possivelmente, de forma completamente diferente.

O décimo episódio da sexta temporada de Game of Thrones entregou possivelmente o melhor fechamento de temporada de toda a série, atendeu e superou expectativas, e afirmou que o poder no mundo de George R.R. Martin é mesmo das mulheres.

Aviso de SPOILERS

Os comentários a seguir falam sobre acontecimentos narrados em The Winds of Winter, o último episódio da sexta temporada de Game of Thrones.

#GoT (S06E10) – The Winds of Winter

Hear me Roar

Se há um famoso exemplar de sabedoria popular que muitos incautos insistem em esquecer é o que lembra que não se deve cutucar onça com vara curta. Aqui, no caso, uma leoa.

Ao longo de toda essa temporada Cersei Lannister aturou em silêncio todo o tipo de humilhação. O temor pela vida de seu filho sempre a fazia recuar. Foi preciso que o próprio filhote mordesse a mão que o alimentou para que a leoa dos Lannister enfim liberasse seu rugido.

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E que rugido. Num plano cruel e meticulosamente articulado com o apoio de seus já fidelíssimos servos, Montanha e Qyburn, em um único movimento Cersei literalmente varreu do mapa todos os seus inimigos e desafetos. Para quem achava que toda a tensão a temporada se exaurira no catártico episódio da semana passada, a explosão do Septo de Baelor foi absolutamente devastadora.

Mas com a destruição do Septo e da Fé Militante, ruiu também o breve reinado de Tommen, o tolo, e tudo que lhe restou foi tirar a própria vida. Em alguma medida Cersei já esperava por isso. Ela chegou a tentar proteger seu inocente filhote, mas o cruel vaticínio que a atormentava desde já há muito tempo apontava que tratava-se de uma empreitada vazia. A dureza com que ela observava os restos mortais de seu filho dão conta disso.

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E diante de um gesto tão definitivo, diante de um rugido tão poderoso, não havia outra alternativa a Cersei senão finalmente sentar no lugar que lhe é mais de direito do que de qualquer homem em torno dos quais ele orbitou: o trono de ferro.

Sim, pois para quem esperava que Daenerys fosse vir a ser a primeira mulher a reinar sobre os Sete Reinos, Cersei surpreendeu e não se faz de rogada, como que ecoando as palavras de Sansa no episódio prévio, assumindo o poder sabendo que não havia outra alternativa para ela proteger o pouco que ainda lhe restava. Coroada pelo seu novo Mão da Rainha, o fiel Qyburn, Cersei Lannister senta-se enfim magistralmente no trono de ferro perante os olhares aturdidos e silenciosos todos, inclusive de seu amante e irmão.

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Por fim, não nos esqueçamos – assim como Cersei não esqueceu – de uma honrosa menção ao destino da Irmã Unella. Afinal, um Lannister sempre paga suas dívidas, não é mesmo? Vergonha. Vergonha. Vergonha.

Fire and Blood

Ainda do outro lado do mar estreito, na recém batizada Baía dos Dragões, Daenerys precisa sacrificar o que ama para poder ter o que mais deseja. Claro que é um sacrifício que assume um papel simbólico na história, já que a justificativa para ela se separar de Daario Naharis não é lá das mais convincentes.

Mas assim como se deu com Cersei, é preciso reforçar como o poder afasta as pessoas e é extremamente solitário. O destino de Daenerys parece ser ainda mais cruel: ela desperta mais fascínio e devoção do que amor. Tamanha é a presença da última – será a última mesmo? – dos Targaryen que mesmo o cínico duende Tyrion Lannister é incapaz de resistir a ela.

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Em uma belíssima cena é possível sentir o amor e a adoração transbordarem pelos olhos do ator Peter Dinklage, num gesto que é o que mais se aproxima de uma declaração de amor possível para ele, ao dizer que não acredita em nada sua vida, mas acredita nela; gesto este que é imediatamente reconhecido e recompensado por sua Rainha, que o nomeia oficialmente, também, a sua Mão da Rainha.

