Crítica | Iron Lung: Oceano de Sangue

Crítica | Iron Lung: Oceano de Sangue

De vez em quando, na história do cinema, surge um filme cuja história de produção é tão interessante quanto — ou às vezes até mais — do que o próprio resultado final na tela. Um dos exemplos mais famosos é a primeira adaptação cinematográfica de “Super Mario Bros”: uma produção tão caótica, repleta de conflitos criativos, improvisos e decisões desastrosas, que sua própria história já renderia facilmente um filme — ou até uma série.

“Iron Lung: Oceano de Sangue” é mais um caso curioso nessa tradição. Baseado em um pequeno e experimental jogo indie criado por David Szymanski, o longa teve uma trajetória improvável: nasceu da popularidade de vídeos de gameplay publicados no canal do youtuber Markiplier (Mark Fischbach) e acabou se transformando em um fenômeno inesperado de bilheteria, arrecadando cerca de dezesseis vezes o valor de seu modesto orçamento.

O jogo original ganhou notoriedade justamente graças a vídeos de “Let’s Play”, como os de Markiplier, que ajudaram a tirá-lo da obscuridade e a transformá-lo em um pequeno clássico cult dentro da cena indie. Em 2023, o próprio Szymanski fez uma piada no Twitter dizendo que Mark Fischbach e Jacksepticeye (Seán McLoughlin) deveriam estrelar uma eventual adaptação cinematográfica do jogo. A brincadeira acabou virando realidade poucos meses depois, quando Fischbach anunciou que ele mesmo iria dirigir, roteirizar e protagonizar a adaptação.

O caminho até a tela, no entanto, não foi simples: após apresentar o projeto a diversos estúdios e receber sucessivas recusas, Markiplier decidiu financiar grande parte da produção do próprio bolso — algo relativamente raro em projetos dessa escala, ainda mais para um diretor estreante.

Mas afinal, do que trata Iron Lung?

Assim como no jogo que o inspirou, a história se passa em um futuro distante em que o universo foi atingido por um evento catastrófico conhecido como “Arrebatamento Silencioso”: todas as estrelas e todos os planetas habitáveis simplesmente desapareceram. Apenas alguns milhares de humanos sobreviveram — aqueles que, por acaso, estavam em missões espaciais no momento da catástrofe. Isolados e sem esperança, eles vagam pelo espaço em busca de qualquer pista que possa explicar o ocorrido ou oferecer alguma chance de sobrevivência para a espécie.

É então que surge uma anomalia intrigante: uma lua abandonada contendo um oceano inteiro de sangue.

O protagonista — interpretado pelo próprio Markiplier — é um condenado que recebe uma chance de redenção. Se aceitar uma missão praticamente suicida e sobreviver a ela, poderá conquistar sua liberdade. A missão: pilotar um minúsculo submarino experimental até o fundo do oceano de sangue e capturar imagens de possíveis estruturas ou objetos submersos que possam revelar algo sobre o destino do universo.

Visualmente e conceitualmente, o filme mantém grande fidelidade ao material original. O submarino, por exemplo, é uma recriação surpreendentemente fiel da estética poligonal do jogo — um detalhe curioso que demonstra o cuidado da produção em preservar a identidade visual minimalista da obra de Szymanski.

No entanto, apesar dessa fidelidade inicial, as duas obras passam a divergir bastante após os primeiros minutos. A principal diferença está no tom e na maneira como a narrativa se desenvolve.

Enquanto o jogo foca quase exclusivamente na missão do condenado — com o jogador sozinho em um submarino escuro, guiado apenas por coordenadas e pelo som do casco rangendo sob pressão — o filme tenta expandir a mitologia do universo apresentado. A trama introduz personagens que se comunicam constantemente com o protagonista pelo rádio, amplia o contexto político e social dos sobreviventes humanos e desenvolve um arco narrativo mais claro para o personagem principal.

Algumas ideias que no jogo aparecem apenas como sugestões ou fragmentos de informação são aqui exploradas com mais profundidade. O protagonista ganha motivações mais definidas, conflitos internos e um arco dramático mais tradicional.

