Crítica | Sirât (2025)

Crítica | Sirât (2025)

Mais do que um drama familiar, “Sirât” utiliza o deserto como espaço moral para questionar os limites da empatia contemporânea. O filme inicia fazendo um paralelo entre duas situações. Primeiro acompanhamos Luis (Sergi López), um homem que viaja com seu filho pequeno (entre 8 e 10 anos) em busca da filha desaparecida. A única informação que ele tem é que a moça frequentava festas raves no deserto no sul do Marrocos. A segunda linha narrativa acompanha justamente os frequentadores dessas festas. O que motiva cada um deles a enfrentar o deserto? Existe um claro contraste entre as situações e o filme transcende o drama familiar e a aventura para fazer uma crítica social profunda sobre quem merece a nossa empatia.

Claro, a situação de Luis parece mais plausível, ele seria apenas um pai preocupado com sua filha que não dá notícias há alguns meses. Mas seria ele apenas um pai superprotetor, preocupado com a filha já adulta? Além disso, ao levar o filho criança ainda o coloca em posição de perigo.

No entanto, o mais interessante é observar os frequentadores das raves. O deserto é um ambiente inóspito com clima quente e seco, mas por outro lado tem o isolamento e o contato com a natureza. O isolamento torna-se o elemento central: ali, cada um pode esquecer o mundo exterior e focar apenas no que realmente importa para eles — dançar. Assim é curioso ver o que eles são capazes de enfrentar em busca dessa diversão, ou melhor, desse estilo de vida.

O fato de estarem em um país estrangeiro — no caso, o Marrocos — faz com que a realidade local interfira diretamente na jornada dos personagens, todos espanhóis. O exército chega e termina com a festa, então os frequentadores são obrigados a sair do local. Durante a fuga, Luis conversa com um grupo e descobre que eles estão indo para outra rave. Assim ele se junta a eles para prosseguir com a busca por sua filha.

A partir desse ponto “Sirât”, inicialmente um drama, se torna uma aventura, ou melhor, um road movie através do deserto. O filme assume contornos de um Mad Max realista, no qual a escassez e o perigo transformam o grupo em uma comunidade improvisada de sobreviventes. A fotografia merece destaque ao capturar com precisão a beleza árida das paisagens marroquinas. Os cenários naturais pelos quais os personagens passam realmente impressionam.

Assim, é interessante notar como a obra de Óliver Laxe muda de tom e de gênero sem perder a coesão. Através dessa jornada, acompanhamos um estudo de personagens onde descobrimos um pouco mais sobre a vida de Luis, e principalmente sobre o estilo de vida dos frequentadores de rave.

Para manter o clima do ponto de vista dos frequentadores de rave, a trilha sonora de Kangding Ray utiliza música eletrônica para simular às músicas da festa. Dessa forma, durante toda a duração do filme, dá a impressão de que o espectador está dentro de uma rave. Ao mesmo tempo ajuda a criar outros sentimentos, principalmente de adrenalina e aventura, com as batidas rápidas e constantes, ou de tensão.

Mesmo sem revelar profundamente o passado dos personagens, o filme constrói gradualmente uma forte empatia do espectador por eles. É a partir desse ponto, sem dar spoilers, que “Sirât” surpreende o espectador ao novamente mudar o tom da narrativa, criando um elemento de perigo e tensão. As reais intenções de Óliver Laxe revelam-se justamente no final, ao traçar um paralelo entre a jornada dos protagonistas e a das pessoas que tentam fugir do país em busca de condições melhores, arriscando suas vidas nas condições inóspitas do deserto.

Como é possível que o espectador desenvolva empatia por pessoas que enfrentam o deserto por prazer ou escolha pessoal, mas tenha dificuldade em compreender aqueles que atravessam o mesmo ambiente tentando apenas sobreviver? Essa é a reflexão central proposta por Sirât. Afinal, um dos papéis fundamentais da arte é provocar reações emocionais e questionamentos morais — e a obra de Óliver Laxe cumpre essa função com contundência. Não é um filme fácil, mas é praticamente impossível permanecer indiferente a ele.


Uma frase: – Jade: “Isso não é para escutar, é para dançar.”

Uma cena: Quando o grupo para porque um dos veículos ficou preso em um buraco.

Uma curiosidade: Com exceção de Sergi López, a maioria do elenco é composta por não profissionais, como evidenciado pelo fato de os nomes dos personagens serem os mesmos que seus nomes reais ou apelidos: Tonin, Bigui, Steff, Josh ou Jade. Eles foram selecionados durante um processo de casting de rua e, assim como seus personagens, são em sua maioria “marginais”: alguns vivem à margem da sociedade ou se apresentam em festivais de rua.


Sirât

Direção: Óliver Laxe
Roteiro: Santiago Fillol e Óliver Laxe
Elenco: Sergi López, Bruno Núñez Arjona, Richard Bellamy, Stefania Gadda, Joshua Liam Henderson, Tonin Janvier e Jade Oukid
Gênero: Drama, Ação, Aventura, Mistério, Suspense
Ano: 2025
Duração: 114 minutos

Ramon Prates

Analista de sistemas nascido em Salvador (BA) em 1980, mas atualmente morando em Brasília (DF). Cinema é sem dúvidas o meu hobby favorito. Assisto a filmes desde pequeno influenciado principalmente por meus pais e meu avô materno. Em seguida vem a música, principalmente rock e pop.

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