Agora temos duas rainhas prestes a entrarem em choque direto pelo trono de ferro. Cersei contando com o domínio estabelecido na capital e o poderio bélico e financeiro dos Lannister. Daenerys com seus Dragões, os Dothraki e os Imaculados, o apoio dos Greyjoy e o recente apoio – costurado por Varys que, aparentemente, possui as mesmas capacidades teleporte que Mindinho – de Dorne e da casa Tyrrell.

A próxima temporada promete uma sangrenta luta entre duas mulheres extremamente fortes e implacáveis, que deixarão os homens em seus lugares como meros coadjuvantes.

Winter is Comming

Se tem outra mulher que se destacou ao longo dessa temporada, não resta dúvidas que está foi Sansa Stark. Como seu próprio meio-irmão – ou seria primo? – bem pontuou, não fosse ela e os Cavaleiros do Vale que lutaram por ela, a batalha contra Ramsay Bolton estaria perdida.

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Mas diferente das outras mulheres de poder na série Sansa não quer os holofotes. Ela aprendeu – e aparentemente muito bem – a jogar o jogo dos tronos com Lorde Baelish, e parece ser cônscia de que a melhor forma de se jogar sem se arriscar é a partir das sombras.

Assim, Sansa concomitantemente manipula para que seu meio-irmão assuma o “trono” do Norte enquanto garante que Lorde Baelish fique cada vez mais enredado em suas presas. Num primeiro momento ela sugere a Jon Snow que assuma os aposentos dos Lordes de Winterfell para em seguida, num encontro às escondidas com Mindinho, dar um equivalente em Westeros a um famoso “talvez” e deixá-lo cozinhando.

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Na cena seguinte – uma das mais emocionantes da série até agora – as casas nobres do orgulhoso e tradicional Norte ignoram a origem de um homem e reconhecem por aquilo que acreditam que ele é: assim como seu meio-irmão Robb – e isso talvez de fato não seja um bom presságio – Jon Snow é aclamado Rei do Norte.

É aclamado pelos Mormont – com a já marcante liderança da cativante e surpreendente Lyanna Mormont – e por outras casas que não o seguiram; é aclamado por Ser Davos Seaworth que, momentos antes, teve a prova final do valor de Jon Snow enquanto homem, quando este – ao saber do cruel destino de Shireen Barathen – não pensou duas vezes ao punir Melisandre com a pena de banimento; é aclamado pelo Povo Livre de Além da Muralha. Um bastardo é o Rei no Norte.

Ou será que não?

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Afinal, vemos finalmente o encerramento da cena da Torre da Alegria. Bran mais uma vez visita seu pai e enfim tem a revelação de que seu meio-irmão, Jon Snow, sempre foi na verdade o filho de sua tia Lyanna Stark. Apesar da cena não ser – felizmente, diga-se de passagem – explicada aos detalhes, fica evidente que Jon Snow é o filho de Lyanna e Rhaegar Targaryen, confirmando enfim uma das mais famosas teorias da internet.

Para quem a essa altura ainda não sabe, Rhaegar Targaryen era o irmão mais velho de Daenarys, e quem detinha direito de sucessão direta ao trono. Seus filhos, claro, herdariam tal direito. Ocorre que como Rhaegar e Lyanna – pelo menos até onde se sabe – jamais se casaram, Jon Snow não deixa de ser um bastardo; não um bastardo de Ned, mas um bastardo de Rhaegar Targaryen. Ainda assim, um Targaryen e com um mínimo de legitimidade para reivindicar para si o Trono de Ferro.

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As próximas temporadas devem girar em torno dos embates entre esses três personagens principais – Jon, Cersei e Daenerys – pelo controle do trono de ferro. Eu apostaria um bom dinheiro – se eu tivesse algum – que em algum momento Daenarys e Jon Snow se aliarão contra os White Walkers, enquanto Cersei se aquartela em Porto Real, sendo ameaçada diretamente talvez apenas por Dorne e pelos Tyrrell. Mas isso só poderemos ver agora daqui a um ano.