O problema é que, ao tentar transformar um conceito minimalista em uma narrativa mais convencional, o filme acaba parcialmente sacrificando justamente aquilo que tornava o jogo tão eficaz: construir uma atmosfera claustrofóbica sem a necessidade de recursos visuais ou narrativos expositivos.

No game, a experiência é construída lentamente por meio de uma sensação crescente de ansiedade e claustrofobia. Cada avanço do submarino nas profundezas do oceano desconhecido parece aumentar a tensão, alimentada pelo excelente trabalho de design de som, pela escuridão e pela imaginação do jogador.

Já no filme, essa tensão raramente atinge o mesmo nível. Sequências excessivamente longas e, por vezes, um pouco tediosas — o longa certamente se beneficiaria de cerca de meia hora a menos de duração — são intercaladas com momentos em que o roteiro tenta explicar, de maneira bastante expositiva, elementos que no jogo permaneciam deliberadamente misteriosos. O resultado é que boa parte do horror e do suspense acaba se diluindo, recuperando algum fôlego apenas nos momentos finais.

Além disso, quando não está expandindo a mitologia do universo original, o roteiro introduz diversos elementos narrativos que pouco acrescentam à trama e desviam o foco do núcleo de horror cósmico que tornava a premissa tão fascinante.

A atuação de Markiplier também é um tanto irregular. Sua performance oscila em vários momentos e pode se tornar um elemento um pouco distrativo — especialmente considerando que ele carrega praticamente todo o peso dramático do filme.

Por outro lado, há sinais claros de potencial em seu trabalho como diretor. Iron Lung é, visualmente, um filme bastante interessante e ocasionalmente até fascinante – o que remete a outro clássico cult do horror cósmico moderno: “O Enigma do Horizonte”, uma obra que também mistura ideias visuais marcantes com uma narrativa constantemente irregular.

Outro destaque é a trilha sonora composta por Andrew Hulshult, veterano da indústria dos games conhecido por trabalhos em jogos como Doom e Dusk. Sua música combina elementos industriais e metálicos que reforçam a sensação de confinamento e tensão dentro do submarino, contribuindo de forma significativa para a atmosfera do filme.

No fim das contas, Iron Lung — assim como o jogo que o originou — é, acima de tudo, um experimento. Um experimento curioso, ambicioso e, em muitos momentos, frustrante. Ainda assim, sua curiosa história de produção, seu caráter autoral e sua tentativa sincera de traduzir uma experiência indie singular para o cinema tornam o filme uma curiosidade que vale a pena conhecer — mesmo que seja apenas para acompanhar as longas duas horas dessa estranha e sangrenta descida ao desconhecido.


Uma frase: “As estrelas se foram. Os planetas sumiram. Nem tinha gente o bastante para dar um nome ao fim: o Arrebatamento Silencioso.”

Uma cena: quando o condenado descobre que não está tão sozinho quanto imaginava

Uma curiosidade: O filme conquistou o recorde mundial de maior quantidade de sangue falso já utilizada em uma produção cinematográfica: cerca de 80 mil galões. Com isso, superou o recorde anterior de Evil Dead, que havia empregado aproximadamente 70 mil galões.


Iron Lung: Oceano De Sangue (Iron Lung)

Direção: Mark “Markiplier” Fischbach
Roteiro: Mark “Markiplier” Fischbach
Elenco: Mark “Markiplier” Fischbach, Caroline Kaplan, Troy Baker, Elsie Lovelock, Elle LaMont, Mick Lauer, Seán McLoughlin e Isaac McKee
Gênero: Ficção científica, Terror, Horror
Ano: 2026
Duração: 125 minutos

Dario Lima

Dario Lima, além de ser faixa branca em todas as artes marciais e modalidades de combate conhecidas pelo homem, é também formado em Cinema. Mas sua verdadeira paixão são os joguinhos eletrônicos, desde que ganhou um Atari de presente do pai em uma época longínqua em que Menudo tocava nas rádios, Chevette era carro de playboy e McGyver passava na TV nas manhãs de domingo. Escreve sobre games na POCILGA e de vez em quando perturba os outros em algum episódio do Varacast.

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