Não poderíamos encerrar esse comentário sem fazer uma outra menção honrosa ao queridíssimo Sam Tarly e a arrebatadora cena – quem é apaixonado por livro entende o meu sentimento – dele na biblioteca da Cidadela dos Maesters. O que o futuro reserva para o corajoso Tarly é difícil dizer, mas seus conhecimentos devem vir a ser cruciais para a conclusão da trama.

Por fim, Arya Stark. Enfim a vemos agir no domínio de suas capacidades. Ela ainda é Arya Stark, mas também é um Homem sem Rosto, e inicia seu plano de doce vingança a partir da casa dos Frey. Será difícil para Cersei Lannister se esconder dela, principalmente quando os alvos de Arya sequer sabem que ela está viva, tampouco que são alvos.

De qualquer forma, foi um episódio magistral que valeu por tudo de errático que a sexta temporada teve. Game Of Thrones segue sendo, sem dúvida, um dos grandes eventos televisivos de todos os tempos.

Obrigado a todos que acompanharam as nossas críticas por aqui. Em breve, para suportar a espera, pretendemos lançar um material especial comparando a série da TV até agora e os livros de Martin e as fontes históricas nas quais ele se inspirou. E assim que o sexto livro for lançado, a resenha o acompanhará em seguida.

Abraços a todos e nos vemos em breve.


Série: Game of Thrones
Temporada: 6ª
Episódio: 10
Título: The Winds of Winter
Roteiro: David Benioff  e D.B. Weiss
Direção: Miguel Sapochnik
Elenco: Kit Harington, Peter Dinklage, Emilia ClarkeLiam CunninghamSophie TurnerKristofer HivjuCarice van HoutenAlfie AllenAidan GillenNikolaj Coster-WaldauNatalie DormerIndira VarmaMaisie WilliamsConleth HillDiana RiggDavid BradleyJulian GloverIsaac Hempstead WrightJoseph MawleFinn JonesJonathan Pryce e Lena Headey.
Graus de KB: 2 – Lena Headey atuou em Instinto de Vingança (2009) ao lado de John Timothy Botka , que esteve em Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo (1995) ao lado de Kevin Bacon
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Quadrinista e escritor frustrado (como vocês bem sabem esses são os "melhores" críticos). Amante de histórias de ficção histórica, ficção científica e fantasia, gostaria de escrever como Neil Gaiman, Grant Morrison, Bernard Cornwell ou Alan Moore, mas tudo que consegue fazer mesmo é mestrar RPG para seus amigos nerds há mais de vinte anos. Nas horas vagas é filósofo e professor.

4 thoughts on “Crítica | Game of Thrones – 6×10: The Winds of Winter

  1. nossa velho que excelente temporada, estes dois últimos episódios foram os episódios das vinganças, teve a vingança de Jon contra Aliser da Patrulha da noite, a vingança de Arya contra os frey, a vingaça de Sansa contra Ramsey, Daenerys contra os mestres de meereen e de Cersei contra o Alto pardal, nossa! nunca fiquei tão empolgado e feliz assistindo uma serie como fiquei vendo Game of Thrones, pena que agora é só no que vem!

  2. Mais um excelente texto e que final de temporada, sem dúvidas esse foi o melhor episódio dela. Primeira vez que o último conseguiu superar o penúltimo, que geralmente é o melhor e mais impactante.

  3. Vi uma teoria de que a face q arya traz e coloca na parede nao é da waif e sim da atriz morta, dessa forma arya paga sua divida com jaquen e faz sentido ele deixar ela ir, tanto quanto ela manter os poderes dos homens sem rosto.

    ps “em breve” ta repetido no ultimo paragrafo

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